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26 de outubro de 2016 - 01:14Fórmula 1, Memorabilia

Hunt, 40

Formula One World Championship

Niki Lauda e James Hunt: dois titãs das pistas na maior batalha que o automobilismo conheceu nos anos 1970

 

RIO DE JANEIRO - É praticamente impossível não deixar passar batido que completou-se no último dia 24, na segunda-feira, quatro décadas da histórica conquista de James Hunt. O britânico que saiu de uma condição de desempregado na Fórmula 1 para derrotar Niki Lauda numa das batalhas mais titânicas que o universo do automobilismo teve o privilégio de conhecer.

Uma rivalidade que recrudesceu ao longo do ano, pois o austríaco, que defendia seu título mundial ganho em 1975, era tido como o piloto mais completo de seu tempo. Portanto, questão de honra para qualquer piloto derrotá-lo. Como um dos únicos capazes – Emerson Fittipaldi – decidiu apostar num futuro duvidoso com a Copersucar, a vaga da McLaren, uma das mais cobiçadas na época, estava aberta.

E foi um verdadeiro jogo político que se desenvolveu entre o anúncio do divórcio do brasileiro com a equipe de Teddy Mayer, oficializado num curto e grosso telefonema em 14 de novembro de 1975, até o início do campeonato do ano seguinte. Nesse ínterim, Hunt havia perdido o apoio de Lord Alexander Hesketh, seu perdulário mecenas que torrou tudo o que tinha e o que não tinha num projeto ambicioso de Fórmula 1. Uma equipe que, se esbanjava simpatia por um lado, pelo outro humilhava o resto por conta do caviar, champagne e cascatas de camarão servidos no paddock. Era um fausto excessivo para um time sem patrocínios.

Lord Hesketh achava que não precisava deles. Mas quando teve que gastar £ 1,3 milhão no projeto do 308/3 e zerar a despesa, ficou quebrado. Os carros ficaram com Bubbles Horsley, seu braço-direito, ou então foram parar nas mãos da equipe Wolf/Williams, para onde migrara seu engenheiro Harvey Postlethwaite. De repente, James ficava no desvio. A Lotus, decadente, o queria. Mas ele fez tudo para ser escolhido pela McLaren. Até se portar bem com os executivos da Texaco e da Phillip Morris, leia-se Marlboro.

Da parte do piloto, Peter Hunt, seu irmão, fez o que podia. John Hogan e Patrick Duffeler, da parte dos patrocinadores, também – demoveram da cabeça de Teddy Mayer que seria uma “boa ideia” contratar Jacky Ickx – e o desempenho do belga naquele ano daria razão aos homens da companhia de tabaco. E Horsley, num telefonema, também deu o seu aval.

“Se você quer ser campeão, contrate James Hunt”, disse a Teddy Mayer.

Quem leu o livro Corrida Para a Glória, de Tom Rubython, sabe que a relação entre Hunt e a McLaren foi feroz e tempestuosa. Desde o início. Lauda aproveitou-se disso e foi empilhando pontos e vitórias. Mas a partir do momento em que James e a equipe começaram a se entender, o britânico tornou-se uma ameaça real.

Houve também as polêmicas. Muitas, aliás. A primeira foi no GP da Espanha, em que a largura do carro de Hunt estava 1,6 cm além do permitido pelo regulamento – e cabe notar que só naquele ano da graça de 1976 a FIA começou a se preocupar com limites de largura nos bólidos. James foi excluído do resultado final e, depois de um apelo inédito, a entidade lhe restituiu os pontos.

Mas outra situação que não coube recurso foi a do GP da Inglaterra. Nesta corrida, James se envolveu num acidente após a largada e, por regulamento, não deveria fazer uso do carro-reserva. Ele o fez. Perdeu os pontos – que foram para Niki Lauda. Era a 9ª etapa de um campeonato de 16. O austríaco da Ferrari tinha 61 pontos. Hunt, 26.

James-Hunt-Vs-Niki-Lauda-A-História-Do-Maior-Duelo-Da-F1-5

As marcas da tragédia de 1º de agosto de 1976 foram profundas na pele e na alma de Niki Lauda

Parecia impossível que o campeão de 1975 pudesse perder o título. Mas houve a tragédia na Alemanha, em que Lauda quase perdeu a vida. Seria lugar comum apelar para esse subterfúgio do acidente quase fatal de Niki para justificar o campeonato conquistado por Hunt. É bom lembrar que a Ferrari não colaborou: poderia ter levado pelo menos Regazzoni à Áustria e não o fez. Voltou na Holanda com um carro apenas e Niki viu que não podia depender nem de Rega e nem do diretor esportivo Daniele Audetto, que nos bastidores o desgostava, se quisesse levantar de novo a taça de campeão.

Teria que voltar e provar a Maranello que todos estavam errados.

Lutou pela vida como um leão ferido. Viu Watson ganhar de forma épica em Zeltweg e um Hunt, inspirado, triunfar na Holanda, reduzindo a diferença de 35 para catorze pontos. E quarenta e dois dias após Nürburgring, lá estava Lauda, marcado eternamente pelas queimaduras e feridas – algumas delas ainda abertas – voltando no GP da Itália para chegar em 4º numa corrida em que Hunt não fez nada.

Mas Niki estava no seu limite. Da paciência, do psicológico e do físico. Por isso, não foi surpresa que deixasse James descontar mais pontos quando o britânico ganhou mais duas provas em Mosport e Watkins Glen, reduzindo a vantagem de Lauda para apenas três pontos. E foi assim que os dois titãs das pistas chegaram ao palco final: Fuji Speedway, que receberia o primeiro GP do Japão de Fórmula 1.

