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3 de agosto de 2015 - 14:00Stock Car

Teatro do Absurdo

RIO DE JANEIRO - Cheguei ontem para trabalhar no Fox Sports na corrida da Sprint Cup da Nascar em Pocono, e logo tomei conhecimento de um dos acidentes mais impressionantes da história da Stock Car brasileira. Tão chocante quanto a capotagem de Gualter Salles em Buenos Aires, sem contar as mortes de Laércio Justino, Rafael Sperafico e Gustavo Sondermann – estas últimas nas classes Stock Light e Pick-Up Racing, já extintas.

A primeira prova da rodada de Curitiba vinha se dirigindo para a 10ª volta, quando o carro de Thiago Camilo teve um problema mecânico e perdeu velocidade. No PSDP, posto da direção de prova, foi deflagrada uma bandeira branca – que significa veículo lento na pista. Alguns pilotos que vinham descendo a reta não devem ter visto a sinalização e aí aconteceu uma “panca” inacreditável, envolvendo os carros de Raphael Matos e Felipe Fraga. O acidente foi impressionante e após a bandeira vermelha, a corrida foi interrompida.

criança stock

Imediatamente, a revolta tomou conta nas redes sociais. Não sem razão, lembramos que Cacá Bueno foi punido por falar umas verdades e imagino o que o pentacampeão da Stock Car deve ter pensado após assistir tudo aquilo de casa. E não seria o único absurdo do dia, pois do nada, crianças atravessaram alegremente a pista, numa evidente falha de segurança do Autódromo Internacional de Curitiba, que recebera alguns dias antes a visita de alguns fãs da velocidade em quatro patas.

O amigo Américo Teixeira Jr., em seu Diário Motorsport, coloca que à luz da razão, a atitude de se exibir a bandeira branca foi, de fato, a opção correta. Thiago Camilo vinha muito mais lento na pista. O Código Desportivo do Automobilismo (CDA) da Confederação Brasileira de Automobilismo, em seu Capítulo XIV, Seção X, Artigo 108, inciso 2, indica o seguinte no 5º item:

V – Bandeira branca:
a) Indica a presença de um veículo lento e/ou veículo de serviço na pista;

b) Através dela, os pilotos deverão ser informados de que estão a ponto de ultrapassar um
veículo que estiver se deslocando a uma velocidade muito inferior àquela de seus
veículos de competição;

c) Deverá ser apresentada, quando um veículo de serviço entrar na pista ou quando um
veículo de competição se deslocar em velocidade reduzida;

d) Deverá ser mostrada desde o momento em que o veículo lento passar pelo posto de
sinalização, até o momento em que ele alcançar o posto seguinte;

e) Depois do procedimento acima, deverá ser apresentada imóvel durante o tempo em
que o veículo percorrer o setor do posto posterior e deverá ser retirada assim que o
veículo transpuser este último;

f) O responsável pela entrada de um veículo de serviço na pista deverá se assegurar de
que o posto anterior ao local em que ocorreu essa entrada tenha sido devidamente
avisado da situação;

g) Se um veículo parar na pista, mesmo sendo de serviço, as bandeiras brancas deverão
ser substituídas imediatamente pelas bandeiras amarelas

Talvez, se houvesse a sinalização em bandeira amarela, conjuntamente com a bandeira branca, o acidente pudesse ser evitado. A presença de Spotters (Olheiros), avisando do perigo via rádio num ponto mais alto e visível do traçado, também poderia evitar um dos acidentes mais fortes do automobilismo nos últimos anos.

Outra situação incômoda: a regra da Stock Car que um carro que não chega aos boxes por seus próprios meios não pode participar da segunda prova de cada final de semana. Essa regra precisa urgentemente ser revista. Acho que só em casos extremos como um acidente com danos irreversíveis e uma quebra irremediável é que um piloto pode ser impedido de voltar à pista na prova seguinte. Esse conceito é estapafúrdio.

Honestamente, foi até positivo que, dada a situação do acidente, ninguém tenha saído ferido com mais gravidade. Thiago Camilo sofreu um corte num dos pés e precisou receber alguns pontos. Felipe Fraga, por ter batido em cheio no carro já abalroado por Raphael Matos, preocupou mais a princípio, porque o piloto sentia dores no tórax e num dos joelhos. Após os exames de praxe, não foram constatadas fraturas e os pilotos passaram a noite em observação num hospital de Curitiba.

Mais uma luz de alerta foi ligada dentro do combalido automobilismo brasileiro. Quantas mazelas mais terão que acontecer para que se tomem atitudes?

