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16 de dezembro de 2012 - 23:12Discos eternos

Discos eternos – Os Mutantes (1968)

mutantes PRIO DE JANEIRO – “Eles são o som”.

Esta era a frase que acompanhava o pôster de divulgação do primeiro disco de um grupo que fez história no Brasil dos anos 60, em meio a um turbilhão de cenas e fatos, do ocaso da Bossa Nova, do surgimento da Tropicália, das canções de protesto, do engajamento político e, lamentável e infelizmente, de uma ditadura boçal e truculenta, acompanhada de cassações, torturas e os inomináveis “Atos Institucionais”.

Em meio ao fogo cruzado da direita e da esquerda, dois rapazes da Pompeia, bairro operário de São Paulo, e uma menina alta, espevitada, criada com rigor pelo pai linha-dura, filho de índios Cherokee e pela mãe religiosa, de descendência italiana, começaram tímidos na música. Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee mal tinham saído da adolescência e já faziam shows junto com Raphael Vilardi, Mogguy (Maria Olga Malheiros) e Luiz Pastura. Chegaram a gravar um compacto com o nome de O’Seis e as músicas “Suicida” e “Apocalipse”, mas não deu certo.

O jogo virou quando o sexteto virou trio e o grupo, já batizado de Os Mutantes por sugestão de Ronnie Von, passou a tocar no programa do “Pequeno Príncipe”, aos sábados, na TV Record. Na época, eles não tinham material próprio e se divertiam tocando Mozart (a “Marcha Turca” era uma das favoritas), Beatles, Procol Harum e Peter Paul & Mary.

Terminada a fase da Record, começaram a fazer apresentações no “Quadrado e Redondo”, da Bandeirantes. E foi aí que Manoel Barembein, jovem produtor musical da Philips, os conheceu e propôs um contrato. Eles foram também requisitados para as gravações de “Bom Dia” e “Domingo no Parque”, composições de Gilberto Gil classificadas para o Festival da Record de 1967.

Com liberdade total de criação, os meninos tinham à sua disposição músicas feitas pelos tropicalistas especialmente para eles – além do auxílio luxuoso do “Professor Pardal” Cláudio César, o irmão mais velho de Serginho e Arnaldo, responsável direto pelos efeitos e distorções de guitarra e baixo. Afinal de contas, como um luthier zeloso pela qualidade de suas obras-primas, nada poderia sair errado.

O disco de estréia do trio, com inspiração direta dos Beatles e a participação fundamental de Rogério Duprat (o falecido maestro, tido e havido como o George Martin brasileiro) é uma lufada de ar fresco no difícil panorama de uma música nacional que no mesmo ano ainda veria o embate furioso no Festival Internacional da Canção (FIC) entre a corrente que defendia “Caminhando”, de Geraldo Vandré e os que torciam a favor de “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque de Hollanda.

O início é inusitado, graças ao efeito usado no fim de “Panis Et Circenses”, onde o ouvinte tem a impressão que a música terminou – é apenas a primeira tiração de sarro que os Mutantes fariam com seus fãs ao longo dos anos.

Jorge Ben fez “A Minha Menina”, que hoje poderia ser definida como um pop-sambalanço e uma tremenda bandeira sobre a secreta paixão que ele tinha por Rita Lee. E a mistura sonora não parava por aí. Havia espaço para música regional do Nordeste (“Adeus Maria Fulô”, de Humberto Teixeira e Sivuca) e para o existencialismo francês (“Le Premier Bonheur du Jour”, com vocais de Rita Lee e uma bomba de flit – cheia de inseticida, diga-se, para fazer o papel do chimbau), sem esquecer de mais uma zoação em “Senhor F”, com seu refrão que até hoje é um deleite para funcionários nada felizes no trabalho: Dê um chute no patrão… dê um chute no patrão.

Da turma tropicalista, especialmente de Gil e Caetano, além da faixa de abertura, eles receberiam a sensacional “Bat Macumba”, a erótica “Baby” – totalmente eletrificada ao inverso da gravação feita por Gal Costa, e “Trem Fantasma”. E com a ajuda do pai de Arnaldo e Sérgio, o Doutor César Dias Baptista, ainda fizeram uma versão de “Once Was A Time I Thought”, do Mamas & The Papas, caprichando nas aliterações que são o charme da música. Para finalizar, “Ave Gengis Khan”, com um brilhante solo de guitarra de Serginho e o vocal do Dr. César, tocado ao contrário e soando como se ele falasse russo.

Como um primeiro passo na esfera musical nacional, este disco dos Mutantes é simplesmente ótimo. Não é à toa que a revista britânica Mojo considera o trabalho de estréia deles um dos mais inovadores da música em todos os tempos, ocupando o 12º lugar na frente de (ora vejam!) Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band!

Ficha Técnica de Os Mutantes
Selo: Polydor/Polygram/Universal Music
Produção: Manoel Barembein
Gravado nos Estúdios Scatena, em São Paulo, no ano de 1968
Tempo total: 41’52″

Músicas:

1. Panis Et Circenses (Gilberto Gil-Caetano Veloso)
2. A Minha Menina (Jorge Ben)
3. O Relógio (Mutantes)
4. Adeus Maria Fulô (Humberto Teixeira-Sivuca)
5. Baby (Caetano Veloso)
6. Senhor F (Mutantes)
7. Bat Macumba (Caetano Veloso-Gilberto Gil)
8. Le Premier Bonheur du Jour (Jean Renard-Frank Gerald)
9. Trem Fantasma (Caetano Veloso)
10. Tempo no Tempo (Once Was A Time I Thought) (John Philips – versão de César Dias Baptista)
11. Ave Gengis Khan (Mutantes)

2 comentários

  1. fabio de souza disse:

    Sobre rita e jorge ha uma lenda de que tiveram um affair na época da record.outro cara que fez discos lisérgicos foi Ronnie Von, prova que havia ligação entre experimentação e o pop.vez em quando, top com os mixers fabricados pelo Claudio Cezar.

  2. Renzo disse:

    Esses caras plantaram a semente do rock no Brasil
    SEXO,VELOCIDADE E ROCK N ROLL !!!!!!!!!!!!!!!

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