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8 de maio de 2017 - 17:43Fórmula 1, Memorabilia

Gilles e eu

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RIO DE JANEIRO - Em 1982, eu era um guri que ainda ia fazer onze anos de idade – meu aniversário é dia 19 de maio.

No dia 8 daquele mesmo mês, um sábado, eu descobri pela primeira vez na minha curta vida que Super-Heróis morriam.

O meu herói da Fórmula 1, categoria pela qual me apaixonei perdidamente e me fez gostar do automobilismo pra sempre, perdeu a vida num acidente brutal em Zolder, na Bélgica. Aos 32 anos de idade, Gilles Villeneuve entrava para a história como o campeão do povo. O piloto da Ferrari mais amado por todos nós que gostamos – de verdade – do esporte.

Impossível era uma palavra inexistente no vocabulário daquele canadense atrevido que em 1977 fez uma estreia tão espantosa pela McLaren em Silverstone, que Chris Amon não teve dúvida em indicá-lo para Daniele Audetto e a Ferrari, num ato de coragem e loucura, trocou Niki Lauda por um semi-estreante que começou mal, provocando inclusive um acidente no GP do Japão que matou duas pessoas em Fuji.

Mas aquele camarada tinha algo especial. Não sei se era a loucura, a coragem, a valentia, ou tudo isso junto. Gilles Villeneuve tinha o dom. E se não conseguiu mais vitórias, foi porque o destino não quis.

A primeira foi logo em casa, no GP do Canadá em 1978, com uma boa dose de sorte. O líder era Jean-Pierre Jarier, a bordo da Lotus 79, o melhor carro da F-1 na época. E o “Jumper” quebrou. Gilles venceu e deu a volta da consagração com a bandeira quadriculada nas mãos.

Eu, com sete anos de idade, vi aquilo. Vibrei. Jamais esqueci da cena.

Como não é para esquecer 1º de julho de 1979. O que ele e René Arnoux fizeram naquele dia em Dijon-Prénois é algo indescritível. Coisa que as palavras não podem explicar. Só o relato de Arnoux traz um tom definitivo àquilo tudo.

“Somente duas pessoas poderiam ter feito aquilo – Villeneuve e eu. Para mim, aquilo é a melhor memória de Gilles. Ele era uma ótima pessoa tanto fora, quanto dentro da pista. Gostava dele porque era natural. Ele era muito popular porque dizia exatamente o que estava na sua cabeça. Aquilo era muito importante para mim”.

Gilles acabaria aquele ano como vice-campeão. Foi sua melhor temporada na categoria. E outro registro fantástico é a tentativa desesperada de voltar aos boxes em Zandvoort, em três rodas, com a suspensão traseira de sua Ferrari completamente aos cacos. Um espetáculo que os olhos e a memória guardaram.

Em 1980, a Ferrari era um lixo de carro e Villeneuve sempre fazia o impossível. “Chegar é uma coisa, passar é outra”, diz o filósofo contemporâneo. Mas com Gilles não havia tempo ruim. As ultrapassagens que ele cometeu em Mônaco, em plena St. Dèvote, com uma máquina pavorosa, foram coisa de quem sabia muito do riscado.

E suas duas últimas vitórias, lá mesmo no Principado e em Jarama, ambas em 1981, foram saudadas como se fossem de um autêntico campeão do mundo.

Mas o canadense ainda não tinha feito tudo. O GP do Canadá, debaixo de um toró em Montreal, foi uma prova do quão aquele piloto era absurdo.

A minha idolatria pelo Villeneuve era tamanha que eu fiz meu pai, já em processo de divórcio da minha mãe, me levar à hoje extinta concessionária Autofácil, lá perto do cemitério do Caju, em plena Av. Brasil, para ver uma Ferrari de Fórmula 1 com pneus “rodinha de bicicleta”, aqueles de transporte.

