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17 de abril de 2015 - 15:56Outsiders

Outsiders: Dan “Eagle” Gurney

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Daniel Sexton Gurney, a lenda

RIO DE JANEIRO - Ele foi talvez o único rival que o Escocês Voador Jim Clark, considerado o mais completo piloto de seu tempo, temeu. No último dia 13 de abril, completou 84 anos. Falo de Dan Gurney, um dos mais destacados pilotos da história dos EUA e que foi também fundador da All American Racers e construtor de belíssimos monopostos que levaram o nome do animal-símbolo do país: Eagle.

Nascido Daniel Sexton Gurney em Port Jefferson, no estado de Nova York, no ano de 1931, era filho de um cantor do Metropolitan Opera e que, ao se aposentar dezesseis anos mais tarde, mudou-se para a Califórnia, na cidade de Riverside. Aos 19 anos, o jovem Dan já seria capaz de façanhas como a de chegar a 222 km/h na pista de sal de Bonneville, em Utah, num carro construído por ele mesmo com os conhecimentos que herdou da família – ele tinha três tios que eram engenheiros. Pôr a mão na massa era com os Gurney.

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Pit stop a bordo de uma Lotus Maserati da equipe dos irmãos Arciero em Riverside, numa corrida em que chamou a atenção da Ferrari

Após servir o exército dos EUA na Guerra da Coreia, Dan voltou às atividades automobilísticas. Já não era um garoto – tinha 26 anos – quando recebeu um convite de Frank Arciero para guiar um bólido com motor Maserati 4,2 litros no GP de Riverside. Chegou em 2º, batendo feras como Phil Hill, Masten Gregory e Walt Hansgen, bem mais experientes que ele. Por intermédio de Luigi Chinetti, o principal importador Ferrari em território ianque, foi indicado para correr as 24 Horas de Le Mans. Ao lado do compatriota Bruce Kessler, chegou a ocupar um excelente 5º lugar na geral – mas a corrida da dupla foi interrompida por um acidente.

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Guiando a lendária Dino 246 no GP de Portugal em Monsanto; pausa para um refresco na foto de Bernard Cahier

A ótima impressão deixada em Sarthe foi a porta de entrada para a equipe do Cavallino Rampante e, após um teste, Gurney foi convidado a integrar a equipe oficial de fábrica no Mundial de Fórmula 1. Estreou no GP da França e logo conseguiu uma sequência de bons resultados – dois pódios na Alemanha e Portugal a bordo da lendária Dino 246 e um 4º lugar no GP da Itália. Acabou em 7º lugar no campeonato com 13 pontos. Mas piloto e equipe não se entenderam bem e Dan buscou novos caminhos.

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“Não funciona!”: a parceria com a BRM e Sir Alfred Owen não deu certo em 1960

Em 1960, dirigiu para Sir Alfred Owen num BRM P48 e quase que sua carreira foi para o buraco. Seis abandonos em sete corridas, um 10º lugar como melhor resultado e nenhum ponto no Mundial ganho por Jack Brabham pela segunda vez consecutiva. Parecia que tudo estava perdido, mas a Porsche – que começava um programa de Fórmula 1 com a modificação no regulamento para motores 1,5 litro – buscou o concurso do estadunidense.

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Duas temporadas pela Porsche e a primeira vitória, no GP da França, a bordo do 804

Com os modelos 718 e 787 do construtor germânico, Dan fez sua primeira temporada completa e saiu-se muito bem, alcançando três segundos lugares – em Reims, no GP da França, contudo, não conseguiu derrotar o atrevido estreante Giancarlo Baghetti, perdendo a corrida por apenas um décimo de segundo. O 4º lugar ao fim da temporada, com 21 pontos, foi uma bela recompensa para o piloto. E se ele falhou o triunfo em 1961, finalmente Gurney chegou à primeira vitória da carreira na F-1 justamente no GP da França, desta vez com o modelo 804. Saldo ao fim do ano: 15 pontos e 5º lugar no campeonato.

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Com o Ford Galaxie da Wood Brothers em 1965 no circuito de Riverside: cinco vitórias em 16 aparições pela Nascar

Naquele mesmo ano, o piloto também fez suas primeiras aparições na Nascar e nas 500 Milhas de Indianápolis. Nesta última, estreou com um 20º lugar a bordo de um Thompson Buick. Nos Stock Cars, suas aparições seriam esparsas, principalmente em circuitos mistos – onde conquistou cinco vitórias, quatro delas em associação à lendária equipe Wood Brothers.

