MENU

23 de outubro de 2018 - 23:38Fórmula 1, Senna 30 anos

30 anos de Senna – parte VII, GP da França

França-88-3

Prost comemora uma vitória tida como “à Ayrton Senna” pela própria imprensa de seu país. De fato, o piloto da França foi espetacular em Paul Ricard durante todo o fim de semana. Talvez tenha sido um raro momento de superioridade real sobre o brasileiro em 1988…

RIO DE JANEIRO - O campeonato de 1988 partia para o fim de sua primeira metade com três vitórias para Alain Prost e outras três de Ayrton Senna. A McLaren deitava, rolava e fazia o que bem entendesse – inclusive humilhar os adversários. Somando os pontos de todos os construtores até o GP dos EUA, o time de Ron Dennis tinha mais pontos que todas as outras nove escuderias.

Daí não era surpresa que o McLaren MP4/4 fosse de novo o grande pesadelo da concorrência para o GP da França, sétima etapa da temporada, no circuito de Paul Ricard, diminuído em seu traçado desde dois anos antes por conta da morte trágica de Elio de Angelis em testes particulares. Ayrton Senna tinha que driblar também um histórico negativo na pista localizada próxima a Bandol, pois jamais vencera ou conquistara qualquer outro bom resultado ali.

E teria que se preocupar, pois Alain Prost estava encapetado. No treino classificatório, “Le Professeur” fez o tempo de 1’07″589 com tanta facilidade que tirou o macacão, pôs a roupa “da missa” e ficou assistindo Senna se matar na pista na tentativa de conquistar a pole position.

“Consegui um acerto perfeito”, exultava Prost. “Se Ayrton conseguir superar meu tempo, parabéns para ele”, disse.

Senna não conseguiu suplantar o companheiro de equipe. Pela primeira vez no ano era batido por Alain e largaria com um tempo 0″478 pior, com as Ferrari de Gerhard Berger e Michele Alboreto logo atrás. As Benetton com motor Ford Cosworth DFR foram a surpresa positiva do treino e dividiram a terceira fila, com as Lotus mostrando ser um desastre completo.

Nos testes e treinos, era visível o descontentamento de Nelson Piquet com a falta de performance do carro, fosse com asa “parede” ou com carga mínima de aerodinâmica – não havia resposta. O comportamento era sempre neutro, ou seja: o chassi não respondia às modificações. Nem os amortecedores Bilstein com autoregulagem foram capazes de melhorar alguma coisa.

A Ligier foi a protagonista do maior vexame do GP da França. Em sua prova caseira, a equipe não teve nenhum de seus dois carros alinhando. Nem eles e nem Julian Bailey – e também Gabriele Tarquini, limado novamente na pré-qualificação. Piercarlo Ghinzani foi excluído do grid por furar a pesagem obrigatória e assim o argentino Oscar Larrauri pegou o último lugar do grid de 26 carros.

Na largada para um total de 80 voltas, Prost toma partido da pole e se mantém líder, seguido por Senna, Berger e Alboreto. Piquet consegue deixar as duas Benetton para trás na força do motor Honda Turbo. Mansell ganha a oitava posição de Nakajima e a Arrows de Derek Warwick fecha o top 10 na primeira volta.

À razão de quase um segundo por volta, Alain se distancia dos adversários. Berger segue a meio segundo de Ayrton, com Alboreto em quarto. Mas as duas Ferrari começam a perder terreno cedo demais. E a distância entre os dois pilotos da McLaren diminui um pouco quando a corrida chega à 10ª volta. Ayrton fica a menos de três segundos do francês.

Na 16ª passagem, Prost começa a enfrentar o tráfego e a vantagem cai em nove décimos. É a velha tática de Alain em ser conservador nas manobras enquanto Senna é mais proativo nas negociações com os pilotos mais lentos. Não à toa, quatro voltas mais tarde, Ayrton chega e chega muito. A vantagem de Alain cai para sete décimos.