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Só porque era a do Villeneuve. Se fosse a do Didier Pironi, não seria igual. Não haveria o mesmo fascínio.

Vi Gilles liderar 29 voltas naquele GP do Brasil de 1982 até errar e sucumbir à pressão de Nelson Piquet e Keke Rosberg. Com ele era sempre assim, no limite, fio da navalha.

Como também vi sua última corrida, o último pódio, em que subiu por obrigação porque perdera o GP de San Marino justamente para Pironi.

Aquela fria e melancólica tarde de 8 de maio de 1982 foi uma das mais tristes da minha vida. Ao ouvir a notícia da morte do canadense na Rádio Jornal do Brasil, corri pro meu quarto. E chorei. Chorei muito. Como se fosse a perda de um ente querido.

Villeneuve fez parte da minha infância, da minha vida e foi ele um dos caras que me fez querer embrenhar pelo automobilismo, como jornalista.

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Ele foi o meu herói.

35 anos depois, só me resta dizer…

Saudade, Gilles.

“O meu cheiro preferido é o da borracha queimada.”
(Gilles Villeneuve)

“Foi o piloto mais maluco que a Fórmula 1 já viu.”
(Niki Lauda)

“Saí da pista muitas vezes, mas me diverti muito.”
(Gilles Villeneuve)

“Ele era maluco, mas era um fenômeno. Conseguia fazer coisas que eram inalcançáveis para os demais.”
(Nelson Piquet)

“A minha estratégia? É andar o mais rápido possível o tempo todo.”
(Gilles Villeneuve)

“Penso que temos em Gilles um piloto maravilhoso.”
(Enzo Ferrari)

“Ele sempre arriscou mais do que qualquer outro piloto. Foi assim que construiu sua carreira.”
(Eddie Cheever Jr.)

“O homem é uma ameaça pública.”
(Ronnie Peterson)

“Enquanto eu queria me manter vivo, Gilles queria ser o mais rápido sempre – mesmo nos testes.”
(Jody Scheckter)

“O comendador, em pessoa, me telefonou e perguntou: ‘Você está pronto para guiar para nós?’ E eu respondi: ‘É claro que estou’”
(Gilles Villeneuve)

“Gilles foi o homem mais genuíno que conheci.”
(Jody Scheckter)

“Não se esqueçam que Nuvolari ganhou uma corrida só com três rodas.”
(Enzo Ferrari)

“Disse para mim mesmo: ‘Este é o Scheckter, este é o Andretti e eu consigo andar com eles.’ Fiquei muito satisfeito.”
(Gilles Villeneuve)

“Estava à espera de que uma Renault pudesse aparecer durante a largada, mas do nada veio uma Ferrari. Fui pego de surpresa e pensei: ‘De onde raios veio Villeneuve?’”
(Alan Jones)

“Ele é diferente de nós.”
(Jacques Laffite)

“Conheci apenas um piloto com a mesma capacidade que Villeneuve demonstrava ao controlar um carro: Jim Clark.”
(Chris Amon)

“Não penso em morrer. Mas aceito o fato de que a morte faz parte do jogo.”
(Gilles Villeneuve)

“Pensei que ele talvez fosse um pouco maluco.”
(Joanna Villeneuve)

14 comentários

  1. TARCISIO FRASCINO FONSECA disse:

    Belíssimo texto, parabéns!

  2. Romeu Nardini disse:

    É Mattar. Bem mais velho que você, também tive como grande ídolo, o inesquecível. Gilles. Também vibrei muito com a pilotagem , a garra, a ousadia, a valentia, a audácia e a coragem, do “gelado” canadense.
    Vibrava com tudo que viesse dele, até erros e atitudes como aquela de insistir, voltar aos boxes com a suspensão traseira em frangalhos, parar e esperar que o mecânicos colocassem uma nova roda, para seguir na corrida. Eu costumo dizer que Gilles foi o mais Ferrari de todos os pilotos Ferrari, até hoje. Ninguém jamais vestiu o sagrado macacão Ferrari, como Villeneuve! E tenho guardada também uma frase do saudoso piloto e ex comentarista, Giu Ferreira: “Gilles não ultrapassa aonde pode, ultrapassa aonde dá. E aonde não dá, ele gosta ainda mais”. Ave Gilles Villeneuve!

