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13 de novembro de 2014 - 17:51Equipes Históricas, Fórmula 1

Equipes históricas – Tyrrell, parte IV

RIO DE JANEIRO – Campeã incontestável e absoluta no Mundial de Pilotos com Jackie Stewart e também entre os Construtores na temporada de 1971, a Tyrrell iniciava o ano de 1972 como franca favorita a mais um par de conquistas. Além do favoritismo e do otimismo, a equipe não tinha motivos para se preocupar: a engrenagem continuava bem azeitada, graças ao trabalho de Derek Gardner nos projetos e engenharia, Ken Tyrrell no comando, Jo Ramirez na chefia dos mecânicos e Stewart compondo uma dupla harmoniosa com François Cevert na condução dos carros do time.

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Campeão de 1971, Stewart iniciou a temporada de 72 com vitória de ponta a ponta no GP da Argentina

A temporada teve início com a volta do GP da Argentina ao calendário, no dia 23 de janeiro. Stewart tinha à disposição a Tyrrell 003 e Cevert ainda corria com o modelo 002. O escocês foi surpreendido nos treinos pela pole position do ídolo local Carlos Reutemann, que fazia sua estreia na Fórmula 1, apoiado por um generoso aporte do governo de seu país. Na corrida, o Escocês Voador não deixou ninguém liderar: só deu ele, da 1ª até a 95ª volta. François Cevert desistiu com problemas de câmbio.

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Competindo em grande parte da temporada com o modelo 002, François Cevert teve um mau início de ano, com poucos bons resultados

Mais de um mês após a corrida inaugural, a categoria chegou a Kyalami para o GP da África do Sul. Stewart fez a pole position, três décimos mais veloz que Clay Regazzoni, com a Ferrari. François Cevert largou em oitavo. E na corrida, Jackie liderou desde a 2ª volta até o câmbio de sua Tyrrell pedir arrego e o Vesgo abandonar a prova, ganha pela McLaren de Denny Hulme com Emerson Fittipaldi em 2º lugar. Cevert abandonou de novo. No campeonato, liderança para o Urso com 15 pontos, contra 9 do escocês e seis do Rato.

No intervalo entre a segunda e terceira corridas, aconteceu o GP do Brasil, disputado extracampeonato em Interlagos. A presença da Tyrrell e de Jackie Stewart chegou a ser anunciada mas não se concretizou. Emerson, o favorito da torcida, não desapontou e liderou praticamente toda aquela corrida, até a suspensão do Lotus 72 entrar em colapso, provocando um cavalo de pau espetacular do piloto, que perdeu a corrida para Carlos Reutemann. Mas eram visíveis os progressos da Lotus, apesar dos problemas recorrentes da fragilidade do carro projetado por Colin Chapman e sua equipe, bem como os pneus Firestone.

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O Escocês Voador fez o que pôde no GP da Espanha: liderou e estava em terceiro quando bateu a bordo da Tyrrell 003

No GP da Espanha, disputado em 1º de maio no circuito de Jarama, Jackie Stewart finalmente percebeu que teria um adversário à altura. E ele atendia pelo nome de Emerson Fittipaldi. Os dois fizeram tempos próximos no grid e o brasileiro foi melhor que o piloto da Tyrrell nos treinos. Na corrida, Stewart começou melhor: pulou para segundo e assumiu a liderança na quinta volta ao sobrepujar Hulme. Mas apenas no 9º giro, Emerson pôs por dentro no fim da reta, ultrapassou Stewart e não mais foi incomodado, chegando à sua primeira vitória na temporada. O Vesgo foi superado também por Jacky Ickx em sua Ferrari 312B2 e vinha em terceiro, quando acidentou-se e desistiu. Cevert ficou fora da prova por problemas de ignição.

Em Mônaco, os treinos foram disputados em pista seca e Emerson conquistou uma importante pole position, com Stewart apenas em oitavo. Cevert classificou-se em 12º num grid de 25 pilotos. E no dia da corrida, choveu. E não choveu pouco: foi um temporal de filme de pirata, pra ninguém botar defeito. Foi uma corrida atípica e dominada inteiramente pelo cunhado de Cevert, Jean-Pierre Beltoise, o antigo companheiro de Stewart na Matra International e à época na BRM. Venceu com 38 segundos de vantagem para o “Rei da Chuva” Jacky Ickx.

Stewart, que nunca escondeu sua aversão a corridas em que os pilotos corressem riscos inúteis, fez o possível para terminar nos pontos: chegou em 4º lugar, mesmo envolvendo-se num acidente com o March do sueco Ronnie Peterson. François Cevert cruzou a linha de chegada em décimo-oitavo, mas não recebeu classificação.