Nisso, Berger comete um erro, roda e perde a chance de perseguir as McLaren. O austríaco para e troca pneus, voltando em sexto. Alboreto herda a posição do colega de Ferrari, enquanto Prost volta a abrir vantagem para Ayrton Senna.

Na 34ª volta, Senna decide parar e trocar para pneus novos. A tática surte efeito: o brasileiro volta veloz à pista e mesmo a 22 segundos do líder, ganha terreno à razão de dois segundos por volta. Prost faz seu pit stop na trigésima-sétima volta: a parada é mais complicada porque a roda dianteira esquerda teima em não sair. Por conta do tempo perdido, Senna assume a liderança.

Metade da disputa: os dois pegam pela proa um tráfego bastante pesado composto por Oscar Larrauri, o penúltimo colocado, e por três pilotos na luta pelo 8º posto – Maurício Gugelmin, Alex Caffi e Alessandro Nannini. Senna e Prost são sistematicamente bloqueados pelos carros mais lentos e Nannini, enfim, livra-se da Dallara de Caffi.

Formula One World Championship

Senna liderou e resistiu o quanto pôde, até cometer um erro de avaliação numa manobra diante de um carro mais lento e Prost conseguiu uma ultrapassagem magistral que lhe permitiu voltar à dianteira em Paul Ricard

Prost faz a melhor volta da disputa em 1’11″737 e segue firme no encalço de Senna, disposto a diminuir a diferença e recuperar com isso a liderança do GP da França. A vantagem do brasileiro vai caindo à medida que o final da corrida se aproxima e com 25 voltas para o final, Prost está a oito décimos de Ayrton.

Sexagésima-primeira volta: Senna consegue pôr uma volta de vantagem sobre a Lotus de Nelson Piquet. Porém, o líder da disputa tem problemas para dobrar a Minardi do italiano Pier Luigi Martini. Com a turbulência gerada pelo retardatário, Senna perde o momento na descida da reta Mistral e para a entrada da veloz Courbe des Signes. Ayrton hesita e Prost, após tirar do vácuo e ganhar embalo na aspiração, supera os dois numa manobra magistral em Le Beausset, assumindo novamente a liderança em seu GP caseiro.

A 10 para o final, Prost controla a corrida a seu bel-prazer. Abre 2″4 para Senna, enquanto Alboreto e Berger, que conseguiu se recuperar após a rodada, estão praticamente uma volta atrás e os demais já têm uma ou mais voltas de desvantagem. Inclusive Piquet, novamente humilhado no papel de tricampeão mundial.

Jo Ramirez, chefe de mecânicos da McLaren, mostra a placa “BOOST” para os dois pilotos. É a senha para que mantenham as posições e preservem o combustível. Ayrton é alertado pelo computador de bordo que o consumo de gasolina é excessivo e o brasileiro muda o mapeamento para não ficar a pé.

No final, usando marchas mais altas, Senna salva a gasolina necessária para não parar com pane seca. Berger é ultrapassado por Prost, que consegue uma vitória impecável para se manter líder do campeonato. Ayrton cruza a linha final e para. Não há mais combustível suficiente em sua McLaren. Alboreto consegue terminar, satisfeito, na mesma volta que a dupla da McLaren. Berger fecha em quarto, seguido por Piquet e Nannini. Outro bastante feliz é Maurício Gugelmin: ele termina sua primeira corrida com bom desempenho na temporada, num razoável 8º posto.

Com uma vitória “à Ayrton Senna”, como reconheceu a imprensa francesa no dia seguinte ao GP da França, Prost chegou a 54 pontos contra 39 do brasileiro. Placar de vitórias: Alain 4 x 3 Ayrton.

Próximo post: Silverstone.

1 comentário

  1. Felipe Fugazi disse:

    Obrigado pela série Rodrigo.
    Tenho lembranças bem vívidas dessa época.
    Nesse GP diante da sua torcida o Prost provou que também era capaz de ser arrojado.
    Foi uma vitória “a la Senna”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>