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22 de outubro de 2018 - 22:51Fórmula 1, Senna 30 anos

30 anos de Senna – parte VI, GP dos EUA

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Ayrton Senna se sentia à vontade no difícil circuito de Detroit. Vencera duas vezes seguidas e estava de olho na terceira conquista ali nos EUA e também no campeonato de 1988

RIO DE JANEIRO - Os fãs de Ayrton Senna tinham ainda viva na memória a cena em que Claudio Tigur entregou ao piloto a bandeira brasileira no GP dos EUA em 1986, nas mesmas ruas de Detroit em que o piloto venceria de novo em 1987.

E a Capital Mundial do Automóvel receberia de novo a categoria máxima para a 6ª etapa de uma temporada em que Alain Prost tinha vantagem sobre o companheiro e rival de McLaren nas vitórias e nos pontos.

A corrida aconteceria em 19 de junho, uma semana após o GP do Canadá. Não havia tempo a se perder. E Senna queria emplacar a segunda vitória seguida naquele campeonato de 1988 e a terceira no sinuoso e difícil circuito urbano com cerca de 4 km de extensão, que a Fórmula 1 vira pela primeira vez em 1982.

Como única novidade, a Minardi trouxe de volta o italiano Pier Luigi Martini para o lugar de Adrián Campos. Então protagonista na competitiva Fórmula 3000, o piloto assumiu o cockpit do carro #23 e sua trajetória na categoria seria confundida com a própria história da equipe de Faenza. Tanto que Martini seria pelos anos seguintes o piloto com mais participações a serviço de Giancarlo Minardi.

Bastante à vontade pelo circuito, Senna não surprendeu ninguém ao cravar sua sexta pole seguida na temporada, com o tempo de 1’40″606. Surpresa mesmo foi constatar que a seu lado estaria Gerhard Berger e Michele Alboreto, vencedor nesse circuito em 1983, estaria também à frente de Alain Prost, que levou de Senna uma “luneta” de 1″413.

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Seis corridas, seis poles: a “luneta” em Prost foi de 1″413 no treino classificatório

Os treinos vitimaram primeiro Gabriele Tarquini na pré-qualificação da manhã de sexta-feira e depois o March 881 de Ivan Capelli, que sofreu uma luxação num dos pés e foi vetado pelos médicos após um forte acidente. O primeiro não-classificado, o italiano Nicola Larini, pegou o último lugar do grid com a Osella FA1L. Satoru Nakajima falhou a segunda classificação em três provas, seguido pelas Zakspeed de Piercarlo Ghinzani e Bernd Schneider.

Sessenta e um mil espectadores se espalharam pelas arquibancadas montadas pelo circuito, cujas características previam uma corrida difícil e sacrificante para todos. Gerhard Berger estava otimista. “Essa corrida é uma loteria. Pode ser a nossa melhor chance até agora”, acreditava.

Na largada, de fato o piloto da Ferrari consegue um bom arranque e fica lado a lado com a McLaren. Mas é Senna quem faz a primeira curva na ponta. E ainda na primeira volta, Alain Prost cai para quinto, pois Thierry Boutsen o surpreende numa curva e ganha a posição com sua Benetton Ford.

Por pouco tempo, é verdade. Enquanto o piloto da McLaren se livra do belga, surpreendentemente as duas Ferrari seguem no mesmo ritmo de Senna no início do GP dos EUA. Prost faz a melhor volta logo na quarta passagem e ultrapassa Alboreto na saída do túnel, num dos raros pontos que permitiam manobras clássicas do gênero em Detroit.

Antes da pista esquentar feito fornalha, Prost continua enfileirando ultrapassagens. Supera Berger, alcança o 2º lugar – mas a esta altura, a seis segundos de Ayrton. Mais atrás, no afã de superar as Ferrari, Boutsen se enrosca com Berger e Alboreto. O austríaco leva a pior: com um furo de pneu, sai da corrida. Thierry luta e consegue deixar Alboreto para trás.

Logo depois, Alessandro Nannini acredita poder fazer o mesmo que o companheiro de escuderia e parte para dentro da Ferrari. A manobra mal-calculada termina com Alboreto tendo um furo de pneu, conseguindo porém chegar aos pits. Eventualmente, Nannini foi de encontro a uma mureta de proteção, desistindo com danos em seu carro.

Nigel Mansell assumiu o quarto posto, mas sua alegria durou pouco. Os crônicos problemas de refrigeração do motor Judd mandaram a corrida do britânico para o espaço. Algumas voltas a seguir, e é o carro de Riccardo Patrese que para com falha mecânica, ao mesmo tempo em que Nelson Piquet, que vinha em 11º lugar após uma troca de pneus, roda na curva 3, bate na mureta e sai da corrida.

