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21 de outubro de 2018 - 11:18Fórmula 1, Senna 30 anos

30 anos de Senna – parte V, GP do Canadá

Canadá-1988-Senna

Reação: Senna conquista uma das vitórias mais importantes de sua carreira no GP do Canadá

RIO DE JANEIRO - Em quatro etapas disputadas no Mundial de Fórmula 1 de 1988, o placar do jogo do título daquele ano apontava 33 pontos para Alain Prost contra 15 de Ayrton Senna. O francês tinha a vantagem numérica, mas todo mundo sabia que mudanças poderiam acontecer – e não custa nada lembrar: naquela época, eram considerados os 11 melhores resultados para a pontuação líquida e qualquer piloto que passasse de 11 GPs pontuados tinha que obrigatoriamente descartar suas piores posições na pista.

Senna tinha em mente após o 2º lugar do México a necessidade extrema de começar a descontar pontos de forma que Prost não disparasse na classificação do campeonato. Por isso era importante marcar território a partir de 12 de junho, quando aconteceria no circuito Gilles Villeneuve, em Montreal, o GP do Canadá.

Era a volta do país ao calendário após o cancelamento da corrida de 1987, com novidades no traçado que incluiram uma nova reta dos boxes – a mesma até hoje e demais mudanças de infra-estrutura que consumiram em dólares de 1988 um valor de US$ 6,5 milhões.

O traçado mudou muito pouco desde então. E nas sessões de classificação, na disputa interna entre os pilotos da McLaren, Senna conquistou mais uma pole position – a quinta consecutiva no campeonato – superando Prost por 0″182. As Ferrari com Berger e Alboreto nem fizeram cosquinha – foram superadas por mais de um segundo. A Benetton fez o 5º tempo com Alessandro Nannini à frente de um Nelson Piquet desgostoso com as mudanças que não surtiam efeito no Lotus 100T.

Naquele fim de semana, começavam também a surgir novidades para a temporada seguinte: foi no Canadá que a Williams fechou o contrato que trouxe a Renault de volta à Fórmula 1 após um período de ausência com o fim do desenvolvimento de seus motores com turbocompressores. Ah! Adrián Campos não classificou de novo a Minardi e acabou demitido após o GP do Canadá. Outros que não largaram foram Nicola Larini, Yannick Dalmas, Bernd Schneider e Alex Caffi – este nem passou pela pré-qualificação.

Na largada, Senna está do lado sujo do traçado e as rodas de sua McLaren MP4/4 patinam, permitindo que Prost ganhe a dianteira. Berger vem a seguir, com Alboreto no encalço e na sequência, as duas Benetton, com Nannini e Boutsen. O belga logo ganha a quinta posição entre os pilotos da equipe das cores unidas.

Para surpresa geral, pelo menos no início a Ferrari de Berger consegue acompanhar o mesmo ritmo das McLaren Honda, ainda com Prost à frente. Mas na quinta volta, o austríaco já está distante dois segundos do líder e na sétima, a diferença dobra. A normalidade – e a superioridade dos carros do time de Ron Dennis sobre os demais – se estabelece.

Senna não deixa Alain escapar: com 10 voltas, o brasileiro está a sete décimos do francês. Berger tem três segundos de avanço para Alboreto, que por sua vez recebe enorme pressão de Boutsen e de Nannini. Piquet é um distante sétimo, seguido por Mansell, Streiff e Cheever.

Preocupado com o consumo de gasolina, Alboreto tira o pé e permite que a dupla da Benetton ultrapasse a Ferrari #27. É um momento da corrida em que, na frente, Ayrton segue colado a Prost. A ultrapassagem parece questão de voltas.

E nisso, as duas Benetton são as vedetes da corrida. Tanto Boutsen quanto Nannini atacam e passam Berger, na melhor performance de um carro com motor aspirado até aquele momento da temporada. Até o carro do italiano ter uma fuga de água por conta de uma mangueira rompida e ter de desistir da corrida.

Ayrton Senna 1988 im McLaren-Honda

Num dos grandes momentos da carreira e da temporada, Senna superou Prost, disparou na liderança e não foi mais alcançado pelo rival e companheiro de equipe

Na 18ª passagem, Senna intensifica a pressão. Prost tem problemas ao passar a Minardi do espanhol Luis Perez-Sala e, na freada para o grampo do circuito de Montreal, Ayrton sai do vácuo do companheiro de equipe e, com a aspiração, ganha embalo para chegar na frenagem à frente de Prost. O público, de pé, assiste e aplaude a manobra.

Em uma volta, o brasileiro abre 1″1 de Prost e a vantagem sobe ainda mais quando o francês novamente tem problemas com carros mais lentos. Ao tentar passar Maurício Gugelmin, o líder do campeonato se distancia de Senna em quatro segundos. Berger abandona com uma falha de eletrônica em sua Ferrari.