  3. Alex disse:

    É, Rodrigo, outro igual a Gilles, nunca mais. Quem for a Monza, no GP da Itália, em setembro, muito provavelmente verá as faixas dos tifosi lembrando o lendário canadense. 35 anos depois de sua morte. Talvez nem Schumacher com seus cinco titulos pela Ferrari seja mais querido que Villeneuve.

  4. Ingo Hofmann disse:

    Para um ferrarista fanático como eu, impossível não idolatrar Gilles Villeneuve.
    Credito a morte dele não a seu impulso de procurar um melhor tempo naquela fatídica classificação, mas à própria equipe Ferrari por não ter posto um fim na rivalidade Villeneuve/Pironi.

  5. Milton Eller disse:

    Meu caro Rodrigo,

    No mimimi da F1 de hoje a disputa entre Gilles e Arnoux seria passível de punição, saudades de Gilles e da verdadeira F1

  6. Pedro Perez disse:

    Realmente as memórias de infância ficam guardadas em um lugar especial da nossa consciência, não me lembro do vencedor da ultima prova de F1, mas toda a temporada de 1982 está fresca em minha memória. Talvez seja porque tinha protagonistas como Gilles.

  7. Zé Maria disse:

    Mais uma vez, dando show no teclado sem ser músico, Rodrigo!
    E o comentário do Romeu “MG” Nardini citando o saudoso Giu Ferreira!
    E o “Alemão” comentando!
    É só por aqui mesmo que gente desse calibre aparece, e com razão!
    Permita-me só um reparo:
    Levando-se em conta que Peterson nos deixou em 78 e portanto a convivência entre ambos deva ter sido mínima, julgo que o comentário que você identifica como sendo dele, tenha acontecido no calor do momento após o choque de ambos em Fuji/77, culpa total do canadense ainda novato.
    Deveria ser dado um desconto então, e não pontuar essa fala como um diagnóstico definitivo dado pelo sueco, até porque todos corremos o risco de dizer besteira em momentos assim.
    Abraço.
    Zé Maria

  8. Wilton Sturm disse:

    Grande Rodrigo, parabéns. Escreveu de coração!
    Temos idades parecidas e, claro, sentimentos parecidos!
    A ultrapassem sobre Arnoux em Mônaco é maravilhosa!
    Um abraço cordial!

  9. Leandro disse:

    Belas imagens que escolheu para ilustrar, a primeira lembra muito o futurismo e a última pelo que vi de Gilles é uma “descrição” do mesmo. Os vídeos eu conhecia, impossível não gostar de assisti-lo pilotar.

  10. Antonio Seabra disse:

    Rodrigo,

    Gilles foi o meu idolo maximo no automobilismo. O piloto mais habilidoso, mais ousado, mas corajoso, mais determinado que o mundo já viu. Pra mim o mais rapido entre todos, em todos os tempos..
    Semana passada estive no Canada, e como não podia deixar e ser, fui visitar o museu Gilles Villeneuve em Berthieville. è um pequeno museu, pobre de acervo, mas de muito valor pra quem realmente ama F1, Ferrari e especialmente, Gilles.
    De quebra, visitei em Montreal o Circuito Gilles Villeneuve, e até dei uma volta pela pista em baixissima velocidade (limite de 20 km/h), dividindo a pista com ciclistas que ali treinavam.