13 comentários

  1. Alvaro Ferreira disse:

    Rodrigo, acho que o que aconteceu ontem na Stock foi uma conjunção de erros e falta de planejamento, mas também de acasos de um dia de………… pura zica! O que deu de errado numa prova só é fora da lei das probabilidades! Para o azar, não tem muito o que fazer. Mas em relação aos erros e falta de planejamento, sim.
    A primeira coisa seria mudar essa regra de voltar aos boxes: tem que mudar já para a próxima etapa. Tá lento, encosta em um local seguro fora da pista e os fiscais recolhem o carro. Se for em local perigoso, Safety Car. simples assim. E volta para a bateria seguinte, por que não?
    Depois, em vez de só agitar bandeira branca ou amarela, tem que ter um aviso eletrônico dentro do carro, uma luz no painel, sei lá, qualquer coisa que indique imediatamente aos pilotos o risco e a ação que devem tomar. A visibilidade nos carros da Stock é muito ruim, nem sei se viram a bandeira. Aliás, podiam mudar isso também, projetar carros mais, digamos, normais.
    Finalmente, quanto à invasão dos garotos; essa é a mais difícil de corrigir. O Flávio Gomes mesmo comenta hoje em seu blog sobre a dificuldade de controlar o perímetro enorme de um autódromo. Esse tipo de invasão já ocorreu em vários lugares do mundo. No entanto, depois dessa, talvez seja o caso de aumentar a segurança, botar um vigia a cada 50 ou 100 metros em torno da pista. Isso tem um custo, mas vale mais do que colocar vidas em risco.

  2. Fernando Lima disse:

    Já comentei a respeito no blog do Flávio Gomes e reitero aqui: O maior problema ao meu ver foi o não acionamento de bandeiras amarelas com entrada do Safety-Car, tanto no ocorrido com o Valdeno, logo nas primeiras voltas, como e, principalmente no caso do Thiago Camilo. Vale lembrar que a reta da pista de Curitiba é uma das maiores e mais velozes (se não a maior…) do Brasil e uma panca daquela nos fez temer pelo pior…se o Carro do Camilo tivesse no ponto com a mureta dos boxes ainda provavelmente voltaria para o meio da pista, ai…Deus nos livre…
    Sobre o Valdeno, só mais uma observação: Foi excluido da prova porque cumpriu o desastroso regulamento para participar da segunda prova e cumprir seus compromissos com a equipe, patrocinadores e etc…estou vendo muita gente criticá-lo mas devemos lembrar que sempre foi um piloto responsável…outros ali, nem tanto. Aliás, dos diretamente envolvidos apenas o Rafael Mattos foi mais incisivo em suas declarações sobre bandeira amarela…o Burti, sinceramente foi bem estranho na entrevista para a tv…nada acha…nada viu…estranho mesmo.
    Para finalizar, ficou nítido mesmo para quem acompanhou pela tv (meu caso…) o clima tenso, pesado, pessoas chorando assustadas…não havia “clima” para retomar a corrida e até acho que alguns dos vários abandonos da segunda bateria foi devido a isso…duvido que o Laurens Vanthoor aceite um convite novamente para uma merda dessas.

  3. Natanael Felipe Rhoden disse:

    E faltou muito pouco para não acontecer um acidente idêntico quando o carro do Denis Navarro também ficou lento no mesmo ponto da pista. Ele teve sorte de ter passado a mureta dos boxes e puxar pra direita quando um carro se aproximava e quase em cima pode puxar para esquerda. Seria a mesma pancada e também assustadora. Ainda tenho minhas dúvidas no quesito segurança quanto a batidas em T nesses carros da Stock Car. Pelo menos ninguém se machucou

  4. Taris disse:

    Infelizmente essa regra do cara voltar com meios próprios é necessária. Talvez algum piloto/equipe poderia se aproveitar disso para ludbriar a Direção de Prova.
    Ex. Um piloto da Equipe A é orientado a encostar o carro e desligá-lo para forçar a entrada do safety car. Assim o outro piloto da equipe poderia ter alguma vantagem… essa situação poderia até decidir um titulo.
    Acho que o que deveria ser feito eh agitar as bandeiras amarelas duplas e com velocidade aumentada.

  5. É gurizada…

    1 – No caso do Valdeno, caranguejando pela reta oposta, deveria ter sido dada bandeira amarela na pista toda, visto que se sabia que ele ainda tinha condições de movimentar o carro e tentar trazer para o BOX. Na reta oposta até tinha bandeira amarela agitada, na imagem da caranguejada antes da curva, mas quando ele ficou de bico atravessado na outra curva, nada de bandeiras, pelo menos pela imagem da TV.
    2 – No caso da porrada na reta, havia bandeira branca, OK… porém, será que o rádio das equipes só serve para reclamações e estratégias ? Ninguém das equipes avisou os caras antes de entrarem na reta que existia bandeira branca e um carro bem lento na direita ?
    3 – Pela imagem, acredito que o Tiago poderia estar mais colado no muro ou quando sentiu a falha, poderia ter ficado no traçado externo, no outro muro, e o restante do pessoal passaria por dentro… Mas como não temos os onboard pra saber onde começou a falha dele, se antes da curva de entrada de reta ou depois, fica difícil avaliar…
    Pra mim, ninguém errou, foi uma fatalidade, que poderia ter sido evitada de duas maneiras.
    Maneira 1 – Rádio entre Equipe e pilotos avisando da situação.
    Maneira 2 – Posto de sinalização antes da reta deveria estar com bandeira branca ou amarela parada, para impedir ultrapassagem somente. E não só o PSDP com bandeira branca…
    Porém, imagino que o carro do Tiago deva ter entrado em modo de segurança e desligou, como já vimos em outras etapas, tipo a do Velopark, onde um carro, não lembro de quem, desligou na reta principal pois havia excedido a temperatura do motor…
    Este pra mim foi o erro… ter carros que desligam em plena pista para evitar quebras mecânicas…
    Tá loco…

