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21 de agosto de 2014 - 19:09Discos eternos

Discos eternos – Novo Aeon (1975)

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RIO DE JANEIRO – Raul Seixas nos deixou há exatos 25 anos. Num 21 de agosto, mas lá por 1989, o coração do roqueiro mais retado que esse país conheceu parou. Foram 44 anos de intensa vida e que pareceram ser milênios, tamanha a intensidade com que o baiano de Salvador se entregou a tudo o que lhe cercava – em especial o rock, cantado em bom português, é claro.

Desnecessário explanar a importância de Raulzito para a música brasileira e o barulho que ele fez no início de carreira solo, chutando portas e escancarando as coisas após ser Kavernista, barbarizar no FIC de 1972 com “Let me sing” e “Eu sou eu, Nicuri é o diabo”, conseguindo com isso um contrato com a Philips para lançar seus primeiros discos.

Estrondou com Krig-Ha, Bandolo! e com Gita atingiu o ápice, vendendo mais de 600 mil LPs e tornando-se um sucesso popular instantâneo e absoluto. Querido pelos doidões e adorado pelo povão, Raul e seu letrista Paulo Coelho (ele mesmo…) tinham química, faziam a máquina funcionar. Apesar do discurso absolutamente louco de “Sociedade Alternativa”, cuja inspiração era a doutrina satanista de Aleister Crowley, Raul vivia uma ótima fase com a qual jamais sonhara – até ser apertado pela censura em demorados inquéritos e a dupla “diabólica” acabou se autoexilando por um tempo nos EUA.

De volta dessa experiência e já casado pela segunda vez com outra americana, Gloria Vaquer, irmão de Jay Vaquer, um de seus guitarristas de estúdio, Raul e Paulo iniciaram o processo de composição das músicas do terceiro álbum solo do baiano, Novo Aeon, a ser lançado em 1975.

Com direção de produção de Mazzola, arranjos de Miguel Cidras e músicos do naipe de Ivan “Mamão” Conti na bateria, Paulo Cesar Barros e Jamil Joanes no baixo, Antônio Adolfo ao piano, José Roberto Bertrami nos teclados e Rick Ferreira, Gabriel O’Meara e Pedrinho Guitarra nas guitarras e violões, o disco não repetiu o êxito dos dois trabalhos anteriores e, comercialmente, foi um retumbante fracasso. Mas isso foi incapaz de diminuir a opinião de Raul a respeito de Novo Aeon: “É um de meus melhores trabalhos”. Um de seus mais devotados fãs, Marcelo Nova, baiano como Raulzito, concordou, quando os dois compunham material muito tempo depois, para o disco A Panela do Diabo.

Realmente, o disco tem coisas muito boas. Começa com a excepcional balada dos desesperados e derrotados: “Tente outra vez”, um dos maiores clássicos da parceria Raul/Paulo – ajudados por Marcelo Motta – e deságua no “Rock do Diabo”. Aqui, Raul é direto e reto no recado, íntimo do assunto tal e qual Robert Johnson, que dizia “andar lado a lado com o diabo” em sua “Me and my Devil Blues”, de 1936.

Me dê um porco vivo
Para eu encher minha pança
Três quilos de alcatra
Com moqueca de esperança…

Diabo!
O diabo usa capote
É Rock! É Toque! É Foque!
Diabo!
Foi ele mesmo
Que me deu o toque…

Enquanto Freud
Explica as coisas
O diabo fica dando toque…

Existem dois diabos
Só que um parou na pista
Um deles é do toque
O outro é aquele do exorcista…

Diabo!
O diabo usa capote
É Rock! É Toque! É Foque!
Diabo!
Foi ele mesmo
Que me deu o toque
Huuuum!…

Enquanto Freud
Explica as coisas
O diabo fica dando os toque…

Mamãe disse a Zequinha
Nunca pule aquele muro
Zequinha respondeu
Mamãe aqui tá mais escuro…

Diabo!
O diabo usa capote
É Rock! É Toque! É Foque!
Diabo!
Foi ele mesmo que
Me deu o toque…

Enquanto Freud
Explica as coisas
O diabo fica dando os toque…

O diabo é o pai do rock!
O diabo é o pai do rock!
Então é very god rock!
O diabo é o pai do rock
Enquanto Freud explica
O diabo dá os toque…

Como Raul sempre teve a ousadia como marca registrada, em “A maçã”, composta também por Marcelo Motta, o cantor prega a liberação sexual e o casamento aberto. “Eu sou egoísta” é outro dos grandes clássicos raulseixísticos, antecedendo a breguíssima “Tu és o MDC da minha vida”, com pitadas de Odair José e Lindomar Castilho que fazem dessa canção um clássico instantâneo do gênero, com a impagável rima Eu me lembro / Do dia em que você entrou num bode / Quebrou minha vitrola e minha coleção de Pink Floyd.

“A verdade sobre a nostalgia” é um delicioso rockabilly de total exaltação não só aos primórdios do rock and roll como também aos ídolos Chuck Berry, Elvis Presley e também Beatles, em que Raul, mais libertário e mais mosca na sopa do que nunca, ameaça: “Eu vou fazer o que eu gosto!” e também profetiza: “O rock hoje em dia já mudou. Virou outra coisa. É por isso que eu corto o cabelo”.