E foi aquela loucura, aquela água toda naquele 24 de outubro de 1976. Lauda dando três voltas e parando. Hunt, guiando insanamente no molhado, mãos sangrando com a quebra da alavanca de câmbio no cockpit, um pneu furado, o desespero da equipe. Chegou em terceiro? Não chegou? Passou Jones? Não passou?

Pois é… foi um drama. E Hunt, com o 3º lugar, levou o campeonato por um ponto apenas. Uma conquista épica.

Mas o que se seguiu depois disso mostrou muito bem a diferença de caráter entre esses dois monstros.

James-Hunt-Vs-Niki-Lauda-A-História-Do-Maior-Duelo-Da-F1-11

Hunt foi, sem dúvida, o maior playboy que a Fórmula 1 teve a chance de conhecer. Mas era rápido, competente, tinha vontade de vencer. E por isso foi campeão

Enquanto Lauda continuava o piloto pragmático e focado de sempre, tanto que voltaria a ser campeão e, desgostoso com a Ferrari, assinou com a Brabham e solidificou-se como o mais bem pago de seu tempo, James Hunt seguiu o ritual de hedonismo e excessos que marcaram sua carreira. Insaciável no sexo, na bebida e nas drogas – principalmente maconha e cocaína – Hunt não era propriamente um profissional. Era um tremendo bon vivant, talvez o maior galinha que a Fórmula 1 conheceu, pondo até o tricampeão Nelson Piquet no bolso.

Os leitores que me perdoem o palavrão, mas putaria era com ele mesmo…

E não foi surpreendente que, em 1979, Hunt se enchesse do automobilismo de competição e se aposentasse como piloto. Voltaria como um excelente analista de corridas da BBC, dividindo transmissões com Murray Walker, mas aí já é outra história. Curioso notar que, no mesmo ano, Lauda pegou o boné e foi embora da F-1 para voltar algum tempo depois e ser o velho Lauda que ainda tinha muita lenha para queimar.

Dois monstros sagrados. Duas personagens tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais na busca de um único objetivo. Por isso é tão grande o significado daquele campeonato. Por isso, até hoje lembrado. Por isso virou filme e livro.

E por isso mesmo fica eternamente na memória de quem ama automobilismo.

Hunt já não está mais aqui. Morreu precocemente, aos 45 anos, de infarto, em 1993. A vida lhe pregou uma peça. Mas o fez e ainda faz com que seja lembrado por todos nós. Talvez não da forma como ele gostasse.

Mas vai saber… pode ser que no céu ou no inferno, dependendo da boa vontade do interlocutor, ele esteja atracado numa orgia pra ninguém botar defeito, rindo muito da nossa cara.

8 comentários

  1. OZZMAIR disse:

    Pode-se dizer que esses caras fazem parte do seleto grupo de pilotos que , independentemente de terem sido campeões ou não , serão lembrados pra sempre no mundo da F1 e do automobilismo.

  2. Alex disse:

    Vale lembrar que hoje 26 de outubro completa-se 30 anos do não menos histórico GP da Austrália de 1986. As lembranças daquela madrugada de domingo (aqui no Brasil) continuam muito vivas na minha cabeça. Acho que foi a melhor corrida já vi.

  3. Menos El Orso disse:

    Dia negro para o endurance, Audi fora do WEC no fim deste ano. Começo a achar todo o projeto P2/DPi a melhor ideia de todos os tempos.

  4. FontesL disse:

    Fico imaginando se hoje, um piloto como o Hunt teria espaço na F-1. Sem levar em conta o aspecto físico, embora ache que antigamente a F-1 seria, fisicamente tão desafiadora quanto hoje, mas pensando na figura, do cara pegador, bon vivant, como você mesmo cita… Acho que seria proibido de guiar até carrinho de rolimã…

  5. MarcioD disse:

    Dificilmente Lauda perderia este titulo para Hunt não fosse o terrível acidente em Nurburgring, onde Lauda por pouco não perdeu a vida. Antes de Nurburgring a diferença era 61x 26 pontos e 5×2 vitórias a seu favor. Não correu na Áustria e na Holanda(onde Hunt ganhou), conseguiu uma recuperação fantástica e voltou em Monza. Nas condições em que ele se encontrava e por causa dos GP’s de que não participou foi mais fácil Hunt tirar a diferença e mesmo assim antes do GP do Japão ainda estava 3 pontos à frente de Hunt. Só dele ter conseguido voltar a correr depois de um acidente daquelas proporções e ainda no mesmo ano, já é algo impressionante. Certamente a sua pilotagem deve ter sido bem afetada(outros ex. Piquet, Berger, Massa), conseguindo na volta às pistas somente um 4º, um 8º e um 3º e sua decisão de abandonar no Japão foi bem razoável, levando-se em conta o acidente que sofreu e que a pista tinha alagamentos e neblina em alguns pontos. Mais tarde declarou ” minha vida vale mais que um titulo”.
    Conseguiu voltar a ser campeão em 77 e depois em 84 superando Prost.

  6. Zé Maria disse:

    Rodrigo sempre nos brindando com textos fantásticos!
    Sorte de quem tem a chance de poder desfrutar destes grandes momentos!

  7. Fabio Machado disse:

    Grande matéria, parabéns pelo texto amigo.

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