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29 de outubro de 2014 - 17:49Equipes Históricas, Fórmula 1

Equipes históricas – Fittipaldi, parte VII

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Keke Rosberg nas ruas de Long Beach: começava a pior temporada da história da Fittipaldi na Fórmula 1

RIO DE JANEIRO – A Fittipaldi iniciou os preparativos para o ano de 1981 sem o seu maior nome como piloto: Emerson Fittipaldi, após 10 anos e dois títulos mundiais, além de alguns dissabores a bordo dos carros do time brasileiro, pelo qual conquistou apenas dois pódios – GP do Brasil (1978) e GP dos EUA-Oeste (1980), anunciou oficialmente em coletiva que se aposentava como piloto e ficaria como chefe da equipe, trabalhando em conjunto com Wilsinho Fittipaldi e os dois pilotos.

A aposentadoria do Rato fez com que Keke Rosberg acabasse promovido à condição de número um do time, passando do carro #21 ao #20. A Fittipaldi cumpriu o prometido e trouxe Chico Serra, que tivera um ano difícil na Fórmula 2, para suceder o bicampeão, entrando assim no #21. O modelo F8 de 1980 continuaria nas pistas, remodelado e com a sigla F8C para atender às mudanças do regulamento. As minissaias foram extintas, o efeito-solo abolido e os F-1 teriam que correr com uma altura mínima de 6 centímetros em relação ao solo.

No entanto, essa discussão marcou todo o início do ano e mais uma vez os protagonistas não foram equipes e pilotos – e sim os dirigentes, tendo Bernie Ecclestone e Jean-Marie Balestre à frente no campo de batalha. Até cogitou-se a separação entre FISA e FOCA e a disputa de dois campeonatos paralelos. Efetivamente a ameaça se cumpriu e o GP da África do Sul, realizado em Kyalami no dia 7 de fevereiro. Participaram daquela corrida 19 carros, entre eles os de Brabham, Williams, Lotus, McLaren, Tyrrell, Arrows, Theodore, Ensign, ATS, March e Fittipaldi.

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A estreia “oficiosa” de Chico Serra foi no GP da África do Sul, com um razoável nono lugar

Foi a estreia “oficiosa” de Chico Serra na Fórmula 1, com um razoável nono lugar após largar em 13º. Keke Rosberg largou e chegou em quarto. A corrida foi vencida por Carlos Reutemann, com Nelson Piquet, pole position, em segundo.

As discussões e o disse-me-disse se arrastaram por mais algumas semanas e a guerra entre FISA e FOCA deu uma trégua e o campeonato começou. A “nova” F-1 deu a largada em 15 de março com o GP dos EUA-Oeste em Long Beach, prova em que todos os carros inscritos estavam com os pneus Michelin, após o abandono declarado da estadunidense Goodyear, fornecedora da maioria dos times até 1980. A Toleman, ausente da estreia, porém inscrita, seria a única no início do ano a dispor dos pneus Pirelli, de construção diagonal – diferente dos radiais da Michelin.

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Os Fittipaldi F8C começaram o ano sem patrocínio: havia uma negociação em curso com a petroleira alemã Aral, jamais concretizada

Os Fittipaldi F8C começaram a temporada inteiramente pintados de branco, sem patrocínio, apenas com o nome da equipe na altura da lateral do cockpit dos dois carros. Segundo Emerson, havia uma negociação em curso com a petroleira alemã Aral para garantir a verba necessária do campeonato de 1981 e também a evolução da equipe, que permanecia com Harvey Postlethwaite a bordo como o designer principal. Keke largou em 16º e Chico, em sua estreia oficial na categoria, ficou com a décima-oitava posição no grid. Considerando as dificuldades da pista, um ótimo resultado.

Keke subiu até a oitava posição e depois foi obrigado a desistir pela quebra do distribuidor do motor. Serra fez uma corrida correta e sem problemas, quase terminando nos pontos: chegou em 7º lugar, resultado muito elogiado por Emerson e por Wilsinho Fittipaldi.

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22º no grid do GP do Brasil, Chico Serra foi abalroado por um adversário logo depois da largada

O GP do Brasil voltou a Jacarepaguá e seria a 2ª etapa do campeonato. Sem o apoio prometido da Aral – que jamais se concretizaria – a Fittipaldi conseguiu um patrocínio de última hora com a Atlântica-Boavista, companhia de seguros que seria depois absorvida pelo Bradesco. Aproveitando o ensejo, a equipe promoveu uma volta de despedida para Emerson, no dia da corrida. Na qualificação, Rosberg conseguiu o 12º tempo e Chico Serra, o 22º.

Chovia no dia da prova e Emerson entrou na pista após o treino de aquecimento para a volta de despedida. O bicampeão se empolgou demais e a transmissão do F8C quebrou no meio do caminho. Restou a Fittipaldi receber o carinho da torcida numa volta em carro aberto – no caso, um prosaico bugre. A corrida foi caótica e Chico Serra foi vítima de uma batida logo após a largada. Ele encontrou a pista bloqueada por uma colisão entre René Arnoux e Mario Andretti. Meteu o pé no freio e foi logo abalroado pela Arrows do italiano Siegfried Stohr, que largara com pneus para pista seca.