  6. Antonio disse:

    Prezado Rodrigo, gosto muito dos teus textos, mas o título deste foi infeliz.
    Não houve nenhum Teatro do Absurdo, mas eventos que poderão – e deverão – ser melhor administrados futuramente.
    Graças a Deus, as consequencias foram mínimas, o que não deve dar margem de se postergar as medidas para evitá-las.
    No caso do acidente, a orientação feita pela bandeira branca foi correta, como descrito em seu texto.
    Portanto a maior alteração a ser feita, talvez seja mesmo sua sugestão, deixando o carro que abandonar a prova, sem chegar aos boxes, largar na segunda prova do dia. Ganha a prova como um todo, pois quanto mais carros no grid, melhor.
    Com relação as crianças, corre paralela a reta oposta do autódromo – que conheço muito bem – um córrego que separa as cidades de Curitiba (do lado de lá) e Pinhais, em cujo terreno fica o autódromo. Em Curitiba, ao lado do córrego, existe um bairro onde vivem famílias de baixa renda, em geral ( não é uma favela), onde moram – como em qualquer bairro similar – várias crianças. Sinceramente, nunca tinha visto este tipo de invasão, mas como há de se criticar meia duzia de piás (como são chamados os meninos aqui em Curitiba) que atravessaram o rio e foram dar uma olhada naqueles carros de corrida coloridos e barulhentos. Piás que com certeza não tinham dinheiro para pagar um ingresso para assistir adequadamente a corrida.
    Autódromos são, de forma geral, áreas muito vastas e tenho certeza que a organização vai colocar mais meia dúzia de seguranças (empregos bem vindos nesta época de crise) para solucionar o problema.

    • Rodrigo Mattar disse:

      Se não houve, houve o que, então?

      • Antonio disse:

        Já expliquei. O título do teu texto dá a entender que houve uma sucessão de erros, quando na verdade foram episódios que não tinham como ser previstos.
        Infelizmente temos – todos nós – mania de procurarmos culpados em todos os fatos onde algo dá errado, mas nem sempre eles existem e ai fica – em todos nós, repito – a frustração de não poder incriminar ninguém.
        Mas que fique de lição para provas futuras.

      • Rodrigo Mattar disse:

        E não houve erros? Claro que houve, né Antonio. Me poupe.

  7. Houve sim e mais, houve falha da direção de prova em não ter dado amarela, pelo menos parada sem tremular, no posto de sinalização antes da reta, na curva de entrada, avisando que algum perigo existia adiante e que a ultrapassagem estaria proibida. Porém, podendo passar de pé trancado um atrás do outro.

    Se fosse bandeira agitada aí sim, além de proibida a ultrapassagem, os pilotos deveriam vir um pouco menos rápido, levantando o pé um pouco só, pois alguma coisa um pouco mais séria teria a frente.

    Se fosse duas bandeiras amarela agitadas freneticamente, aí sim seria reduzir para regime de Safety Car com segurança e sem dar pisão no freio, pois alguma coisa estaria atravessada na pista.

    Mas, vamos ver quantos falhas mais teremos por falta de comunicação decente entre o PSDP e os postos de sinalização… se tem rádio, o som é muito ruim e as pessoas não sabem usar ou nem falar direito num rádio…

    O certo, pra mim, seria colocar cada um dos comissários da CBA que ficam no PSDP ou na torre, espalhados nos postos de sinalização.

    Porque eles ficam todos agrupados na torre ?

    Pra ver imagem da TV pra punir ?

    Só precisa 3 alí nos Boxes… O diretor de prova, mais um pra discutir imagem e um pra controlar a velocidade nos PITS que também participa da análise de imagens…

    O restante deveria ficar um em cada posto de sinalização…

    FIM !

  8. Paulo Fonseca disse:

    As imagens são provas documentais que a falha do diretor de prova,em não avisar via rádio todos os demais pilotos e também do Piloto T.Camilo em continuar na pista devendo ficar mais próximo da mureta da reta dos boxes.

  9. Marcos José disse:

    E pelo jeito na categoria o uso do rádio pelas equipes (e também pelos pilotos) só servem para “reclamações”.

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