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11 de setembro de 2018 - 00:05Fórmula 1, Memorabilia

Monza, 40 anos

ronnie-peterson-monza-1978

RIO DE JANEIRO - Acho que já falei isso alguma vez – se não aqui no blog, foi em qualquer outro dos ex-blogs. Paciência…

A minha memória mais viva do meu início como apaixonado por automobilismo data de 40 anos atrás. A mente da gente tem alguns flashes e insights, como um que – tenho certeza – tive em 1975, quando a Globo passou o GP da Holanda em Zandvoort e eu sei que a TV de casa estava ligada na emissora e posso ter assistido àquela corrida, mas não lembro. Tinha só quatro anos, difícil lembrar daquilo

Mas do GP da Itália de 1978 lembro sim. E lembro vivamente.

“Fogo na pista!”, frase que Luciano do Valle, o narrador da emissora nas transmissões de Fórmula 1 até 1981, usou para pontuar a gravidade de um acidente ocorrido após a largada, foi algo que não saiu mais da memória.

E como sairia? Afinal, pra uma criança de sete anos, ver aquele fogo todo pegando e consumindo um carro de corrida é um negócio que impressiona qualquer um. Especialmente quando você se encanta com um negócio que faria – e ainda faz – parte de seu dia a dia.

Eu já havia ficado impressionado do jeito como um carro preto e dourado e outro vermelho arrancaram naquela primeira largada que foi anulada em relação ao resto. E também ficaria impressionado porque, muito tempo depois, quando a corrida finalmente começou e com 40 voltas ao invés das 52 anteriormente previstas, aqueles mesmos dois carros saíram em disparada feito bólidos.

Entendi menos ainda quando meu pai disse que o vencedor seria o que terminou em 3º, embora tenha visto os dois caras dos carros líderes subirem ao que se chamava de pódio pelo narrador e estouraram champagne.

Os caras eram Mario Andretti e Gilles Villeneuve, respectivamente pilotos de Lotus e Ferrari. E a maior vítima daquele acidente do “Fogo na pista!” era Bengt Ronald Peterson, o Ronnie Peterson, conhecido e admirado como o “Sueco Voador”.

No dia seguinte, numa situação até hoje mal explicada, Ronnie não sobreviveu ao pós-operatório onde o piloto, então com 34 anos, perderia os membros inferiores.

Peterson nunca mais poderia sentar num carro de corrida se tivesse sobrevivido. Foi melhor assim? Não se sabe… Alessandro Zanardi perdeu ambas as pernas e faz coisas do arco da velha até hoje.

Gozado que minha memória guarda flashes do funeral de Peterson e a imagem que mais me impressionou foi de um dos pilotos carregando o caixão, completamente careca. Vim a saber que se tratava de outro sueco – Gunnar Nilsson, que naquele mesmo ano, cerca de um mês e pouco depois da morte de Ronnie, também partiria prematuramente, aos 29 anos, fulminado por um devastador tumor nos testículos.

Sendo sincero, gostaria de ter nascido antes para poder mensurar a importância de Ronnie Peterson para uma legião de fãs apaixonados que o têm como um dos gigantes do automobilismo, mesmo sem ter sido campeão mundial. Bom… acho que vivi uma experiência semelhante com Gilles Villeneuve, de quem fui fã e chorei sua morte como depois jamais faria com nenhum outro piloto de automobilismo.

Um negócio sem muita explicação, mas que faz com que a gente se sinta mais próximo daqueles homens que não tinham medo da morte, mas que podiam encontrar com ela a qualquer curva, a qualquer reta, a qualquer momento.

Ironicamente, não foi o caso de Peterson. A sua partida, há 40 anos, foi consequência de um grave acidente, do qual saiu com vida, lúcido e consciente.

Acredito muito em destino. De repente, era pra ser assim. Para que Bengt Ronald Peterson continue sendo celebrado por nós, enquanto existir história, memória e paixão.

E fim.

12 comentários

  1. Vianas disse:

    Belíssimo texto. Obrigado por compartilhar suas memórias conosco.

  2. Marcos Soares disse:

    Esses caras são como nossa família,muito deles a gente começa a acompanhar no kart e vai acompanhando durante 10,15,20 anos e quando acontece alguma fatalidade o sentimento que fica na gente e o mesmo de uma perda de um familiar,

  3. Alvaro Ferreira disse:

    Pilotaço. A primeira vez que vi ao vivo foi no GP Brasil de 1972, aquele que não contou pontos para o Mundial, com o March “tábua de passar”. O carro não era essas coisas, mas ele fazia a Curva do Lago atravessando, quase um drift.
    Depois o vi várias vezes, inclusive aqui no Rio, onde entortava também com a Lotus na Curva da Vitória. E o tempo vinha!
    Uma pena o que aconteceu… Sempre se cogitou de barbeiragem dos médicos italianos que o operaram.