Com tanques cheios em seu Fittipaldi, Keke Rosberg foi muito competitivo na chuva. Depois caiu de rendimento e chegou em nono no GP do Brasil

Rosberg deu seu show: largou muito bem, passou em 6º na primeira volta e chegou a andar em quinto. Conforme as condições da pista melhoraram – mas não muito – o finlandês perdeu terreno e acabou superado por outros pilotos que viravam mais rápido com tanques vazios. Até Nelson Piquet, mesmo com pneus de pista seca e antes de rodar, superou o nórdico. Keke acabou apenas na nona posição.

Nos treinos para o GP da Argentina, 3ª etapa do campeonato, o finlandês mostrou de novo que era um excelente piloto: tirou leite de pedra do F8C e fez o oitavo tempo do grid, na pista em que estreara pela equipe com um pódio em 1980. Chico Serra largou em 20º e fez uma corrida bem razoável, chegando ao décimo-sexto posto até o câmbio quebrar na 29ª volta. A corrida de Keke acabou bem mais cedo: a bomba de gasolina pifou e tirou o #20 da disputa na quarta passagem.

Para o GP de San Marino, que aconteceria pela primeira vez em Imola, uma drástica mudança no conjunto: saíram os pneus Michelin e entraram os Avon. Uma troca sem muita explicação, mas que fazia algum sentido. Dono da marca, Bernie Ecclestone usou a Fittipaldi como “boi de piranha” para tentar vender seu produto e angariar alguma equipe disposta a usar seus pneus no correr do campeonato.

Como resultado, a performance do carro, que fora razoável nas três primeiras etapas, caiu e Chico Serra sofreu o primeiro desapontamento de não se classificar para uma corrida pela primeira vez no ano. Keke Rosberg largou de 15º e vinha no pelotão intermediário, em meio à chuva que caía no começo da disputa, quando o motor de seu carro estourou.

Em Zolder, os dois F8C foram vistos de novo no grid. Rosberg conseguiu um ótimo 11º tempo e Chico Serra ficou com a vigésima posição. Keke largou muito bem e chegou a oitavo no início, mas o câmbio o deixou a pé. Serra fez sua melhor corrida de sua curta carreira na F-1: chegou a alcançar a 13ª colocação e podia ter ido mais longe na disputa, não fosse o motor ter problemas, obrigando o piloto a desistir.

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Só nos treinos: o Fittipaldi F8C ficou fora do GP de Mônaco com os dois pilotos

No GP de Mônaco, com 26 pilotos disputando 20 vagas no grid, seria praticamente impossível que a Fittipaldi tivesse um de seus dois carros na corrida. Mas Keke Rosberg, com a valentia de sempre, quase conseguiu a vaga: por 0″078 apenas, acabou alijado da disputa pelo novato Michele Alboreto, em sua segunda aparição como piloto da Tyrrell. Era a segunda corrida seguida em que Keke não se classificava nas ruas de Monte-Carlo como piloto da Fittipaldi. Chico ficou só com a 24ª posição e também ficou de fora.

O acordo entre a Avon e a Fittipaldi durou só três corridas: os carros do time brasileiro estavam de volta com os Michelin no GP da Espanha, em Jarama. Naquela altura do campeonato, a equipe sofria mais um rude golpe. Harvey Postlethwaite aceitara uma proposta da Ferrari e se mudou de mala e cuia para Maranello, para tocar o projeto do carro italiano que correria em 1982, sob a supervisão do ingeniere Mauro Forghieri. Era demais para uma equipe que precisava do talento de dr. Harvey como desenhista para seguir em frente – mas que também urgia procurar dinheiro, já que os problemas financeiros eram cada vez mais presentes no seio da Fittipaldi.

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Chico Serra conseguiu apenas uma vez terminar melhor que Keke Rosberg, com o 11º lugar no GP da Espanha

Nos treinos para a corrida espanhola, Rosberg obteve o 15º tempo e Chico Serra o 21º. Foi um evento atípico, o GP da Espanha: pela primeira vez no ano os dois carros do time viram a quadriculada e, fato raro, Serra classificou-se melhor que Rosberg: o brasileiro chegou em 11º, com o finlandês em décimo-segundo, uma volta atrás.

A equipe já não conseguia trabalhar em paz diante dos problemas financeiros e da saída de Postlethwaite, mas mesmo assim Emerson e Wilsinho não desistiram. As novidades do fim de semana foram a Avon entrando como fornecedora de pneus de três equipes – ATS, March e Theodore – e a volta da Goodyear, somente com Williams e Brabham no GP da França, disputado em Dijon-Prenois. Naquela oportunidade, a Fittipaldi ainda tinha os compostos da Michelin e Keke conseguiu a 17ª colocação no grid. Chico fez o último tempo, mas destruiu seu carro num acidente no treino de aquecimento e não largou na corrida. Com problemas de suspensão, Rosberg abandonou na 11ª passagem.

