MENU

15 de novembro de 2016 - 14:42Fórmula 1

Bye bye, Ron

image16x9.img.1024.medium

Ron Dennis não será mais o CEO da McLaren: o dirigente que completa 70 anos em 2017 foi praticamente obrigado pelos demais acionistas do grupo a deixar a chefia da equipe que ajudou a reerguer na década de 1980

RIO DE JANEIRO - A Fórmula 1 vai se despedir de uma das figuras mais polêmicas e controversas dos últimos tempos, mas igualmente competente e com mentalidade vencedora dentro da categoria. Aos 69 anos, Ron Dennis foi forçado a dar adeus ao posto de presidente e CEO do grupo McLaren.

Um grupo barenita que possui 50% das ações do grupo e Mansour Ojjeh, antigo dono da Techniques d’Avant Garde, hoje com 25% do total (Ron é dono dos restantes 25%) literalmente armaram nas encolhas para que o homem que levantou a equipe da absoluta decadência saia do seu posto e dê lugar a gente nova – no caso, o anglo-estadunidense Zak Brown, de 44 anos, que tem inclusive negócios com o Liberty Media, o grupo que passará a controlar a categoria a partir de 2017.

Segundo uma matéria da BBC escrita por Andrew Benson, o estilo autocrático de Dennis hoje é considerado “antiquado” em meio aos tempos modernos do automobilismo. A McLaren também não vive um grande momento, tendo perdido patrocinadores e prestígio. Ano passado, o time sediado em Woking viveu a pior temporada da história da administração Ron Dennis. Em 2016, o desempenho melhorou, mas não muito. Hoje, a equipe não faz cosquinha nem na Force India.

É sempre bom lembrar que Ron Dennis começou sua carreira como mecânico – ou seja, sempre esteve envolvido com o esporte a motor desde a mais tenra idade. Começou na Cooper e conquistou a confiança de Jack Brabham  e Ron Tauranac, trabalhando para eles como mecânico-chefe da Motor Racing Developments, nos anos 1960/1970. Depois, conseguiu um sócio – Neil Trundle – e montou a equipe Rondel Motul na Fórmula 2 europeia. Quase virou dono de equipe na F-1 em 1973 – e seria um dos mais jovens de todos os tempos, aos 26 anos de idade, mas o patrocínio prometido gorou por conta da crise do petróleo e na temporada seguinte, o carro projetado por Ray Jessop virou o Token – adotado por Tony Vlassopoulo e Ken Grob.

A Rondel virou Project Four, time júnior da BMW na Fórmula 2 europeia e estrutura vitoriosa na Fórmula 3 inglesa, ganhando o título de 1979 com Chico Serra. E com as bençãos da Marlboro, Ron Dennis salvou do limbo uma equipe de Fórmula 1 que experimentava um franco declínio desde o campeonato conquistado por James Hunt em 1976 – a McLaren.

Com o jeito autocrático citado na matéria da BBC, Dennis deu novos ares à equipe. Enxotou Teddy Mayer, mas não dispensou a competência de Tyler Alexander. Ron enxergava longe: com dinheiro de Mansour Ojjeh (leia-se TAG), financiou um projeto de motor turbo encomendado à Porsche e desenhado por Hans Mezger. John Barnard, que já trabalhava para ele, desenhou a sequência de bólidos mais confiáveis dos anos 1980: os MP4/2, campeões com Lauda em 84 e Prost pelos anos seguintes.

Desfeita a parceria com a Porsche, a McLaren voltou às vitórias e conquistas com a Honda e Ayrton Senna. Foi nessa época em que Nelson Piquet, já bicampeão do mundo, chegou a ser sondado para integrar o time, mas como o brasileiro não tinha paciência com os métodos de Ron, teria se saído com essa pérola.

“Minha intenção é ganhar de você e não com você.”

A história nos mostra que, por mais que Nelson tenha sido tricampeão em 1987, quem reinaria na F1 pelos anos seguintes foi a McLaren com Prost e com Senna – três vezes. Mas a Honda cansou e a equipe buscou novos parceiros – começando pela Peugeot e depois pela Mercedes-Benz, que quando acertou a mão, virou não só parceira mas também sócia da McLaren, que voltou às boas no período dominante de Mika Häkkinen no final da década de 1990 e alguns anos mais tarde, continuaria forte graças a Kimi Räikkönen, Fernando Alonso, Jenson Button e Lewis Hamilton.

Em menor escala, o chefão da McLaren reviveria com Alonso e Hamilton os mesmos problemas que teve com Senna e Prost correndo juntos. Mas se o brasileiro e o francês se engoliam e mesmo assim conquistaram dois títulos – um para cada um enquanto correram sob o mesmo teto – o espanhol e o britânico conseguiram perder o campeonato de 2007 para Kimi Räikkönen.

No último GP do Brasil, a McLaren completou exatos 800 GPs desde sua estreia em Monte-Carlo, há meio século. Nenhum carro da equipe ganha nada há quatro anos – a última vitória também foi no Brasil, com Jenson Button. Mas mesmo assim, para efeitos estatísticos, só a Ferrari – que tem 224 triunfos – está à frente da McLaren, que soma 182, neste ranking. Sob a batuta de Ron Dennis, a McLaren levou sete títulos mundiais de Construtores (com Teddy Mayer, ganhou apenas um em 1974) e por 10 vezes os pilotos do time foram campeões do mundo.