Mais tarde, outro retardatário que causa sérios problemas a Prost é um velho conhecido e desafeto: René Arnoux, então em decadência com a Ligier, que tinha um dos piores carros do ano. Ao encontrar pelo caminho o antigo companheiro de Renault, Alain sofre para dobrar o carro azul e perde ainda mais tempo ao tentar alcançar Senna.

Com 30 voltas, Ayrton lidera tendo Prost a cerca de cinco segundos. Boutsen vem em terceiro, seguido por Alboreto, Piquet e Streiff. Estes dois, inclusive, protagonizariam por várias voltas uma das cenas mais incríveis do início do campeonato. O tricampeão mundial se debatendo a bordo da Lotus 100T contra uma equipe de meio para o fim do grid que, em 1987, tinha como carro um modelo Renault de 1983 e cujo assoalho era de compensado.

Quando Alboreto abandona por falha mecânica, a luta de Piquet e Streiff passa a valer o quarto lugar. E o francês do carro #14 entra no modo “empolgou” e parte para cima do brasileiro. A ótima prova de Philippe, contudo, acaba na 42ª passagem com a quebra de um braço de suspensão que provoca a rodada do AGS e o abandono do piloto, para a completa desilusão da equipe de Henri Julien.

Na 45ª volta, Senna tem Prost sob total controle. Boutsen administra não o consumo de combustível (preocupação dos carros com motor turbo), mas sim o motor Ford Cosworth DFR de sua Benetton. Piquet vem em quarto, agora recebendo pressão da Rial de Andrea De Cesaris, que faz excelente corrida no Canadá. Ivan Capelli é o sexto, com o surpreendente EuroBrun de Stefano Modena em sétimo, seguido por Philippe Alliot, Jonathan Palmer e Derek Warwick.

Algumas voltas depois, Senna e Prost colocam – virou rotina – uma volta em cima do tricampeão Piquet. O brasileiro da McLaren faz a melhor volta em 1’24″973 e nesse momento, Prost percebe que é melhor ficar com seis pontos do que nenhum: preocupado com o consumo de combustível, o líder do campeonato tira o pé e Ayrton abre vantagem.

Tanto que por rádio, a McLaren ordena que Prost siga na pista com o nível 1 de regulagem de consumo – o nível mais baixo do motor Honda dentro do seu mapeamento eletrônico. A vitória está praticamente entregue a Senna. Prudente, já com 12 segundos de vantagem, o líder também abranda seu ritmo para seguir até o final sem preocupações de pane seca.

O final reserva surpresas desagradáveis a dois pilotos na zona de pontos ou próximos dela. A Lola-Larrousse de Philippe Alliot sofre uma falha de eletrônica e para na grama do circuito canadense. O pior acontece com Andrea De Cesaris: o italiano da Rial vinha num sólido 5º posto, a caminho dos dois primeiros pontos, quando o carro #22 parou à margem da pista. O diagnóstico não podia ser pior – falta de gasolina.

E eu explico: o Rial projetado por Gustav Brunner, também conhecido como “Ferrari azul” por suas semelhanças aerodinâmicas com o modelo de Maranello, era muito compacto e o tanque de gasolina era pequeno se comparado a muitos carros com motores de aspiração normal. Numa pista onde o consumo sempre era um fator contra, a equipe foi pega pelo contrapé e Andrea, naturalmente, ficou muito frustrado com o abandono, que permitiu a Ivan Capelli marcar pontos pela primeira vez naquele ano e a Jonathan Palmer chegar na 6ª colocação.

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No pódio, Prost continua líder, mas Senna é quem festeja mais que o francês. Thierry Boutsen celebra o primeiro pódio em 1988

De forma inteligente e madura, Senna deu a resposta que precisava dar a Prost, conquistando sua oitava vitória na Fórmula 1 e segunda defendendo a McLaren, fechando as 69 voltas previstas com seis segundos de vantagem. Thierry Boutsen chegou ao primeiro pódio de um carro com motor aspirado em 1988, numa grande performance do belga – amigo pessoal de Ayrton. Piquet salvou um suado quarto posto.

Na classificação do Mundial de Pilotos, com Berger zerado em Montreal, Senna voltou à vice-liderança agora com 24 pontos. Prost ainda tinha vantagem – quinze a mais que o brasileiro. Mas o mano a mano entre eles, tão aguardado, começava a se desenhar em cores vivas.

Placar do campeonato: Prost 3 x 2 Senna. Próximo post – Detroit.

2 comentários

  1. Felipe Fugazi disse:

    Rodrigo, você poderia falar mais desse lance da Tyrrell usar em 1897 um modelo Renault de 1983?
    Eu dei uma googlada rápida e não vi nada.
    Seria interessante até pelo tal assoalho de compensado.