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26 de outubro de 2018 - 00:25Fórmula 1, Senna 30 anos

30 anos de Senna, parte IX – GP da Alemanha

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A largada do GP da Alemanha: mais uma corrida com pista molhada e Senna partindo melhor que Alain Prost

RIO DE JANEIRO - A primeira parte do Mundial de Fórmula 1 no ano de 1988 terminou com empate em vitórias de Ayrton Senna e Alain Prost. Cada um ganhou quatro vezes. O francês teoricamente tinha melhores resultados, estava na frente por seis pontos. Mas apesar do abandono em Mônaco, Senna mostrava vontade e recuperação, com duas vitórias nas quatro corridas anteriores ao GP da Alemanha – e com atuações mais convincentes que do francês, que só fez uma prova excepcional em Paul Ricard.

A pista de Hockenheim, ainda com a parte velocíssima na Floresta Negra da região de Heidelberg, receberia a nona etapa da temporada, dando o pontapé inicial para a fase de decisão do campeonato. A partir daí, todo ponto era ponto e não esqueçamos que o regulamento da época determinava que os cinco piores resultados seriam descartados.

Com vistas ao campeonato do ano seguinte, a Ferrari foi pega “no flagra” em treinos de desenvolvimento. O modelo 639, sigla do bólido desenvolvido em caráter experimental e já com o motor V12 aspirado, testava em Balocco, na Itália, com o brasileiro Roberto Pupo Moreno. A grande novidade não estava no design de John Barnard e sim na adoção de um câmbio semiautomático com acionamento pneumático por borboletas posicionadas atrás do volante. Mais uma vez, a Fórmula 1 ditando tendências na indústria automobilística e no esporte a motor.

Pela quarta corrida consecutiva, Gabriele Tarquini foi para casa mais cedo – com requintes de crueldade. O EuroBrun de Stefano Modena, mesmo com uma falha de câmbio, pegou a última vaga para as sessões classificatórias no último segundo. Enzo Coloni meteu o pau no formato de disputa, chamando a pré-classificação de “antidemocrática”. Imagino o que pensaria dela pelos anos seguintes…

Os treinos tiveram um mix de sol, tempo nublado e muito calor, não permitindo que os tempos alcançados na sexta-feira fossem baixados. De modos que Ayrton Senna levantou a oitava pole em nove corridas, com o tempo de 1’44″596 para os 6,797 km do veloz (média de 233 km/h) circuito germânico. Prost foi batido por 0″277 e a natural surra na Ferrari não foi surpresa, com Berger a 1″519 da pole position e Michele Alboreto a 2″558.

Nelson Piquet ficou em quinto, mas a mais de três segundos – beneficiado pelas suspensões desenvolvidas em conjunto com a Bilstein. O melhor dos pilotos com carros de motores aspirados foi Alessandro Nannini, sexto colocado. A Minardi não conseguiu classificação para o GP da Alemanha, já que Luis Perez-Sala e Pier Luigi Martini foram alijados do grid, junto a Stefan Johansson e Julian Bailey.

Antes da corrida, três pilotos foram obrigados a trocar para carros de reserva. Na AGS, os mecânicos descobriram uma rachadura na seção dianteira do carro titular de Philippe Streiff e Alain Prost, praticamente pela mesma razão (parte inferior do chassi rachada), também decide pela troca. No caso do argentino Oscar Larrauri, uma saída de pista motivou a mudança para o chassi que ficou nos boxes.

O calor da véspera do GP da Alemanha deu lugar a um céu carregado, pesado. Às 13h45, hora local, cai uma tempestade sobre o circuito. O diretor de prova, o belga Roland Bruynseraede, autoriza de última hora um treino extra de aclimatação com duração de 15 minutos, para que os pilotos avaliem as condições da pista – muito escorregadia em vários pontos. Na Floresta, nos trechos de mais alta velocidade, as árvores tornam impossível que a água se dissipe.

Antes da largada, os mecânicos mudam as regulagens. Modificam os ajustes de barra estabilizadora, a altura dos carros e trocam os pneus slicks pelos ranhurados, próprios para pista molhada. Quatro pilotos tomam uma decisão das mais temerárias: Piquet, Streiff, Caffi e Larini acham que a pista pode secar e vão com pneus de seco. No caso de Piquet e Streiff, dois pilotos com alguma experiência – e Piquet era tricampeão mundial, é bom lembrar – era uma aposta de risco altíssimo.

Dito e feito: após a largada em que Senna arranca melhor que Prost (que cai para quarto) e toma a primeira curva na dianteira, Piquet perde o controle da Lotus 100T na Ostkurve e destrói o carro na barreira de proteção. Com danos irremediáveis, abandona a disputa. No fechamento da primeira volta, Senna lidera seguido por Berger, Nannini, Prost, Alboreto, Capelli, Boutsen, Mansell, Warwick e Patrese.

Com a facilidade de sempre no molhado, Ayrton tem visão privilegiada porque a cortina d’água não está à sua frente. Com isso, o piloto da McLaren abre boa vantagem para Berger, enquanto Prost não vacila na pressão sobre Nannini e a Benetton #19. Na quinta volta, o líder tem cinco segundos e meio sobre a Ferrari #28 e quase dez para o italiano do time das cores unidas.

Enquanto a turma que partiu de slicks e não rodou seguia na pista navegando nas últimas posições, os líderes começam a passar pelas zonas mais molhadas, para resfriar os pneus biscoito, uma vez que começava a se formar um trilho seco no asfalto de Hockenheim. Prost ultrapassa Nannini e vai ao encalço de Berger.