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Rosberg conseguiu largar em Silverstone, mas ficou pelo caminho. A partir do GP da Inglaterra, a Fittipaldi passaria pelos seus momentos mais críticos na temporada de 1981

O GP da Inglaterra, em Silverstone, viu mais uma vez um dos F8C de fora. Chico Serra não conseguiu uma vaga no grid por 0″205, ironicamente superado pelo Theodore do suíço Marc Surer, com os pneus Avon que o time brasileiro usara por três corridas. Rosberg ficou com a 16ª posição do grid e estava em décimo-primeiro quando a suspensão de seu carro teve problemas de novo.

A partir do GP da Alemanha, em Hockenheim, a temporada seria de tormento absoluto para a Fittipaldi e seus pilotos. O F8C já não era competitivo e além da falta de dinheiro, os pneus que a Michelin fornecia eram simplesmente sobras de outras corridas. Os brasileiros não eram os únicos que sofriam com isso: a Arrows também teve esse problema, mas rapidamente rompeu com a fornecedora e assinou com a Pirelli. Até a Avon conseguiu ter como clientes a Ensign e a Tyrrell, enquanto a Lotus fechava com a Goodyear para o resto do ano. A guerra dos pneus também “matava” o desempenho do carro brasileiro. Como efeito, nem Keke e nem Serra se classificariam e depois a equipe ficaria de fora do GP da Áustria numa tentativa desesperada de solucionar seus problemas, que também incluíam os motores pouco potentes que dispunham – também pudera: não tinham dinheiro para pagar um bom preparador e revisar os Cosworth V8 a contento.

Quando os F8C voltaram em Zandvoort, no GP da Holanda, só os pneus mudaram: a equipe assinou com a Pirelli, com quem os Fittipaldi tinham uma fortíssima ligação. O Barão Wilson Fittipaldi, nos tempos da Mil Milhas e das lendárias transmissões da Rádio Panamericana, criou o slogan “Pirelli é mais pneu”, que pegou e foi usado durante décadas. Por mais natural que fosse a escolha, não resultou: Rosberg e Serra não se classificaram para esta corrida e para as seguintes, em Monza e Montreal.

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Rosberg ainda largou no GP dos EUA, em Las Vegas. Foi a última corrida do finlandês pela Fittipaldi

Após cinco corridas sem pelo menos um carro da equipe brasileira no grid, a Fittipaldi lutou e conseguiu, graças a Keke Rosberg, alinhar no GP dos EUA disputado em Las Vegas. O finlandês classifcou-se em 20º e terminou em décimo, duas voltas atrasado. Chico Serra novamente não competiu. Mais um ano melancólico da equipe, que ficou sem pontuar pela primeira vez desde 1975. O único consolo para Emerson foi ver Nelson Piquet, apontado pelo bicampeão como seu sucessor, campeão por um único ponto de vantagem sobre o argentino Carlos Reutemann, da Williams.

A situação da Fittipaldi era tão desesperadora que a equipe precisou liberar Keke Rosberg de seu contrato. O finlandês, que estava assinado com a escuderia para 1982, era bom demais para andar numa equipe de fim de pelotão. Reduzida a um carro, que seria guiado por Chico Serra, a Fittipaldi tentaria a última cartada de sua sobrevivência na Fórmula 1.

O próximo post será o oitavo – e último – a contar a história da equipe na categoria.

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11 comentários

  1. Diego disse:

    Parabéns por esta série, está demais!

  2. Sergio Maimi disse:

    esta mesmo.. nem lembrava desse ano, fora claro o campeonato do Piquet. em cima do Lole.

  3. Herik disse:

    Fiquei com uma dúvida: o efeito solo não foi extinto para a temporada de 83? Bom, quando digo efeito solo me refiro ao conjunto de sidepods como asas invertidas e minisaias.

    • Rodrigo Mattar disse:

      Foi, mas em 1981 as saias foram abolidas. Só que a Brabham fez um sistema de suspensão que fazia o carro abaixar acima de 120 km/h.

      • Sergio Maimi disse:

        Grande Gordon Murray!!! e depois ele fez o mais bonito carro de F1 em todos os tempos, a Brabham de 1983, primeiro branco e depois naquela azul marinho espetacular..

      • Robertom disse:

        Gordon estava frustrado com a solução que tinha encontrado, pois achava que não era a ideal.

  4. Rubergil Jr disse:

    Rodrigo, esta série é demais… Daria um livro facilmente. Parabéns pelos textos.

  5. Ricardo disse:

    Demais essa série, rica em detalhes. Como disse o Flávio Gomes, você precisa escrever um livro com essas histórias, seria sensacional!!

  6. Robertom disse:

    Muito Bom
    Eu era adolescente e vivi esta estória, torcendo, me frustrando com os resultados, acreditando sempre que na próxima temporada ia andar entre os primeiros, me frustrando de novo…
    A sua série conseguiu não só contar a história, também recriou o clima e o espírito daquela época.
    Aguardamos ansiosamente o epílogo, mesmo que seja uma tragédia.

  7. Fabricio disse:

    Material de excelente qualidade, muito bem escrito e resumido.
    Aguardando o fechamento dessa série e a o início da saga de alguma outra equipe, parabéns pelo trabalho.

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