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10 de junho de 2013 - 19:06Discos eternos

Discos eternos – Som Imaginário (1971)

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RIO DE JANEIRO – Confesso que até o reveillón de 1996/1997, desconhecia por completo a existência de um grupo brasileiro chamado Som Imaginário. Em pleno 1º de janeiro, com o som da festa devidamente levado de volta por seu dono para o Rio de Janeiro (a passagem de ano foi em Petrópolis, com dezenas de amigos, num casarão da família de uma amiga minha de faculdade), nos restou apenas uma velha vitrola e discos mais velhos ainda, onde despontavam Colosseum, Camel, Caravan e Som Imaginário.

Eu e um conhecido daquela época, que acho que se tornou músico, fomos ver qual era a desse grupo e ao ouvir a primeira faixa, demos muito boas risadas. Afinal de contas, o que tinha de interessante uma música que dizia “eu vou plantar cenouras na sua cabeça”? Fácil: muita coisa.

Tempos depois, vim descobrir que o Som Imaginário surgira em Minas no fim dos anos 60, para ser a banda de apoio de ninguém menos que Milton Nascimento. O grupo era formado por – vejam bem a turma – Fredera na guitarra-solo (à época assinando Frederyko), Tavito no violão e na guitarra-base, Luiz Alves no baixo, Wagner Tiso no piano e órgão, Zé Rodrix no piano, órgão, flauta e vocais, e Robertinho Silva na bateria. Laudir de Oliveira foi chamado para ser o percussionista, mas durou pouco tempo na função: foi excursionar com o Brazil 69 de Sérgio Mendes.

Essa turma toda tocou em 1970 no famoso show Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário, um espetáculo que foi bem-sucedido e provou que o Som Imaginário era mais do que uma simples banda de apoio, com boas possibilidades até de conseguir contratos para gravar discos. Nesse mesmo ano, o grupo participou do FIC da TV Globo com “Feira Moderna”, composição de Fernando Brant e Beto Guedes. Foram para a final, mas como correu um boato que “BR-3″, de Tibério Gaspar e Antônio Adolfo, com Toni Tornado e o Trio Ternura cantando, venceria a fase nacional do festival, eles não se conformaram: tocaram uma versão fake com um só acorde e sem nenhum sentido.

Apesar disto, “Feira Moderna” fez parte do primeiro álbum do grupo, que veio à luz nesse mesmo ano de 1970. Nesse primeiro trabalho, o Som Imaginário não flertava com o que se convencionava chamar de MPB: era uma mistura poderosa de Beatles, com psicodelia, rock progressivo e a cultura hippie que “fazia a cabeça” da moçada mais jovem.

Divididos entre o grupo e trabalhos paralelos com outros artistas – inclusive Milton Nascimento – os integrantes do Som Imaginário tiveram que se virar sem Zé Rodrix, que sairia do grupo para formar o trio Sá, Rodrix e Guarabyra. Sem ele, o líder natural passou a ser Fredera, que cantou em praticamente todas as faixas do disco de 1971.

A abertura é com a sensacional “Cenouras”, supracitada, onde Fredera e Tavito capricham nas guitarras e o primeiro solta a pérola-mor do disco: eu vou plantar cenouras na sua cabeça… É só a tônica do que o ouvinte poderia encarar nas sete faixas seguintes. Em “Você tem que saber”, com uma levada típica de música regional e farta percussão, o grupo flerta com a MPB renegada no disco anterior, num resultado surpreendentemente bom.

O escracho dá o tom na terceira música. “Gogó (O alívio rococó)” começa com uma seqüência de gritos initeligíveis, pratos, bateria, percussão, acordes dissonantes e uma letra absolutamente hilária que termina assim: Rococó… meu gogó… tua avó… pão-de-ló… bororó… curió… no filó… Sensacional!

“Ascenso” é uma faixa que remete ao disco de estréia de outro grupo que bebia na fonte do prog rock: O Terço. Com um vocal espetacular de Fredera e a belíssima letra de Fernando Brant, é uma das melhores de todo o álbum, com um arranjo caprichadíssimo de Wagner Tiso.

Outro grande destaque é “Salvação pela macrobiótica”, um canto falado engraçadíssimo e anárquico que começa falando do feijão nosso de cada dia e depois embarca numas de que bom mesmo é ficar meditando e comendo arroz integral. A sexta faixa é também de dois mineiros que seriam fornecedores de canções do movimento do Clube da Esquina: Chico Lessa e Márcio Borges compuseram “Ué”, outra com letra viajandona e excelente performance de Tavito e Fredera nas guitarras, além da competentíssima cozinha formada por Luiz Alves e Robertinho Silva.

“Xmas Blues”, como o próprio nome sugere, é um blues que remete a Natal e congêneres, em nova letra hilária de Fredera que diz que o algodão branco imita a neve irreal – provavelmente porque em Minas Gerais neve é artigo inexistente. Por fim, o disco encerra com “A nova estrela”, belíssima composição de Fredera e Wagner Tiso, com o piano e o órgão tocados por este último em absoluto destaque.

Uma senha para o que seria o disco seguinte do grupo – Matança do Porco, gravado em 1973, que seria também o divisor de águas para a carreira de Wagner Tiso. O Som Imaginário ainda tocaria em Milagre dos Peixes, grande álbum de Milton Nascimento algum tempo depois e os fãs mais extremados consideram que este é o quarto e último trabalho de uma banda que deixou sua marca na música moderna brasileira.

Pena que durou tão pouco tempo.

Ficha Técnica de Som Imaginário
Selo: EMI-Odeon
Produzido por Milton Miranda
Gravado nos estúdios da EMI-Odeon no primeiro semestre de 1971
Tempo total: 31’47″

Músicas:

1. Cenouras (Frederyko)
2. Você tem que saber (Chico Lessa/Márcio Borges)
3. Gogó [O alívio rococó] (Frederyko/Wagner Tiso)
4. Ascenso (Fernando Brant/Frederyko)
5. Salvação pela macrobiótica (Frederyko)
6. Ué (Chico Lessa/Márcio Borges)
7. Xmas blues (Frederyko)
8. A última estrela (Frederyko/Wagner Tiso)

5 comentários

  1. luiz alberto disse:

    Rodrigo,dei uma olhada nos seus “Discos Eternos” e não vi uma citação se quer de qualquer musica de Taiguara,foi falta de atenção minha ou você não gosta de nenhuma das musicas dele?

  2. Ron Groo disse:

    Poxa… Eu não conhecia este disco. Nem a banda.
    Do Tavito eu só sabia daquela que ele cita os Beatles e o Sacre coer…
    Vou ouvir com mais atenção.

  3. Alvaro Ferreira disse:

    Grandes lembranças essas, Rodrigo! Vi um show deles no Teatro Opinião, e lá pelas tantas o Zé Rodrix chamou para uma participação especial uma jovem cantora ainda desconhecida, que entrou e arrebentou junto com eles: Gal Costa, se chamava a baianinha…

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