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Dan Gurney foi parceiro de Jack Brabham por três anos e “temido” pelo escocês Jim Clark

Em 1963, aceitou um convite de Jack Brabham, que começava sua aventura como piloto-construtor para dividir a equipe com o australiano, que gostava bastante do estilo “fluido” de dirigir do seu novo parceiro. Se “Black Jack” foi quem conquistou a primeira vitória de seus carros numa prova extracampeonato em Solitude, o primeiro triunfo oficial da Brabham na F-1 coube a Gurney – novamente no GP da França. O estadunidense ganharia também o GP do México com o BT7 de motor Climax, terminando o ano de 1964 com os mesmos 19 pontos do ano anterior.

A parceria foi estendida para 1965 e Dan teve à disposição o novo BT11 no último ano antes da transição para os carros com motor de 3 litros de capacidade máxima. Mesmo sem disputar o GP de Mônaco para tentar a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis, Gurney fez sua melhor temporada na Fórmula 1 em termos de desempenho. Foi visto no pódio em seis oportunidades e deu muito trabalho em várias corridas a Jim Clark – daí o respeito do escocês para com o rival. Acabou o campeonato com 4º lugar, com 25 pontos.

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Sorrindo escancaradamente ao volante do Eagle na corrida de estreia da Anglo American Racers em 1966, no GP da Bélgica

Ainda naquele mesmo ano, inspirado pelos anos em que conviveu com Jack Brabham, Dan associou-se a Carroll Shelby, outra lenda do automobilismo dos EUA, para a fundação da primeira equipe do país a competir em tempo integral no Mundial de Fórmula 1. Contando com a Goodyear, que desejava acabar com anos de domínio da Firestone naquela categoria, como parceira, Gurney e Shelby fundaram assim a All American Racers – que na categoria máxima passou a se chamar Anglo American Racers.

A nova equipe associou-se à britânica Weslake para a construção de um motor V12 dentro do novo regulamento, mas como esta unidade não ficou pronta para o início do campeonato de 1966 em Mônaco – e nem nas provas seguintes – o jeito foi correr com um motor Coventry-Climax com a cilindrada aumentada para 2,7 litros. O primeiro carro foi o Eagle T1F MKI, concebido por Len Terry. Com ele, Dan chegou em 5º lugar no GP da França e também no México. Phil Hill e Bob Bondurant também fizeram parte da Anglo American Racers no correr do campeonato.

O motor Weslake V12, que estreou no GP da Itália de 1966, estava pronto para todo o campeonato de 1967 – mas só fez sua primeira aparição em Mônaco. E após três corridas de insucessos, Gurney entrou enfim para um seleto clube – do qual só fazem (e provavelmente farão) parte o nome dele, de Jack Brabham e posteriormente o de Bruce McLaren: pilotos vencedores com seus próprios carros e equipes.

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Em 1967, a vitória no GP da Bélgica que o colocou no panteão dos pilotos-construtores a triunfar na F1

Para o GP da Bélgica, disputado em 18 de junho daquele ano, Gurney classificou-se em 3º no grid, largando na primeira fila em meio às Lotus de Jim Clark e Graham Hill. Passou em quinto ao fim da primeira volta, mas logo se recuperou e assumiu o 3º posto atrás de Clark e Jackie Stewart. O escocês da Lotus liderou a disputa até a 11ª volta, mas teve problemas mecânicos e retornou atrasado. Stewart e Gurney travaram uma bela disputa pela liderança e o piloto do Eagle superou o rival na 21ª de um total de 28 voltas, abrindo um minuto e três segundos de vantagem para o triunfo consagrador à média horária de 234,946 km/h.

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Celebrando com Moët Chandon a vitória nas 24h de Le Mans de 1967 ao lado da lenda AJ Foyt

Aliás, esta vitória veio justamente uma semana após a histórica conquista nas 24 Horas de Le Mans, em sua 10ª tentativa. Com o Ford GT MkIV partilhado com AJ Foyt, que ganhara em 1967 as 500 Milhas de Indianápolis pela terceira vez na carreira, Dan derrotou o exército Ferrari e seu protótipo 330 P4, cruzando quatro voltas à frente de Lodovico Scarfiotti/Mike Parkes.

