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6 de março de 2018 - 19:54Automobilismo Internacional, Opinião

Carmen Jordá, por qué no te callas?

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Resposta imediata: Carmen Jordá falou mais do que devia sobre “barreira física” para mulheres no automobilismo e a equipe Alfa Romeo Sauber anunciou a contratação da colombiana Tatiana Calderón para trabalhar com testes e desenvolvimento da equipe de Fórmula 1

RIO DE JANEIRO - Este blog nunca levantou a bandeira do machismo. Muito pelo contrário: sempre respeitou a opinião feminina e ressalto que, embora tenha feito algumas brincadeiras acerca das performances da Danica Patrick na Nascar – mais pra entrar na pilha do Sergio Lago e sacanear (muito) o Thiago Alves – respeito muito o que ela alcançou e conseguiu na carreira que se encerra neste ano.

Danica é uma das mulheres que batalhou espaço no automobilismo e fez muito bem o seu papel. Não foi a única. Lá fora, Christina Nielsen tem títulos na IMSA. Michele Mouton e Jutta Kleinschmidt deram show no Rali. Sabine Schmitz, Claudia Hürtgen e Ellen Löhr foram – e ainda são – nomes de muito respeito na Alemanha. A jovem Jamie Chadwick andou muito bem de Grã-Turismo na Grã-Bretanha. Simona de Silvestro acelera no Supercars da Austrália. Lyn St. James e Janet Guthrie foram as pioneiras nas 500 Milhas de Indianápolis. A japonesinha Juju Noda, filha de Hideki Noda, começa a carreira de piloto na Fórmula 3 de seu país, aos 12 anos de idade. E por aí vai.

No Brasil tivemos Graziela Fernandes, Danusa Palhares, Regina Calderoni, Suzane Carvalho, Ana Lúcia Walker, Letícia Zanette, Vanessa Coelho Chaves, Débora Rodrigues, Bia Figueiredo – que também brilhou no exterior – e Cristina Rosito, como alguns exemplos de perseverança e luta em busca de reconhecimento de seus rivais. E uma menina, Bruna Tomaselli, buscava seu lugar ao sol no automobilismo dos EUA ano passado.

Desculpem se fui injusto ao não citar outros exemplos, é que esses foram nomes que vieram de memória.

Onde quero chegar citando todos esses exemplos do passado? Simples: nas infelizes declarações da espanhola Carmen Jordá.

Aos 29 anos de idade, a moça apresenta um currículo bastante modesto na carreira – iniciada em 2005. Somou apenas dois pódios em toda a sua trajetória, numa subcategoria da Fórmula 3 de seu país. Fez cinco corridas de Indy Lights e na GP3 Series tentou, sem muito sucesso, persistir na categoria. Fez nada menos que 44 aparições neste certame, com nenhum ponto somado. Isso mesmo: Carmen Jordá zerou em todas as temporadas (2012/14) e seu melhor resultado numa prova da categoria foi um esquálido 17º lugar.

Daí o espanto quando, em 2015, ela foi contratada como piloto de desenvolvimento da Lotus, depois absorvida pela Renault. Ficou no posto até 2016. Ano passado, fez o Renault Sport Trophy e foi “premiada” pela FIA com um cargo na Comissão de Mulheres da entidade.

E aí criou-se a grande polêmica do automobilismo mundial nos últimos dias.

Carmen abriu a boca para dizer o que não devia – aliás, ela se pronuncia normalmente de acordo com a visão estreita de Bernie Ecclestone, naquele papinho furado machista, misógino e babaca de que mulher não serve para automobilismo. De acordo com ela, existe “uma barreira física” para as mulheres guiarem na Fórmula 1, sugestionando assim que o caminho seria a Fórmula E – porque, segundo ela, os carros elétricos seriam mais “fáceis” de pilotar.

“Não sou eu quem deve decidir o que é bom ou não para as mulheres no esporte. Mas pela minha experiência posso dizer que na F1 e na F2, e não em nenhum dos outros campeonatos, como de kart, de F3, de GT, existe uma barreira que é a questão física”, comentou Jordá. “Acho que existe um grande problema para as mulheres e é por isso que não existe nenhuma nesses campeonatos”, seguiu.

As declarações soaram mal e a espanhola começou a levar porrada de tudo quanto é lado. Jenson Button, campeão mundial de Fórmula 1 em 2009, fez questão de contrariar a opinião de Jordá. “Danica (Patrick) é provavelmente tão forte fisicamente quanto qualquer piloto no grid da Fórmula 1 hoje”, afirmou o britânico. “Barreira física não é problema, Carmen”, concluiu o piloto do Super GT pela Honda.

Não obstante, outras mulheres envolvidas com o esporte fizeram severas críticas às suas palavras. A engenheira de pista Leena Gade, ex-Audi no WEC, hoje Bentley no Blancpain GT, saiu em defesa da presença do sexo feminino no esporte a motor. E a suíça Simona de Silvestro dedicou em postagem no Twitter algumas verdades bem diretas.

“Corri de Fórmula Indy e Fórmula E, corro de Supercars e já dirigi um Fórmula 1″, iniciou a piloto. “Todos são desafiantes e nunca senti desvantagem física em nenhum deles. É frustrante ouvir essa declaração de uma mulher que nunca guiou esses carros. Isso não é a melhor maneira de incentivar as jovens a seguir seus sonhos”, disse.