Na décima volta, Senna encontra pela frente a Lola-Larrousse de Philippe Alliot, que decidira trocar para slicks. Não foi uma decisão sábia. Ao ceder passagem para o líder, o retardatário perdeu o controle do carro, que entrou em aquaplaning e bateu. Fim de corrida para Alliot.

Mais rápido na pista – coisa rara, já que o asfalto estava molhado – Prost vai para cima de Berger e supera o rival da Ferrari na frenagem da terceira chicane. Nesta altura, a vantagem de Ayrton já ultrapassava 12 segundos. As condições meteorológicas seguem complexas e quem arriscou pneus de pista seca se deu mal…

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Regenmeister: mais uma vitória de ponta a ponta para Ayrton Senna da Silva

Como um metrônomo, Ayrton conserva a diferença diante de um Prost determinado a lutar até o fim com as armas que tinha para não perder a vantagem de pontos em relação ao companheiro de McLaren. Mas Alain mostra a velha cautela na negociação com os retardatários e, enquanto Senna faz a melhor volta da disputa, o francês perde tempo ao tentar dobrar Jonathan Palmer, Alex Caffi e Piercarlo Ghinzani.

Na metade da disputa, apenas os 12 primeiros estão na mesma volta. Eddie Cheever, o 13º colocado, manteve as regulagens de seco em sua Arrows e paga um preço caro pela escolha. No meio do pelotão, quem anima a corrida é o doidaralhaço Andrea De Cesaris. Correndo “em casa”, já que a Rial era uma escuderia alemã, o italiano luta pau a pau com a Lotus de Satoru Nakajima e a Williams de Riccardo Patrese. Mesmo após uma rodada, numa tentativa de ultrapassagem, De Cesaris é muito rápido e finalmente supera Nakajima.

A 15 voltas do final, Ayrton encontra justamente Patrese e De Cesaris em luta cruenta pelo 10º lugar. E perde tempo. Prost aproveita para descontar alguns segundos em relação ao líder. Porém, logo depois, o velho desafeto René Arnoux e Satoru Nakajima fazem o francês perder mais quatro segundos. A vantagem de Senna volta à casa de 15 segundos.

Na 34ª volta, Gerhard Berger apanha um enorme susto quando o pouco colaborativo Piercarlo Ghinzani não lhe dá espaço e força o piloto da Ferrari a sair da pista com as quatro rodas na grama molhada de Hockenheim. O austríaco demonstra toda a insatisfação com gestos e uma torrente de impropérios. Quase ao mesmo tempo, Prost, no afã de recuperar terreno, roda na segunda chicane. Seus pneus traseiros são danificados no incidente e o francês terá que reduzir o ritmo.

Alessandro Nannini se aproxima perigosamente de Berger, novamente preocupado com o consumo de combustível. Mas o italiano enfrenta um problema técnico inesperado e tem que recorrer a uma parada extra nos boxes, permitindo ao rival um certo alívio. Senna, com vantagem superior a 25 segundos, reduz o ritmo. Prost, também. É mais uma corrida praticamente decidida.

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Virando o jogo: cada vez mais próximo de um assustado Prost, que rodou na corrida, Senna chega à quinta vitória em 1988

No finalzinho, Ayrton encontra pela frente o amigo e adversário Thierry Boutsen, que vinha em sexto. O belga deixa para tirar o pé na última volta, para não ter que percorrer mais 6,797 km em mais de dois minutos. Senna cruza com 13 segundos de vantagem e alcança sua segunda vitória consecutiva em 1988, seguido por Prost, Berger, Alboreto, Capelli (sem embreagem a corrida inteira, registre-se) e Boutsen.

Um triunfo crucial para as pretensões de Senna, que reduz para três pontos – 60 a 57 – a diferença sobre Alain Prost. É um momento chave do campeonato e o francês parece não ter reação. Placar do campeonato: Senna, pela primeira vez à frente, 5 x 4.

Próximo post – GP da Hungria.

3 comentários

  1. Henrique disse:

    McLaren e Honda fizeram um casamento sensacional e tal.. Mas, impressionante como Ferrari e Lotus também afundaram.
    Campeonato foi quase dividido: Prost começou melhor, Senna reagiu e parece ter sentido um pouco o baque na Itália, Prost renasceu e….

  2. Felipe Fugazi disse:

    Cada capitulo dessa série tem sido um presente para nós leitores.
    Posso estar sendo saudosista.
    Mas a F-1 deveria se espelhar no passado pra se reinventar no futuro.

    Carros mais mecânicos.
    Mais brutos.
    Menos tecnológicos porque o telespectador quer ver o desafio.
    O legal do esporte é ver o cabra fazer algo que você não consegue fazer.
    É como uma arrancada do Lionel Messi ou uma cobrança de falta do Cristiano Ronaldo.
    São simplismente inalcansáveis.
    A F-1 dessa época áurea de Senna, Prost, Piquet, Mansell, Berger… era isso.
    Bruta.
    Carros simples, motor forte onde o sujeito tinha de ser corajoso e inteligente.
    Corajoso pra ser rápido e inteligente pra não voltar a pé mais cedo.
    Hoje é tudo tão high tech, tão complicado, tão mimimi…

  3. Cristiano Torres disse:

    Vale lembrar a incrível rodada de Berger em uma das grandes retas de Hockenheim. Durante os treinos, a Ferrari foi fechada pela Arrows de Cheever (que estava ultrapassando uma Eurobrun) e deu um 360 entre os dois carros, indo parar na grama. Grande susto.

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