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27 de janeiro de 2015 - 17:04Equipes Históricas, Fórmula 1

Equipes Históricas – Tyrrell, parte VIII

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Pela terceira temporada consecutiva, Jody Scheckter e Patrick Depailler foram os pilotos do velho Ken Tyrrell no Mundial de Fórmula 1

RIO DE JANEIRO - O lançamento do surpreendente modelo P34 com quatro rodas de 10 polegadas na dianteira era só uma pequena amostra do que a equipe de Ken Tyrrell estava disposta a fazer em 1976. Mais do que inovar, a equipe do velho madeireiro chocou o mundo do automobilismo com uma proposta audaciosa e insólita de carro de corrida, como raras vezes se viu até aquela época.

A estreia do seis rodas, porém, teria que esperar um pouco. A Fórmula 1 teria um novo regulamento técnico a partir do GP da Espanha, em que haveria o reposicionamento dos aerofólios traseiros e o fim definitivo dos periscópios, artefatos que serviam como condutores de ar aos cilindros dos motores dos bólidos. Até isso acontecer, a Tyrrell continuaria com o bom e velho 007, ainda com a mesma dupla de pilotos: Patrick Depailler e Jody Scheckter renovaram para mais uma temporada.

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Até o GP dos EUA-Oeste, em Long Beach, os dois pilotos tiveram o Tyrrell 007 ainda dentro do regulamento de 1975, com o periscópio no cofre do motor

O GP do Brasil marcou a abertura do campeonato em 25 de janeiro, com o cancelamento do GP da Argentina. Nos treinos, Depailler fez apenas o 9º melhor tempo e Scheckter largou em décimo-terceiro. Mas o ano começou muito bem para os carros azuis: Patrick foi largamente beneficiado pelos problemas com Jean-Pierre Jarier e James Hunt, que brigavam com Niki Lauda pela vitória. E chegou em segundo, igualando seu melhor resultado na categoria. Jody, mesmo bem atrás, chegou em quinto.

Na África do Sul, Scheckter tinha toda a torcida a seu favor – mas o seu desempenho nos treinos não foi bom. Largou apenas em 12º e na corrida melhorou bastante para chegar em quarto. Depailler largou em sexto, começou em quinto nas primeiras voltas, mas aí despencou para 13º e chegou em nono, uma volta atrasado. E na estreia do GP dos EUA-Oeste, em Long Beach, por pouco o velho 007 não faturou uma pole com Patrick Depailler, novamente superior a Scheckter em treinos de classificação: o francês foi segundo do grid a 0″193 do pole Clay Regazzoni, com o sul-africano apenas em 11º no grid. Na corrida, a história foi outra: Jody andou muito forte, chegou a quarto lugar com 12 voltas e ultrapassou Depailler até seu carro quebrar. O francês foi coadjuvante da dobradinha Regazzoni-Lauda no pódio e somou mais quatro pontos com o 3º lugar nas ruas da Califórnia.

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O Tyrrell P34 de seis rodas estreou oficialmente no GP da Espanha, em 2 de maio de 1976, com Patrick Depailler a bordo

Em Jarama, quando o novo regulamento da Fórmula 1 finalmente entrou em vigor, estreou a Tyrrell P34. O único chassi na pista ficou com Patrick Depailler, enquanto a Scheckter coube a missão de carregar nas costas o velho 007 sem periscópio. O desempenho dos dois foi diametralmente oposto nos treinos: o francês foi o 3º mais rápido no carro novo e inovador, enquanto o sul-africano, a bordo de um carro cansado e envelhecido, ficou em décimo-quarto no grid. Na corrida, porém, o desfecho foi semelhante. Um acidente tirou o novo P34 da pista na 25ª volta, enquanto a bomba de óleo da Tyrrell de Jody pifou a 22 voltas do final.

Zolder presenciou a estreia do segundo P34, entregue a Scheckter, enquanto o chassi batido na Espanha foi reconstruído e voltou às mãos de Depailler no GP da Bélgica. O sul-africano rapidamente se adaptou ao novo carro e chegou em quarto, vindo de sétimo do grid. Já o francês partiu de novo à frente do companheiro de equipe e abandonou de novo: motor quebrado. Nas ruas do Principado de Mônaco, o estranho bólido não sentiu as dificuldades do exigente circuito urbano e Scheckter, cada vez melhor a bordo da criação de Derek Gardner, chegou em segundo, a pouco mais de onze segundos do vencedor Niki Lauda. Depailler completou o pódio, mas bem distante do colega de equipe.

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A consagração do seis rodas: na mesma pista onde vencera o GP da Suécia em 1974, Jody Scheckter deu a primeira vitória ao audacioso P34

Logo depois, chegou a vez do GP da Suécia, em Anderstorp. Uma pista conhecida por ter visto a última dobradinha da equipe em 1974, com Jody em primeiro e Patrick em segundo. Em 1975, a história foi bem diferente, mas muitos apostaram que com o P34 a equipe britânica voltaria a repetir o desempenho de dois anos antes. E não deu outra: Scheckter conquistou uma histórica pole position com o seis rodas e venceu, contando todavia com a quebra da Lotus de Mario Andretti na 45ª volta. Depailler chegou quase 20 segundos atrás.