    • Antonio Vidal disse:

      Eu também estava lá Alvaro…e o que sempre me chamou a atenção nele, foi seu capacete com a aba amarela, e claro, seu jeito insano de pilotar….

  4. Bruno Serafim disse:

    Belo texto! Acho que teria sido muito difícil para ele viver sem as pernas, eram outros tempos sem tanta tecnologia e ele não teria a chance que o Zanardi teve de voltar a competir muito provavelmente porque talvez não houvesse carros de corrida adaptados. Mas no lado pessoal acredito que teria sido muito melhor ele ter vivido sem dúvida, ele deixou uma filha se não me engano e a esposa dele se matou anos depois com um tiro, então ele ter vivido certamente faria a diferença na vida na família que ele deixou.

  5. OZZMAIR disse:

    Lendo sobre essa tragédia , não tem como não associá-la ao filme Grand Prix , na mesma Monza , também com um piloto super talentoso , mas ali era apenas um filme.

  6. Luis Eduardo disse:

    Peterson também faz parte das minhas primeiras memórias da F-1. Eu tinha 8 anos quando aconteceu. Na época torcia pro Emerson, como todo menino brasileiro. Mas já admirava o esporte como um todo, gostava daquela linda e carismática Lotus preta e dourada, e Peterson era um dos meus pilotos preferidos. Também me lembro daquela bola de fogo na largada – fiquei tão assustado que corri pra desligar a TV, só vi os detalhes mais tarde. Continuei admirando e assistindo a F1, mas fiquei um bom tempo evitando ver as largadas, com trauma daquele acidente…

  7. Antonio Vidal disse:

    SENNA, CLARK, PETERSON…não sei se é esta a sequência, mas a certeza que tenho, na minha modesta opinião, é que estes três pilotos sempre estarão num patamar acima na pura arte de pilotar…todos eles morreram na pista e hoje são ícones, são a extrema expressão de guiar no limite, sempre. E olha que tem tantos pilotos que inclusive sagraram-se campeões, ou tri-campeões, que daqui há pouco tempo nem álbum de figurinhas serão lembrados, mesmo estando, vivos!
    I LOVE RONNIE!
    Belíssimo texto, parabéns ao escriba….

  8. Antonio Seabra disse:

    Vi o Ronnie andando de March 712M (F2) em Interlagos, e era um show ve-lo guiando.
    Acho que era 1971. Temporada de F2. Não era o melhor carro da pista, mas era o piloto que mais chamava a atenção nas curvas de alta. Ele e o Moco (também de 712M, mas menos azeitado, da equipe F. Wiliams), dificil dizer qual dos dois tinha a tocaa mais bonita de se ver.. O Carro do Moco era ruim, não dava pra ir pra frente, mas Ronnie disputou a ponta com Emerson (Lotus 69) e Reutemann (Brabham).
    Em 1973, de Lotus em Interlagos, fez um tempo que deixou a todos, inclusive o Emerson, seu companheiro de equipe, abismados. Não querendo ficar pra trás do teammate logo no inicio da temporada e no quintal de casa, Emerson, sempre inteligente, usou um de seus estratagemas, dessa vez meno ético: no fim do treino, fez uma volta pelo anel externo e emendou a seguinte pelo traçado do GP. Claro, chegou no trecho da saida da Junção muito mais lançado, e aproveitou dessa maior velocidade até a entrada da 1. Mesmo assim não bateu o tempo do sueco, ficou a 2/10 dele.
    Na largada Emerson pulou na frente, e o sueco o seguia de perto. logo numa das primeiras voltas, vez a 1 mais rapido e na entrada da 2 já estava colado, pensando em passar no retão. Estava dando um show de pilotagem de novo !. Mas se esqueceu do efeito da turbulência sobre os aerofólios, e, sem carga aerodinamica, acabou não completando a 2 (que nessa epoca se fazia a mais de 280, saindo da pista “lotado”. A corrida dele acabou ali, mas o sueco não se intimidou. Na fase europeia começou a dar uma enorme poeira no Emerson (que, ao contrario do que muito dos mais jovens pensam, era um puta piloto) de modo habitual, o que culminou com a pérda do campeonato de 1973 e a saida do Emerson para a McLaren em 1974. Uma de susas mairoes façanhas foi ganhar Monza de March 761 !!!
    Peterson foi um dos meus maiores idolos, junto com Moco e Gilles. E como eu digo sempre, quem viu, viu, quem não viu só pode ouvir falar.

  9. TARCISIO FRASCINO FONSECA disse:

    Eu estava com meu irmão em Monza em 2008 (corrida e tanto).
    Apareceram alguns fãs recordando trinta anos sem Peterson com uma faixa.
    Infelizmente não tirei uma foto desta faixa.

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