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28 de outubro de 2018 - 07:18Fórmula 1, Senna 30 anos

30 anos de Senna, parte XI – GP da Bélgica

Senna_Spa_1988

Esse foi o único ângulo do qual Alain Prost pôde ver Ayrton Senna em grande parte do GP da Bélgica de 1988. O francês liderou nos primeiros quilômetros, mas o brasileiro passou, foi embora e dominou de uma forma que o francês o decretou campeão após a disputa

RIO DE JANEIRO - O dia 28 de agosto de 1988 poderia marcar a chegada de um novo líder isolado na classifcação do Mundial de Fórmula 1 daquele ano. Empatado em pontos com Alain Prost, mas com duas vitórias a mais, por conta da arrancada espetacular que lhe conferiu três sucessos consecutivos em Silverstone, Hockenheim e Hungaroring, Ayrton Senna tinha em mente que o desafio do GP da Bélgica, em Spa-Francorchamps, era de vital importância para o destino de seu trabalho ao fim do campeonato.

Mas o mundo do automobilismo ainda vivia o baque de uma perda monumental: duas semanas antes da corrida, morria aos 90 anos o lendário Commendatore Enzo Ferrari. Vítima de graves problemas cardiovasculares e insuficiência renal, a alma da mais tradicional escuderia da história da Fórmula 1 se despediu da vida e entrou para a história. Sepultado no Cemitério San Cataldo, numa cerimônia discreta e não menos que 15 pessoas presentes, só se tomou conhecimento da notícia no dia seguinte, quando Marco Piccinini, então um dos homens-fortes da marca, anunciou a morte de Enzo Ferrari.

Tirante o luto de Maranello, o GP da Bélgica tinha sim uma novidade. Nigel Mansell havia contraído catapora no contato com um de seus filhos e já não devia ter disputado a corrida anterior na Hungria, contrariando recomendação médica. Em Spa, o Leão teve de se ausentar e o carro #5 foi entregue a Martin Brundle, que na época disputava o World Sportscar Championship pela Jaguar. Para parte da imprensa, chegou a versão de que Mansell teve uma hepatite. Outros ironizavam, dizendo que o piloto estava de “férias”.

Os bastidores também fervilhavam. Entre os times de meio e fim de pelotão havia mil novidades. Na Ligier, a demissão do engenheiro Michel Tétu, incapaz de fazer do modelo JS31 um carro competitivo. Havia ainda a briga de Gustav Brunner com Gunther Schmidt, que provocou a saída do designer da Rial para a Zakspeed, onde iniciaria os trabalhos visando o campeonato de 1989.

E não foi só isso: Enzo Coloni fez uma limpa na AGS e recrutou Christian Vanderpleyn e seus adjuntos Michel Costa e Fréderic Dhainault, com a missão de fazer o novo carro para o ano seguinte. Henri Julien ficou sem sua equipe de engenharia e sem dinheiro, assim como a EuroBrun, abalada por uma briga entre os dois sócios – Walter Brun e Giampaolo Pavanello. Gérard Ducarouge, de saída da Lotus, foi visto no motorhome da Larrousse-Calmels. E na Benetton, Peter Collins informava a renovação de contrato de Alessandro Nannini por pelo menos mais duas temporadas.

Os treinos classificatórios foram – como é habitual no circuito encravado na Floresta das Ardenas – prejudicados pelo mau tempo. Ainda assim, houve chance de Ayrton Senna marcar sua nona pole position em onze corridas, com uma de suas não menos habituais voltas voadoras, de prender a respiração. O tempo de 1’53″718 para os 6,940 km do espetacular traçado belga foi 0″410 melhor que a marca de Alain Prost, com a Ferrari já acostumada a não conseguir nada melhor do que a segunda fila do grid.

As surpresas foram Riccardo Patrese como o mais veloz entre os carros de motores aspirados com o 5º tempo, à frente das duas Benetton e, num fato pouco comum, Satoru Nakajima melhor que Nelson Piquet. As Minardi, sempre se ressentindo de falta de performance em circuitos mais velozes, repetiram o que acontecera no GP da Alemanha e não se classificaram. Julian Bailey e Stefano Modena também ‘dançaram’ e Oscar Larrauri já havia ficado pelo caminho na pré-qualificação após um acidente.

No warm-up que antecedeu a corrida, disputado quatro horas antes da largada, Alain Prost decidiu por mexer no acerto de sua McLaren. Optou por uma regulagem diferente de Ayrton Senna, com a montagem da asa traseira um pouco mais à frente, para reduzir o consumo de combustível do motor Honda. O céu estava fechado, mas não ameaçador o bastante para a corrida se disputar com pista molhada.

Dada a largada, onde os dois pilotos da McLaren combinaram de não tentar atrapalhar a corrida um do outro, Senna deixa patinar as rodas de seu carro, já que o colocaram para largar na parte suja e Prost consegue chegar em La Source na dianteira do pelotão de 26 carros. Mas antes que Alain pudesse respirar, Ayrton já estava montado na traseira do rival e companheiro de equipe.

O brasileiro subiu a longa reta Kemmel perto de Prost, aspirou do vácuo do McLaren líder e sem transição, deixou o francês para trás na frenagem de Les Combes, assumindo a liderança do GP da Bélgica.