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A imprensa internacional não perdoou a ausência de Stewart no GP da Bélgica e rebatizou sua úlcera estomacal como “Fittipaldi”

Aí aconteceu um fato curioso: uma úlcera estomacal tirou o Vesgo de combate para a disputa do GP da Bélgica, que retornava ao calendário numa nova pista – Nivelles-Baulers – nas proximidades de Bruxelas. A imprensa internacional não perdoou: “A úlcera de Stewart chama-se Fittipaldi”. Jackie, de repouso em sua casa na Suíça, não deve ter gostado muito.

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François recebeu todas as atenções do time com a ausência de “Le Patron”. Resultado: 2º no GP da Bélgica

Muito menos quando viu que Emerson, já líder do campeonato com 19 pontos, fez outra pole position e dominou a corrida belga a seu bel-prazer, liderando 77 das 85 voltas da disputa. Cevert, que recebeu toda a atenção da equipe Tyrrell, retribuiu com uma excelente atuação, terminando em 2º lugar com o bom e velho modelo 002, após largar de quinto. Foram os primeiros pontos do francês no ano e a equipe alcançava a Ferrari na luta pelo 3º posto no Mundial de Construtores.

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Um terceiro carro disputou o GP da França em Clermont-Ferrand com o novato Patrick Depailler, oriundo da F-2

Em Clermont-Ferrand, no GP da França, por influência da Elf a equipe apresentava um terceiro carro: o escolhido para guiá-lo foi Patrick Depailler, então com 27 anos e que vinha de boas atuações na Fórmula 2. Nos treinos, que tiveram a Matra-Simca de Chris Amon na pole, Jackie Stewart experimentou o novo modelo 005, mas acabou batendo e danificando o carro. Mesmo assim, fez o 3º tempo e se garantiu na segunda fila, com o 003. Cevert fez o sétimo tempo a bordo do 002 e o novato Depailler não fez feio: 16º lugar com o chassis 004.

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Stewart não estava morto e venceu o GP da França com grande autoridade

Amon liderou com autoridade as primeiras 19 voltas, mas foi traído pelo seu proverbial azar: um furo de pneu o mandou para os boxes, tirando uma vitória líquida e certa das mãos do neozelandês. Stewart provou que não estava morto. Venceu sua segunda prova em 1972 e reduziu para 13 pontos a diferença que o separava de Emerson Fittipaldi, que não conhecia a pista e ainda chegou em segundo. Cevert foi o 4º colocado após boa corrida. Depailler completou 33 voltas, mas não recebeu classificação.

A corrida que praticamente decidiu os rumos do Mundial de F-1 daquele ano foi o GP da Inglaterra, disputado num domingo ensolarado em Brands Hatch. O público que acorreu em grande número ao tradicional circuito de Kent assistiu a uma histórica batalha pela liderança. Ickx largou na pole, com Emerson em segundo e Stewart em quarto. O belga comandou a disputa da primeira até a 48ª volta, mas nesse intervalo o brasileiro da Lotus e o Escocês Voador trocaram várias vezes de posição.

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Stewart nada pôde fazer contra um Fittipaldi irresistível em Brands Hatch e resignou-se a ser 2º no GP da Inglaterra

Quando a Ferrari do belga apresentou problemas e ele abandonou a disputa, Emerson assumiu a liderança e Stewart seguiu numa pressão avassaladora sobre o adversário. Fittipaldi, contudo, não se abalou: recebeu a bandeirada com pouco mais de quatro segundos sobre o piloto da Tyrrell. Uma batalha estava ganha e o Rato tinha 16 pontos (43 a 27) de avanço sobre o Vesgo.

No GP da Alemanha, Emerson teve problemas com o câmbio de seu carro e a Lotus 72 pegou fogo, obrigando-o a desistir. Sorte do brasileiro que Jackie Stewart, que brigava pelo 2º posto com Clay Regazzoni, acabou jogado para fora da pista de Nürburgring pelo ítalo-suíço. Jacky Ickx venceu, dando enfim uma alegria à Ferrari em 1972. Nos boxes, Emerson tentou contemporizar. “Sinto muito pelo seu acidente com Clay”, disse a Stewart. “Espero que sim”, retrucou um compreensivelmente mal-humorado Jackie.

Outro capítulo épico da batalha Stewart x Fittipaldi veio na 9ª etapa do Mundial, o GP da Áustria, em Zeltweg. A Tyrrell decidiu inscrever o modelo 005 para o escocês, deixando Cevert com o cada vez mais defasado 002, cabendo-lhe apenas o 20º tempo. O francês não podia reclamar – e nem deveria. Afinal, era o segundo piloto e a escuderia inglesa queria devolver a Stewart o status de campeão do mundo. A diferença de 16 pontos era considerável e tanto Ken quanto Jackie jogavam com todas as suas forças para reverter o quadro.