Voltando aos monopostos, o Eagle Weslake V12 – considerado (com inteira justiça, aliás) um dos mais lindos Fórmula 1 de todos os tempos – pecava pela confiabilidade e Gurney não foi além de um 3º lugar no GP do Canadá como o melhor resultado além do triunfo em Spa. Acabou o Mundial de Pilotos em oitavo e em sétimo entre os Construtores, com 13 pontos somados.

O anacronismo do motor Weslake começou a cobrar a conta na temporada de 1968 e em cinco corridas a bordo do T1G MkII, o único resultado que o piloto-construtor conquistou foi um 9º lugar no GP da Alemanha. Para voltar a marcar pontos, Dan teve que lançar mão de um McLaren M7A com motor Ford Cosworth, apelando para a boa vontade do rival, amigo e também construtor Bruce McLaren. Terminou em 4º no GP do Canadá e em 21º no Mundial de Pilotos.

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Gurney não venceu em nenhuma das dez participações que efetuou nas 500 Milhas de Indianápolis como piloto, mas foi 2º colocado duas vezes – uma delas, em 1968, com este Eagle Ford

Contudo, o Eagle T2G ainda era veloz nas 500 Milhas de Indianápolis e com um poderoso motor Ford V8 4,2 litros, quase ofertou a Dan a chance de vencer no mítico circuito: ele foi 2º colocado nas edições da prova em 1968 e 1969 e 3º em 1970, já com um motor Offenhauser montado ao chassi. Aliás, Gurney já não pretendia correr na Fórmula 1, mas com a morte de Bruce McLaren testando um protótipo da série Can-Am em Goodwood, a equipe lhe fez um convite para substitui-lo em três corridas. Suas últimas aparições na categoria foram nos GPs da Holanda, França e Inglaterra. Para variar, chegou aos pontos justamente na corrida francesa, com um 6º lugar.

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A última de um total de 86 corridas na Fórmula 1 foi em 1970, no GP da Inglaterra, com um McLaren M14 Cosworth

Em Brands Hatch, já com 39 anos de idade, ele pôs um ponto final em sua carreira de piloto de competição. Na F-1, disputou um total de 86 GPs, com quatro vitórias, 19 pódios, três pole positions, seis recordes de volta em corrida e 133 pontos somados. A partir de 1971, dedicou-se integral e exclusivamente ao ramo da construção de carros de competição.

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A All American Racers conquistou vitórias e títulos inclusive na IMSA com o protótipo Eagle Toyota, aqui guiado por Juan Fangio II

Após a passagem pela Fórmula 1, a All American Racers não só se especializou em carros para a USAC e 500 Milhas de Indianápolis como também na construção de Protótipos da série IMSA. Foram 78 vitórias nas mais diferentes pistas do país e oito campeonatos conquistados pela AAR. Afora três títulos na USAC e três vitórias de seus bólidos nas 500 Milhas – duas com Bobby Unser em 1968 e 1975 e uma com Gordon Johncock, em 1973.

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Tom Sneva a bordo do Eagle 85G Cosworth

Em fins de 1978, talvez inspirado pelos métodos de Bernie Ecclestone no comando da Associação de Construtores da Fórmula 1 (FOCA), Dan Gurney foi um dos artífices da criação da Championship Auto Racing Teams (CART), ao lado de Roger Penske, Pat Patrick e Bob Fletcher, mudando a história das competições de monoposto nos EUA. A All American Racers disputou a série até 1986 e regressaria uma década depois, como equipe oficial da Toyota e com o chassi Reynard.

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O último monoposto Eagle: o 987 com motor Toyota, guiado por Alex Barron na CART em 1999

O último monoposto Eagle foi o 987, que disputou as temporadas de 1998 e 1999, quando a Goodyear – parceira fiel de Gurney em mais de três décadas – desistiu de fornecer pneus para a Fórmula Indy e a AAR deixou a categoria. Em 2000, a equipe conheceu seu último ano de atividade na Fórmula Toyota Atlantic, em que Dan alinhou um bólido para seu filho, Alex Gurney.