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Graças ao mal-afamado “tapetão”, Jody foi 2º no GP da Inglaterra

Em casa, o francês foi de novo 2º colocado no circuito de Paul Ricard, atrás de James Hunt, enquanto Scheckter foi o sexto. No polêmico GP da Inglaterra, marcado pela desclassificação do mesmo Hunt que vencera na França, Scheckter terminou em terceiro na pista e foi guindado ao 2º lugar após o polêmico “tapetão”. Depailler não foi feliz e abandonou em Brands Hatch com o motor de seu P34 com problemas, após 47 voltas.

Veio então o triste GP da Alemanha, que entrou para a história pelo incêndio na Ferrari de Niki Lauda. Apesar da tragédia, os pilotos da Tyrrell foram tremendamente profissionais. Jody foi o 2º colocado e somou mais seis pontos, que davam à equipe do velho Ken a vice-liderança do Mundial de Construtores com 49 pontos, quinze atrás da Ferrari. Depailler nem completou a primeira volta após a segunda largada: bateu e desistiu.

Com a ausência de Lauda, a Ferrari foi com um piloto apenas para o GP da Áustria e aí Tyrrell e McLaren vislumbraram uma chance de superar a turma de Maranello no Mundial de Construtores. Só que a cabeça de Jody Scheckter já estava noutro planeta. A renovação de contrato com Ken Tyrrell estava emperrada e, não obstante, o milionário austro-canadense do petróleo Walter Wolf, que tinha uma equipe em sociedade com Frank Williams, ofereceu nada menos que US$ 250 mil líquidos a Scheckter para competir pra ele em 1977.

O dilema não atrapalhou o sul-africano, que nas primeiras voltas, com pista traiçoeira e úmida, travou um duelo espetacular contra Ronnie Peterson e John Watson. O piloto veio de 10º no grid e na décima volta chegou a experimentar o gostinho da liderança. Mas cinco voltas depois, uma peça da complexa suspensão dianteira do P34 quebrou-se a 250 km/h, provocando um acidente violento com Scheckter. Foi a gota d’água e depois disso, Jody decidiu que sairia da Tyrrell para a nova Wolf. Depailler também abandonou em Zeltweg em decorrência de problemas de suspensão.

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Papo reto com James Hunt: Scheckter aceitou uma oferta de US$ 250 mil feita por Walter Wolf e não renovou com a Tyrrell para 1977

Ken não engoliu muito bem a debandada do sul-africano para um time “novato”, porque a Wolf começaria do zero e ninguém apostava um níquel no novo time. Mas Scheckter foi profissional e seguiu seu contrato em 1976 até o fim, embora tenha feito uma corrida um tanto quanto apagada na Holanda: o piloto foi 5º em Zandvoort, enquanto Depailler chegou em sétimo. Àquela altura, com a ascensão e a consequente vitória de Hunt nos Países Baixos, após luta cruenta com John Watson, a Tyrrell perdera a vice-liderança do Mundial de Construtores para a McLaren, por um ponto.

Em Monza, os italianos gritavam palavras de ordem, chamavam a McLaren de “mafia inglese” e Hunt era o vilão da vez na corrida que marcou o retorno de Niki Lauda após 40 dias afastado pelo gravíssimo acidente sofrido em Nürburgring. Os dois pilotos da McLaren foram desclassificados e fracassaram no GP da Itália. Scheckter e Depailler nada puderam fazer com os P34 – foram 5º e 6º, respectivamente, mas pelo menos devolveram a Tyrrell ao 2º lugar entre os Construtores.

No Canadá, em Mosport, Depailler teve a primeira grande chance de vencer uma corrida na Fórmula 1. Rápido durante todo o fim de semana, o francês foi o quarto no grid e andou quase o tempo todo grudado em James Hunt, que passou à ponta da corrida na 9ª volta, superando Ronnie Peterson. Patrick ficou muito próximo do rival, mas nas voltas finais, o piloto da Tyrrell viveu um drama: a gasolina vazou dos tanques de combustível, invadiu o cockpit do P34 e Depailler foi intoxicado. Acabou a corrida praticamente desacordado, numa cena marcante. Scheckter chegou em quarto.

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Sob chuva, Depailler conquistou o sétimo pódio em 1976 no GP do Japão: o francês foi cinco vezes 2º colocado

Em Watkins Glen, o sul-africano fez mais uma brilhante corrida: 2º colocado, logo atrás de James Hunt. Depailler foi o primeiro a desistir, com uma mangueira de combustível quebrada. E no confuso e encharcado GP do Japão, disputado pela primeira vez na história, Depailler foi de novo segundo, fechando o ano de 1976 como começara. Jody abandonou sua última prova a bordo do P34 por superaquecimento.

Apesar das críticas e piadas, o saldo da primeira temporada do P34 foi bastante positivo. A equipe voltou a figurar entre as forças da Fórmula 1, terminando em 3º no Mundial de Construtores com 71 pontos. Depailler conquistou mais pódios que Scheckter, mas o sul-africano deu ao time sua única vitória em 1976. Só que Jody deu adeusinho à Tyrrell e rumou para a Wolf. Ken não pensou duas vezes e trouxe um piloto que estava desacreditado e dera a volta por cima com o mal-amado March 761: Ronnie Peterson.

O que faria o Sueco Voador com os carros azuis? Essa resposta fica para a próxima…

3 comentários

  1. Zé Maria disse:

    (Ajudando o amigo. . .)
    Pequena correção: primeiro parágrafo: as 4 pequenas rodas dianteiras (10 pol) não eram motrizes, ok!
    Abs.
    Desculpas pelo preciosismo.
    Zé Maria

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