Sozinho, Raul compôs ainda as inesquecíveis “Para Noia” e “É fim de mês”, baião que muito tempo depois mereceria uma revisitação ousada com mixagem e batida de rap.

É fim de mês, é fim de mês, é fim de mês, é fim de mês, é fim de mês!

Eu já paguei a conta do meu telefone,
Eu já paguei por eu falar e já paguei por eu ouvir.
Eu já paguei a luz, o gás, o apartamento
Quitinete de um quarto que eu comprei a prestação
Pela Caixa Federal, au, au, au,
Eu não sou cachorro não (não, não, não)!
Eu liquidei a prestação do paletó, do meu sapato, da camisa
Que eu comprei pra domingar com o meu amor
Lá no Cristo Redentor, ela gostou (oh!) e mergulhou (oh!)
E o fim de mês vem outra vez!

Eu já paguei o Peg-Pag, meu pecado,
Mais a conta do rosário que eu comprei pra mim rezar ave maria.
Eu também sou filho de Deus (Ave Maria!)
Se eu não rezar eu não vou pro céu,
Céu, céu, céu.
Já fui pantera, já fui hippie, beatnik,
Tinha o símbolo da paz pendurado no pescoço
Porque nego disse a mim que era o caminho da salvação.
Já fui católico, budista, protestante,
Tenho livros na estante, todos tem explicação.
Mas não achei! Eu procurei!
Pra você ver que procurei,
Eu procurei fumar cigarro Hollywood,
Que a televisão me diz que é o cigarro do sucesso.
Eu sou sucesso! Eu sou sucesso!
No posto Esso encho o tanque do meu carrinho
Bebo em troca meu cafezinho, cortesia da matriz.
“There’s a tiger no chassis”…
Do fim do mês,
Do fim de mês,
Do fim de mês eu já sou freguês!
Eu já paguei o meu pecado na capela
Sob a luz de sete velas que eu comprei pro meu senhor
Do Bonfim, olhai por mim!
Tô terminando a prestação do meu buraco, do
Meu lugar no cemitério pra não me preocupar
De não mais ter onde morrer.
Ainda bem que no mês que vem,
Posso morrer, já tenho o meu tumbão, o meu tumbão!

Eu consultei e acreditei no velho papo do tal psiquiatra
Que te ensina como é que você vive alegremente,
Acomodado e conformado de pagar tudo calado,
Ser bancário ou empregado sem jamais se aborrecer…
Eu já paguei a prestação da geladeira,
Do açougue fedorento que me vende carne podre
Que eu tenho que comer,
Que engolir sem vomitar,
Quando às vezes desconfio
Se é gato, jegue ou mula
Aquele talho de acém que eu comprei pra minha patroa
Pra ela não me apoquentar,

E o fim de mês vem outra vez...

Simplesmente genial!

E, como se não bastasse, muito antes de “Carimbador Maluco”, nosso inesquecível e genial Raulzito fez música com M maiúsculo – sem ser babaca – para o público infantil. Aliás, uma ótima parceria com Marcelo Motta. Ouçam “Peixuxa (O amiguinho dos peixes)” para ver se o blogueiro aqui falou alguma besteira.

Apesar de todos os números pouco animadores – vendeu apenas 40 mil cópias, segundo consta, Novo Aeon tornou-se com o tempo um dos discos mais cultuados entre os adeptos do raulseixismo e uma espécie de querido filho bastardo do cantor em relação à sua própria discografia. A Rolling Stone, em sua edição nacional, colocou este trabalho do baiano como o 53º entre os 100 melhores discos da música brasileira em todos os tempos.

Ficha técnica de Novo Aeon
Selo: Philips/Phonogram/Universal Music
Produzido por Marco Mazzola
Gravado em 1975 nos estúdios da Philips, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
Tempo: 33’00”

Músicas:

1. Tente outra vez (Raul Seixas/Paulo Coelho/Marcelo Motta)
2. Rock do Diabo (Raul Seixas/Paulo Coelho)
3. A maçã (Raul Seixas/Paulo Coelho/Marcelo Motta)
4. Eu sou egoísta (Raul Seixas/Marcelo Motta)
5. Caminhos (Raul Seixas/Paulo Coelho)
6. Tu és o MDC da minha vida (Raul Seixas/Paulo Coelho)
7. A verdade sobre a nostalgia (Raul Seixas/Paulo Coelho)
8. Para Noia (Raul Seixas)
9. Peixuxa [O amiguinho dos peixes] (Raul Seixas/Marcelo Motta)
10. É fim de mês (Raul Seixas)
11. Sunseed (Raul Seixas/Gloria Vaquer)
12. Caminhos II (Raul Seixas/Paulo Coelho/Eládio Gilbraz)
13. Novo Aeon (Raul Seixas/Cláudio Roberto/Marcelo Motta)

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1 comentário

  1. fabio lima disse:

    Raul seixas,simplesmente um genio alem das fronteiras,acima de todos
    os modismos;sua musica simplesmente nao estabeleçe e nao remete ape
    nas ao rock and roll,mas muito mais,pois filosofia,politicas e lutas,aos 11 anos
    de idade,ele ja desconfiava da verdade absoluta.muita saudade !

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