Mesmo aposentado, Dan Gurney emprestou seu nome para a empreitada do projeto Delta Wing, encampando o desenvolvimento do estranho carro que foi proposto inicialmente como um modelo para a Fórmula Indy e que virou um protótipo experimental para as 24 Horas de Le Mans em 2012, em parceria com a Nissan. E nesta semana, como presente por seu 84º aniversário, a lenda viu uma de suas criações que disputou a Indy 500 inteira e impecavelmente reconstruída em homenagem a tudo o que Dan fez no esporte.

11 comentários

  1. Jose Wesley disse:

    Nos tempos da CART, sempre assistia as corridas no SBT torcendo para aqueles carros com o “bico de águia”. Achava um dos mais legais do grid. Nem imaginava que por trás daquela pintura havia uma história tão fascinante…

  2. Alvaro Ferreira disse:

    Fera, muito fera!
    Sobre a vitória em Le Mans, existe uma polêmica muito divertida entre os dois pilotos, até os dias de hoje. O Gurney sustenta que eles só ganharam porque as voltas dele eram muito mais rápidas que as do Foyt. Já o texano diz que só ganharam graças à sua força. Detalhe: durante a noite, ele parou para reabastecer o carro e fazer a troca de pilotos. Só que…. ninguém achou o Gurney! A equipe mandou o Foyt de volta prá pista e ele dirigiu a madrugada inteira, até ficar com os braços duros e doendo uma barbaridade. Pode-se imaginar o que ele xingava o Big Dan dentro do carro…. Até hoje ele afirma que o “companheiro” sumiu de propósito!

    • Antonio Seabra disse:

      Otima observação, Alvaro, eu não conhecia essa historia !!!
      Valeu..

      • Alvaro Ferreira disse:

        Essa e outras ótimas histórias costumam aparecer na Motorsport inglesa, na coluna “Lunch With”, em que o jornalista Simon Taylor narra suas conversas durante o almoço com grandes personagens das corridas, em seus restaurantes favoritos. No caso do Foyt, essa história apareceu na edição de fevereiro passado, em que o texano, tipicamente, elegeu como lugar do almoço uma hamburgueria perto da sede de sua equipe…

  3. Antonio Seabra disse:

    Excelente post sobre o Big Dan. Note que o Ford GT Mk IV n° 1 tinha um bulbo sobre o teto (na realidade era na parte superior da porta), para acomodar a altura do Gurney.
    Que eu me lembre só vi isso numa das Ferrari 312 P berlinetta (fechada) de 1969, por conta da altura do Mike Parkes, e num dos Cobra Daytona.
    Algumas fotos recentes mostram o Ford n° 2, amarelo, de McLaren e Donahue com a bolha no teto, mas na corrida ele nao tinha isso. Nem os outros 2 MkIV tinham isso, so o n° 1, de cor vermelha, que foi o vencedor, com Dan e Foyt.

  4. luigi disse:

    Todos sabem que não sou muito afeito ao automobilismo americano ,más nomes como Dan Gurney, A.J.Foyt, Phil Hill , Jim Hall ,os Andreti´s eu tenho muito respeito e consideração .
    E se Clark o tinha como grande piloto quem sem ser um completo imbecil poderia contestar essa afirmação .
    Parabéns Rodrigo por trazer a quem não tenha a história do automobilismo como estudo( ou não eram nascidos na época de ouro do automobilismo ) o conhecimento de grandes carros ,projetistas ,equipes e pilotos que fizeram desta modalidade de esporte uma paixão para muitos
    E parabéns ao grande Dan .

  5. luigi disse:

    Poucas palavras mas com grande conteúdo: “simplesmente um dos melhores pilotos que já se teve no automobilismo.”

  6. Vitão disse:

    1- a informação sobre o respeito de Jim Clark prestava ao Gurney foi dada pelo pai de Jim no seu enterro. Segundo Jim , talvez somente Graham Hill , Jack Brabham e Rindt suportavam a pressão dele na pista .

    2- Gurney tem um his´toria muito curiosa em SPA. Durante a corrida ele teve um desarranjo intestinal, e como a pista era longa,- mais de 14 km- ele parou na beira, deixou o carro em marcha lenta, pulou o guard-rail e fez a “obra” lá mesmo. A revista Car&Driver publicou uma foto com ele agachado ao lado do guard-rail, com alguns espectadores incrédulos olhando. Ele ainda foi e venceu a corrida ! Segundo uma declaração posterior a revista, não ficaria bem o vencedor chegar todo cagado no pódio !!! procurei esta foto por anos mas não a encontrei na internet .

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