Na metade da disputa, Ayrton Senna já tem 12 segundos de vantagem sobre Alain Prost. Enquanto o brasileiro é mais incisivo nas negociações com os retardatários, o francês prefere ser mais cauteloso. O preço a ser pago é muito caro…

Enquanto isso, Boutsen vem sólido em terceiro e Andrea De Cesaris, numa apresentação impecável intramuros, dá show na sexta prova da minúscula equipe Rial, formada de uma costela da antiga ATS. Maurício Gugelmin – já uma volta atrás – vem em excelente quinto lugar, com Pier Luigi Martini já em sexto na reestreia pela Minardi.

A alegria de Gugelmin termina em fogo, na 35ª volta. O motor Judd de seu March quebra, decretando seu abandono. Assim, Martini herda a quinta posição, seguido por Alex Caffi. René Arnoux é o sétimo, precedendo Michele Alboreto (em prova de recuperação), Jonathan Palmer e Yannick Dalmas.

Na 39ª volta, com os pneus bastante castigados, Prost vai aos boxes para uma troca de pneus. Retorna em segundo, 50 segundos atrás de Senna, que faz sua parada duas passagens depois. Com um pit stop de cerca de onze segundos, Senna não permite que Prost se aproxime. A diferença real chega primeiro a 37 segundos e logo após a quarenta.

Alboreto supera Arnoux, ganha a sétima posição e mira Caffi para somar pelo menos um pontinho. Mira tanto que se enrosca com o compatriota. O prejuízo é duplo. O piloto da Scuderia Italia recorre aos boxes. Alboreto abandona o GP dos EUA. Isso coloca Jonathan Palmer, que veio de último na primeira volta, em sexto lugar.

O piloto da Tyrrell ainda tem gás para ultrapassar a Minardi de Martini na 52ª volta. Na frente, Senna – imparável – coloca uma volta inteira em Thierry Boutsen e supera Prost em 52″2. Um brinquedo!

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Erguendo o troféu por mais uma vitória em Detroit, a terceira naquela pista. Seria a última, pois o circuito não seria mais usado pela Fórmula 1 depois daquele 19 de junho de 1988

Numa pista absolutamente sem aderência, a capacidade de Ayrton é posta à prova e o final é acachapante. Após quase duas horas dentro do cockpit, o brasileiro vence pela terceira vez no circuito de Detroit e alcança Prost em número de vitórias no ano de 1988. Tirando o pé nas últimas quatro voltas após chegar a quase um minuto inteiro de vantagem, Senna vem “na ponta dos dedos”, como exaltava Galvão Bueno, para triunfar por 38″713 de vantagem para Alain.

Thierry Boutsen chega ao segundo pódio seguido com a Benetton. E no dia dos times menores, Rial e Minardi riem à toa. Com Andrea De Cesaris num ótimo quarto lugar, o carro #22 conquista três pontos inesperados. A Minardi também festeja: Martini pontua em seu retorno aos cockpits de um Fórmula 1, numa corrida em que apenas oito pilotos terminaram. Os italianos colocam fim a 52 GPs de espera e pontuam pela primeira vez como equipe.

Sobre De Cesaris, uma curiosidade: o italiano atrasou-se para pegar seu voo da companhia TWA, que fazia a rota Nova York-Roma. No aeroporto JFK, o tresloucado italiano quis entrar à força com o embarque já encerrado. Aprontou com a polícia, brigou e acabou detido. Foi preso na delegacia do aeroporto e depois liberado no dia seguinte. “Não foi pior do que correr em Detroit”, assegurou.

O resultado ainda não permitia uma aproximação de Senna diante de Prost. Mas o brasileiro estava vivo e com 33 pontos, doze a menos que o francês. Tendo vencido todas as provas em 1988, a McLaren já acumulava 78 pontos no Mundial de Construtores. Sabem quantos a Ferrari somava? 27. Benetton e Lotus? Doze pontos, apenas.

Placar do campeonato – Prost 3 x 3 Senna. Próximo post: GP da França.

1 comentário

  1. Fernando Silva disse:

    Em 1988 eu tinha 7 anos e já me considerava um fã de carteirinha da F1 e, é claro, de Senna…era o que eu conhecia e o que eu assistia pela tv…lá se vão 30 anos…daqui a pouco estou com 40…hoje gosto mais de outras categorias, mas me delicio com posts como este, me faz relembrar este tempo onde não havia o domínio das montadoras…os pilotos, mesmo os de meio de pelotão, eram icônicos como o Satoru Nakajima, Tierry Boutssen, Alex Caffi, Andrea de Cesaris e Michele Alboreto (que faleceu em um acidente em um teste para as 24h de Le Mans, 2001).
    Muito obrigado, Mattar!

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