Números incontestáveis.

Mas uma hora o show tem que terminar. E as luzes do palco em que brilhou Ron Dennis como um dos mais representativos donos de equipe de seu tempo estão, aos poucos, se apagando.

8 comentários

  1. Vinicius Vergueiro disse:

    Quanto a história do Piquet,ele declinou do convite da McLaren porque não queria viver lá outra relação tão turbulenta como foi a vivida com Mansell na Williams e isso naturalmente implicaria numa demissão de Alain Prost,que uma das duas condições que Nelson pediu a Ron pra assinar com a McLaren foi justamente não correr ao lado de Prost(a outra condição foi ter menor carga horária pra compromissos promocionais).

    Ron aceitou a primeira condição de Piquet de reduzir a carga horária de compromissos profissionais dele,mas a segunda de não correr ao lado de Prost em 88 não pode ser atendida porque o Francês já estava de contrato assinado com o time por mais duas temporadas e foi ai que Piquet optou pela Lotus.

  2. Zé Maria disse:

    Recebeu na mesma moeda:
    Enxotou Teddy Mayer e agora está sendo enxotado pelos barenitas. . .
    É sempre assim, tarda mas não falha!
    Vida que segue. . .

  3. MarcioD disse:

    Grande Mclaren! Acerca dos 224 Gps da Ferrari contra 182 da Mclaren é bom frisar que quando a Mclaren começou na F1 a Ferrari já tinha dezesseis anos de estrada ininterruptos na categoria. Além do mais A Mclaren foi pentacampeã consecutiva na CanAm em 67-71, onde a Ferrari também se aventurou, chegando a fazer um carro com um motor de 7 litros, e nunca conseguiu um titulo.
    Também ganharam em Indianápolis onde a Ferrari também nunca triunfou.
    Além do mais fizeram um carro de rua no principio dos anos 90, o F1, com motor aspirado de 6,1 l e 636 cv e que atingiu mais de 386 Km/h. A Ferrari Enzo construída quase dez anos depois também aspirada com potência de 660 cv atingia 355 Km/h.

  4. Danir disse:

    Por favor. Anglo-estadunidense é a versão ideológica e politicamente correta para anglo americano; a versão correta. Nem os esquerdistas americanos usam esta expressão. É como urinar no chão para marcar território. Não precisa, todos já sabem a sua posição política e estão aqui por causa do automobilismo. Quanto ao Ron Denis, mesmo com seus defeitos, sempre é melancólico ver uma pessoa ser defenestrada por seus pares com golpes baixos. O que está por traz é poder e dinheiro, sem nada a ver com as características pessoais de gestão do Ron Denis. Que por sinal é um indivíduo competentíssimo. Não sei se este Zack Brown vai ser melhor. É possível algum estremecimento com a Honda (Japoneses são apegados à tradição e hierarquia), que já está se preparando para fornecer motores para outros pretendentes em 2018 se não me engano.

    • Rodrigo Mattar disse:

      Danir, o que minha posição política tem a ver com o fato de eu chamar o Zak Brown de anglo-estadunidense? Tanto preciosismo pra vir me alfinetar? Você podia ter se apegado apenas a falar do Ron Dennis, não acha? Teria sido bem melhor.

      • Danir disse:

        Olá Rodrigo. A ideia não foi te alfinetar (Tá certo, foi um pouco!); mas se você usa de uma expressão que por si só define uma posição política, em um assunto que não tem nada diretamente com o fato, quem lê, tem espaço para comentar e percebe, pode colocar também em pauta o seu posicionamento. O meu estilo de escrever é este mesmo, não fui preciosista nem quis te ofender. Se conseguimos dialogar de forma cordial e polida apesar de posições políticas diversas, mesmo com uma ou outra alfinetada, que ninguém é de ferro, estaremos contribuindo para um mundo melhor, onde os opostos podem se olhar de frente sem medo de agressões de qualquer tipo. Admiro o seu trabalho, sou leitor regular de seus artigos (comento só de vez em quando) e acho simplesmente ótima a sua coletânea a respeito da história das equipes de F1. Estou até sentindo falta de mais um artigo. Quem sabe não poderia render um livro? Outra coisa que também gosto muito é saber que existem pessoas que não se limitam a escrever sobre monopostos e fórmula 1. Portanto, não esquente com o meu comentário ranzinza e aceite meus cumprimentos sobre a qualidade do seu trabalho profissional, que é digno de nota. A elegância da resposta, já diz muito quanto à sua pessoa. Saudações e sucesso.

      • Rodrigo Mattar disse:

        Obrigado, Danir!

        Vou tentar seguir a série de Equipes Históricas. Mas tenho tido pouco tempo.

        Talvez agora, com menos transmissões, já que a Nascar acaba agora neste fim de semana, as coisas melhorem um pouco.

        Abraços!

  5. João Paulo disse:

    Bom artigo, Mattar. Gostei do que li. Parabéns e continue assim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>