E hoje, como que uma resposta – em sentido inverso – às palavras de Carmen Jordá, a colombiana Tata Calderón anunciou que fará parte do programa da equipe Alfa Romeo Sauber, como piloto de testes. “Não ha barreira física para mulheres na Fórmula 1″, acredita.

Pelo menos a Milka Duno, que nunca primou pelo brilhantismo, jamais disse tantas bobagens quanto sua ex-colega de profissão.

11 comentários

  1. Almir Sartori Prado disse:

    Parabéns. Ótimo comentário

  2. Levi disse:

    Button disse que a Danica Patrick é tão forte quanto os pilotos homens de hoje… Tenho sérias dúvidas… Nos tempos de IRL, em algumas pistas ela sofria com os carros, que nem sequer tinham direção assistida.

    E uma piloto espanhola que competiu nas motos no Dakar alguns anos atrás afirmou que não havia possibilidade física de competição com os homens, pois o Rali havia se tornado exigente demais… Essa declaração está no Grande Prêmio mas não me recordo o nome da piloto…

    Enfim, carro de turismo não tem comparação com F1, por isso podemos ver pilotos como Sabine Schmitz e Christina Nielsen competitivas nos GTs. F1 é outra história, a exigência física não tem paralelo no esporte a motor.

    Se o que o Button disse fosse verdade, a Cris Cyborg poderia lutar em igualdade de condições contra um peso pena do UFC… Não acredito que fosse possível.

    Claro, se surgir uma moça que ganhe tudo no kart (enfim, uma moça com a trajetória do Lewis Hamilton), não tenham dúvidas de que a FIA faria absolutamente tudo pra colocá-la em pé de igualdade com os homens… Inclusive se valendo de disfarçadas ajudas físicas.

    Não faço nenhuma objeção a que uma mulher chegue à F1 novamente, apenas não costumo torcer por alguém apenas por ser mulher. E, se não der pra competir fisicamente, aí não tem jeito. Infelizmente não temos como saber, pois na F1 ultimamente tivemos poucas mulheres e apenas em posição de testes.

    O post acabou soando como ad hominem Rodrigo, não achei de bom tom, até porque uma declaração como a da Carmen Jordá está muito longe de ser comparável aos impropérios que o Bernie Ecclestone fala de vez em quando na obsessão dele pelos holofotes. E, convenhamos, a espanhola, por menos competente que seja, já teve a oportunidade de dirigir esses carros e fala com conhecimento de causa. Não é por que é má piloto que os argumentos dela não servem.

    • André disse:

      Vc comparou motocross e MMA com F1. Não faz sentido.
      O que o Button quis dizer é que o nível de exigência física da F1 é alcançável por uma mulher. Acredito que uma mulher consiga alcançar o nível de preparo físico do Massa, por exemplo. Alcançar o nível do John Jones realmente é impossível.
      Sobre a Danica sofrer nos carros da Indy, o Barrichello afirmou em entrevista ao Téo José (tem no YouTube) que pediu um volante com diâmetro maior pq ele não estava aguentando o peso da direção.
      Quem aguenta Indy aguenta F1.

  3. JCS disse:

    Barreira física é descarregar um caminhão de sacos de 50 kg de cimento e não pilotar um carro de corridas

  4. Delmar Viana disse:

    Se não é físico o problema, qual seria então..?

  5. Alessandro Neri disse:

    Bacana o texto porém acredito que só faltou mencionar a maior de todas: Lella Lombardi.

  6. Carlos Arim disse:

    O fato é que a Força G nos atuais carros de Fórmula 1 é gigantesca. Lewis Hamilton, por exemplo, foi submetido a uma força de 6,5 G durante a volta de classificação do GP da Austrália de 2017. Será que as mulheres têm condições físicas de se manterem competitivas nestas condições em um Grande Prêmio de 2 horas? Os especialistas dizem que não.

  7. Eder disse:

    A questão é como afirmar que o que ela falou é besteira ou não. Pelo currículo dela ela aparentemente não teria “propriedade” pra falar tal coisa, então seria melhor ficar quieta.
    Mas ela acabou falando, e só recebeu críticas por isso. Se uma mulher seria competitiva hoje na F1? Não faço idéia.
    Qualquer pessoa poderia afirmar que elas têm condições, ou que elas não têm, e eu encararia as duas afirmações com o mesmo ceticismo.
    Ser piloto de desenvolvimento é uma coisa, pilotar de verdade numa temporada ou sequência de corridas é outra história. Como na prática nenhuma mulher chegou a ter essa experiência( na F1, obviamente), pra mim qualquer afirmação a respeito é indiferente, de quem quer que seja.

  8. Bruno Serafim disse:

    Eu concordo com tudo que escreveu, eu realmente não vejo a mulher como um sexo frágil, eslas tem todas as condições de se igualarem em preparo físico e força com relação aos homens. Agora lembrar da Milka Dunno no final do post foi sacanagem com as mulheres… kkkk

    • Rodrigo Mattar disse:

      Não achei. Apenas citei um exemplo de uma piloto que realmente é um ponto fora da curva, mas que nunca se manifestou falando bobagem alguma de “barreira física”.

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