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No limite: Emerson e Stewart travaram uma disputa épica durante o GP da Áustria e o brasileiro levou a melhor sobre o Vesgo

Emerson era o pole position no grid e Stewart o terceiro, mas quando a bandeira austríaca foi baixada, as posições se inverteram: Jackie fez uma largada sensacional e o Rato foi também ultrapassado por Clay Regazzoni, na sempre veloz Ferrari com motor de 12 cilindros opostos. Com um carro melhor e mais bem acertado, o brasileiro não tardou a superar Rega e partiu para cima de Stewart. Foram 20 voltas de luta cruenta e espetacular entre dois grandes nomes do automobilismo em 1972, talvez a melhor disputa do ano inteiro.

Stewart resistiu o quanto pôde, mas Fittipaldi, mesmo fugindo ao seu estilo, travando rodas numa freada, superou o adversário, abriu vantagem e venceu com apenas um segundo de frente para Denny Hulme. Com problemas de pneus, já que a equipe ainda não tinha como saber o desgaste dos compostos pelo fato do 005 ser um carro novo, o Escocês Voador chegou em 7º – péssimo resultado, posto que, com a vitória, a diferença entre os dois subia para 25 pontos.

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Stewart precisava da vitória no GP da Itália para adiar ou impedir o título de Emerson: não conseguiu

O GP da Itália seria tudo ou nada para a Tyrrell e Stewart. De novo o escocês vinha a bordo do 005 e Cevert seguia no velho 002, sem poder fazer nada além do que o 14º lugar no grid, enquanto Jackie era o terceiro, atrás do pole Jacky Ickx e de Chris Amon. A situação de Emerson Fittipaldi não era das mais felizes: o caminhão-transporte da Lotus capotara a caminho de Monza e seu carro titular foi inteiramente destruído. Para a sorte do Rato, a Lotus mantinha na fronteira da Itália com a França um caminhão com equipamentos extras (Chapman se prevenira de problemas com a justiça em razão da morte de Jochen Rindt em 1970) e nele havia um chassi reserva. Com ele, Emerson fez o sexto tempo nos treinos cronometrados.

A corrida de Stewart, no entanto, seria “nada”: após o baixar da bandeira italiana, o Tyrrell 005 arrancou de sua posição e foi perdendo velocidade. A embreagem queimara. O Vesgo teve que voltar aos boxes a pé, lamentando sua falta de sorte e tendo que torcer por um problema de Fittipaldi para se manter na briga pelo título.

Só que não: quem falhou foi a Ferrari de Jacky Ickx. E Fittipaldi, com uma condução segura e impecável, mesmo com o carro-reserva, venceu o GP da Itália e levou merecidamente o título mundial com antecedência de duas provas. Campeã de Construtores em 1970, a Lotus também recuperava o título perdido para a Tyrrell em 1971.

O jeito para Ken, Jackie, Cevert e cia. limitada era terminar o ano com o máximo possível de dignidade. De preferência, levando os carros azuis a vitórias que elevassem a Tyrrell ao 2º lugar no Mundial de Construtores, superando a McLaren. No GP do Canadá, em Mosport Park, Stewart e Cevert largaram juntos da terceira fila e o escocês deu um show: liderou desde a quarta volta, fez a volta mais rápida da prova e venceu com sobras, quase 50 segundos à frente de Peter Revson. Emerson chegou num apagado 11º lugar.

Para chegar ao vice no Mundial de Construtores, a Tyrrell precisava da vitória e Jackie, já um ponto à frente de Hulme no Mundial de Pilotos, fez a pole position na última etapa do campeonato, o GP dos EUA, em Watkins Glen. Naquela ocasião, Cevert estreou o carro de 1973, o modelo 006, dentro do regulamento que a Fórmula 1 adotaria para o ano seguinte. E Patrick Depailler regressava a bordo do chassi 004.

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Sorrisos: Vesgo, Tio Ken e Cevert comemoram a vitória com dobradinha no GP dos EUA, em Watkins Glen

A corrida foi inteiramente dominada por Stewart, que assegurou o vice de pilotos para si e o de Construtores para a Tyrrell. François Cevert conquistou enfim uma dobradinha com “Le Patron” em 1972 e Depailler quase fez um ponto em sua segunda corrida de Fórmula 1: chegou em 7º lugar.

Apesar da “úlcera Fittipaldi”, o saldo para Stewart e Tyrrell foi positivo. Todos sabiam que a equipe ainda era forte e que em 1973 poderia vir o troco. Isso, todavia, é assunto para o próximo post da série.

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5 comentários

  1. Renan Farias disse:

    Só uma curiosidade,esse GP da Grã Bretanha foi uma das primeiras corridas que foi transmitida a cores para todo o mundo.

  2. Wallace Michel disse:

    Engraçado perceber que mesmo correndo o tempo todo com equipamentos defasados o François Cevert ainda conseguia ter bons resultados. Caso não tivesse morrido seria um dos fortes candidatos aos títulos disputados no restante da década de 1970 após a aposentadoria do Stewart.

  3. malachias nonato disse:

    Uma viagem no tempo. Como consegue descrever estas corridas depois de tantos anos? Parabéns

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