    Bom, como já tentei te dizer em outros comentários, e num e mail, peço que você entre em contato comigo (não tenho mais teu telefone, ficou num aparelho que perdi), porque trouxe de lá um livro sobre o Villeneuve pra te dar de presente, e uma camiseta comprada lá no museu (que se não der pra usar serve como lembrança). Gostaria de te entregar o mais breve (antonio.seabra @vanoord.com). Alem do mais posso te passar algumas fotos do museu. Em Quebec fui a um restaurante italiano que tem uma sala dedicada ao Gilles, cheia de fotos, capacete e até um busto dele !!!

    Quanto ao teu maravilhoso texto, uma adição:: no próprio vídeo da disputa com Arnoux em Dijon, tem uma descrição verbal do Arnoux, em que ele diz “fui ultrapassado, mas não me envergonho, porque perdi para o melhor piloto do mundo !”

    Num outro veiculo da imprensa da época (revista Grand Prix, francesa) me lembro de ter lido uma frase do Arnoux ou do Laffite, sobre o acidente fatal, elucubrando sobre o que teria sido o ultimo pensamento do Gilles: “Tenho certeza que, no momento em que a Ferrari decolou, o ultimo pensamento do Gilles não foi de medo, mas de raiva, por ter estragado uma volta muito rapida”

    Aguardo teu contato

    Antonio

  11. ernani roic disse:

    Na década de 1970 meu tio, já falecido me apresentou, pela TV, a F1. Logo que vi os carros vermelhos da ferrari, me apaixonei. A partir da década de 1980 eu já começava minha maratona de assistir as corridas por conta própria, colecionar álbum de figurinhas, comprar a Quatro Rodas e ouvir comentário dos treinos pelo Rádio (Claúdio Carsugui). E claro, quem pilotava a Ferrari era para quem eu torcia! E Villeneuve era , foi e sempre será meu heroi. Ele encabeça uma lista de pilotos sensacionais. Hoje a F1 ficou chata demais..muito mimimi, não pode isso, não pode aquilo…tiraram as grandes dificuldades e belezas dos autódromos….Basta ver os vídeos da época de Gilles e ver que o cara não se importava com o traçado “ele se divertia” ! Acabaram com Hocheinhein, Kaylime, Mônaco, Spa, entre outros… Enfim, falar de F1 é falar de Gilles! Todo dia 08 de cada ano (também) me lembro de Gilles e assim como vc Mattar, também em 1982, chorei e disse: a F1 nunca mais será a mesma.. Muito bizarra a história de Gilles e Pironi. Em 1982 a seleção brasileira ainda perderia aquela copa da Espanha…1982, coincidência ou não, eu, com 13 anos vivia um dos melhores anos de minha vida pessoal como pre-adolescente…Coincidência ou não..Gilles fez parte de tudo isso!

    • Antonio Seabra disse:

      Já que voce comentou sobre a estoria de Villeneuve e Pironi, não custa lembrar que quando Pironi morreu num acidente de lancha de competição a mulher dele tava gravida de gemeos. Dai, quandos os guris nasceram ela deu a eles os nomes de Gilles e Didier.

  12. Rubens disse:

    E Rodrigo …. apenas você mesmo para lembrar desse cara que também fez parte da minha infância que também me fez apaixonar por Formula 1 . Esse é como o cometa
    somente a cada 50 anos ,o verdadeiro piloto, pilotava com o coração e foi que fez nós nos apaixonarmos por ele , show man , esse era o cara não tinha conversa mole
    Parabéns pela lembrança.

  13. moisesimoes disse:

    -Mattar, creio que eu tenho o seu último texto sobre o “aniversário” da morte de Gilles.
    Outra vez venho por aqui e me deparo com mais esse belo texto.
    Não tenho dúvidas que a ultrapassagem do século é dele, quando retoma a segunda posição de Arnoux no fim da reta, com problema de freio e tudo. meio de lado, igual a ,Piquet em Senna na Hungria. Ali não pude ver, o carro, a Ferrari. Eu só via o piloto, a coragem, a velocidade, a audácia em carne e osso.

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