Enquanto isso, Berger sofre com problemas eletrônicos em sua Ferrari e perde inúmeras posições. Alboreto herda o 3º lugar, seguido por Thierry Boutsen, Satoru Nakajima e Alessandro Nannini. O austríaco cai para a última posição e fica por lá até abandonar, não sem antes marcar a melhor volta da corrida – 2’00″772.

Um pouco antes, após um início discreto, Nelson Piquet consegue superar a Benetton de Nannini e assumir a 6ª colocação. Ayrton Senna lidera com quatro segundos de vantagem para Alain Prost. A diferença entre os dois pilotos da McLaren vai pouco a pouco subindo e os dois vão se distanciando dos demais, enquanto Piquet coloca ordem na casa e no fim do retão Kemmel rouba de Nakajima o quinto lugar.

Perto da metade das 43 voltas previstas, a vantagem de Senna para Prost está em cerca de seis segundos. Longe, Alboreto sofre a pressão de Thierry Boutsen na batalha pelo pódio. Piquet tenta alcançar o piloto da Benetton, mas acaba traído pelos freios e acaba perdendo terreno.

Nisso, a vantagem de Ayrton na liderança já chega perto de 10 segundos e um piloto que vem do pelotão intermediário começa a chamar a atenção em Spa-Francorchamps. Com o Leyton House March #16, Ivan Capelli já superara Riccardo Patrese e o italiano roubou de Eddie Cheever o 8º lugar, na altura de Stavelot.

Os radiadores da Lotus de Piquet estão obstruídos por conta de sua saída de pista anterior e o então tricampeão mundial sofre com o superaquecimento do motor Honda de sua Lotus. Ele não quer ter o mesmo destino de Nakajima, que já abandonara. A opção é reduzir o ritmo e tentar somar o máximo possível de pontos.

Senna, mesmo com a missão de preservar os pneus Goodyear, faz uma prova impecável em Spa-Francorchamps. Prost, incapaz de seguir o ritmo do companheiro de equipe, já se encontra a 13 segundos e meio na altura da 30ª volta. A diferença logo sobe para cerca de 17 segundos algum tempo depois.

Na 34ª volta, por conta dos problemas mecânicos em sua Lotus, Piquet perde muito terreno para a Benetton de Alessandro Nannini. Logo após, o motor da Ferrari de Alboreto se entrega no retão Kemmel e o piloto abandona em Les Combes, com o carro pegando fogo. Capelli deixa Derek Warwick para trás e assume o 6º posto com o abandono de Alboreto.

Após algumas voltas de resistência, Piquet cede a posição e permite a ultrapassagem de Nannini, que sobe ao quarto posto. O piloto da Lotus passa à alça de mira de um mordido Ivan Capelli. E não oferece resistência, deixando o piloto da Leyton House garantir o quinto lugar na pista.

Com Prost batido, Senna ruma para uma vitória dominante. É o sétimo triunfo de Ayrton em 1988, que o faz finalmente assumir a liderança do campeonato com 75 pontos, contra 72 do francês. A McLaren chega ao impressionante total de 147 pontos contra apenas 44 da Ferrari. Tamanha vantagem dá ao time de Ron Dennis o título mundial de Construtores com antecipação inédita de cinco corridas. Também pudera: foram onze triunfos dos carros decorados com as cores branca e vermelha dos cigarros Marlboro, contra nenhum do resto.

Após a corrida, num gesto de surpreendente humildade para muitos que não o conheciam ainda, Alain Prost baixou os braços e admitiu a superioridade de Ayrton Senna, que chegara à sua quarta vitória consecutiva em 1988.

“Ele será o campeão mundial e merece. Guiou muito bem essa temporada. Totalmente merecido”, disse o piloto. Se me lembro bem – tentei achar esse vídeo no YouTube – os dois apareceram juntos na conferência de imprensa após a corrida e Alain estendeu-lhe a mão dizendo:

“Congratulations, Champion!”, ou seja, “Parabéns, Campeão!”, em bom português.

Mas os jornalistas franceses sabiam que podia muito bem ser um jogo psicológico de Alain contra o próprio colega de equipe. Prost certamente pretendia ver onde Senna poderia chegar com o peso do favoritismo, já que passara a líder do campeonato e vinha de quatro conquistas seguidas.

Em tempo: o resultado de pista do GP da Bélgica acabou alterado após o campeonato. Uma análise da gasolina dos dois carros da Benetton, procedida como de praxe, mostrou que o combustível dos carros de Thierry Boutsen e Alessandro Nannini, terceiro e quarto colocados, estava com mais do que os 102 RON regulamentares em termos de octanagem. Como isso conferiu aos motores Ford Cosworth DFR uma performance melhor, os dois acabariam desclassificados e a Benetton, multada pelo Conselho Mundial da FISA em US$ 250 mil da época.

Somente em dezembro os pontos da equipe e dos pilotos foram excluídos, o que deixou Ivan Capelli em 3º lugar no resultado final, seguido por Nelson Piquet, Derek Warwick e Eddie Cheever.

Placar da batalha: Senna 7 x 4 Prost. Próximo post – GP da Itália.

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