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23 de fevereiro de 2015 - 17:40Equipes Históricas, Fórmula 1

Equipes Históricas – Tyrrell, parte XIII

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Sem dinheiro, mesmo assim Ken Tyrrell não deixou de investir em talento: Eddie Cheever foi sua aposta para 1981

RIO DE JANEIRO – Sem dinheiro mais uma vez, Ken Tyrrell viu sua equipe novamente no desvio. Com o crescimento de algumas equipes, principalmente a Williams, além da redenção da Brabham, o velho madeireiro tinha ficado definitivamente para trás. Era hora de ser, no mínimo, criativo e ousado, num ano de transição.

Como primeira medida, além de manter o modelo 010, pelo menos no início do campeonato, foi promovido a primeiro piloto o jovem (22 anos) estadunidense Eddie Cheever, que fizera sua estreia na Fórmula 1 pela Osella e mostrara muito potencial na Fórmula 2. O segundo carro seria coberto por pilotos que trouxessem alguns cobres. E para a primeira corrida do ano, o GP da África do Sul, Ken Tyrrell surpreendeu: entregou o cockpit do carro #4 para uma mulher.

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No GP da África do Sul, que acabou por não valer pontos para o campeonato, Ken Tyrrell deu um carro para a sul-africana Desiré Wilson

A sul-africana Desiré Wilson, então com 27 anos, fechou contrato para a corrida daquela que se pretendia ser a abertura do campeonato. Mas a guerra surda entre FISA e FOCA, que só estava restrita aos bastidores desde o cancelamento do GP da Espanha de 1980, explodiu com tudo na mídia ao fim daquele campeonato vencido pelo australiano Alan Jones. De um lado, Jean-Marie Balestre com o bloco dos “legalistas” e do outro, Bernie Ecclestone, o poderoso presidente da Associação dos Construtores e dono da Brabham, empunhando a bandeira dos “garagistas”: ou seja, todas as equipes inglesas, mais a alemã ATS.

Balestre pretendia uma outra Fórmula 1 para 1981, com o fim do efeito-solo que, segundo os especialistas, trazia benefícios absurdos de aderência aos carros, especialmente nas curvas, onde podiam desenvolver velocidades estonteantes. Com a abolição das minissaias, pretendia-se uma categoria mais competitiva, em que o talento do piloto prevalecesse em relação ao trabalho dos projetistas. Ecclestone queria tudo do jeito que estava e, peitando a FIA e a FISA, fez no grito o GP da África do Sul em 7 de fevereiro de 1981.

Todos os carros presentes (19 ao todo) tinham motor Ford Cosworth V8 e, pela primeira vez, estavam equipados com pneus Avon, porque não havia compostos suficientes da Goodyear – que dava sinais de afastamento da categoria. A pole foi de Nelson Piquet, mesmo tendo dormido apenas três horas de sono antes da sessão de classificação. Eddie Cheever obteve o 12º lugar no grid e Desiré Wilson classificou-se em décimo-sexto.

Na corrida, a sul-africana teve um desempenho acima do esperado. Chegou a ocupar a 6ª colocação numa disputa que começou com pista molhada e depois secou pela ação do calor. Mas o câmbio quebrado a afastou da disputa. Cheever foi bem na estreia e chegou em sétimo. A performance de Desiré Wilson impressionou Ken Tyrrell, que lhe ofereceu um lugar cativo para 1981. Desde que a piloto aparecesse com patrocínios.

Só que a situação política cada vez mais instável no país de Desiré e a falta de fundos fizeram com que os planos dela em se tornar a segunda mulher desde Lella Lombardi a ser titular numa equipe da categoria fossem para o espaço. Pelo menos ela inscreveu seu nome na história do esporte ao vencer, no ano anterior, uma prova da Aurora AFX Series, com uma Williams.

Como efeito da guerra política Ecclestone x Balestre, o GP da África do Sul foi cancelado e Bernie perdeu a queda de braço. Os carros foram proibidos de ter as chamadas minissaias e uma nova data de abertura para o Mundial de 1981 foi definida: 15 de março, com a disputa do GP dos EUA-Oeste, em Long Beach, na Califórnia – em que todos os carros presentes usariam pneus Michelin. A Goodyear cumpriu a ameaça e abandonou a categoria.

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Mesmo com o patrocínio da cerveja Michelob e do Café Figaro, o estadunidense Kevin Cogan falhou a qualificação do GP dos EUA-Oeste em Long Beach

Com Cheever mantido, Ken Tyrrell lançou mão de um piloto com recursos financeiros para custear as despesas iniciais de viagens fora da Europa. Lá nos EUA mesmo, assinou com Kevin Cogan, piloto local de 24 anos que tentara – sem sorte alguma – se classificar nas provas finais de 1980. E o desfecho foi o mesmo: por 0″071, Kevin foi eliminado do grid do primeiro GP do ano, perdendo o último lugar do grid para o novato Beppe Gabbiani, da Osella. Cheever impressionou o chefe e classificou-se em oitavo. E manteve o bom desempenho durante as 80 voltas da disputa, chegando na 5ª posição. Nada mal para uma equipe que não tinha grana nenhuma…

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O sofrível argentino Ricardo Zunino pagou para correr pela Tyrrell no Brasil e em seu país. Fracassou e nunca mais competiu na Fórmula 1

Para o GP do Brasil, o argentino Ricardo Zunino apareceu com um punhado de dólares que o garantiram em, pelo menos, duas corridas. De sofríveis performances a bordo da Brabham BT49 em 1980, Ricardo assumiu o cockpit do carro #4 e manteve o baixíssimo nível de suas apresentações. Pelo menos em Jacarepaguá, numa pista encharcada pela chuva insistente daquele 29 de março de 1981, não andou em último. E foi melhor até que Eddie Cheever, que teve muitos problemas e abandonou. Zunino completou a disputa em 13º lugar, cinco voltas atrasado – três atrás do 12º, que foi ninguém menos que Nelson Piquet.

Em Buenos Aires, novo martírio nos treinos, com Zunino largando de novo em último, onze posições atrás de Eddie Cheever. Enquanto o estadunidense quebrou na primeira volta, o piloto local queimou a largada e chegou a andar em 12º no início. Zunino acabou em 11º na quadriculada, mas por conta da infração foi punido com a perda de uma volta e foi rebaixado ao 13º posto. Tamanha incompetência foi o bastante para Ken Tyrrell esquecê-lo para o resto do campeonato. Também o piloto argentino nunca mais correria na Fórmula 1.

Aí o velho Ken descobriu na Fórmula 2 um novo talento: Michele Alboreto.

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A primeira chance de Michele Alboreto foi no GP de San Marino, em Imola. O novato italiano conseguiu um bom 17º tempo no grid em sua corrida de estreia na F1

Defendendo a Minardi na categoria de acesso, com o modelo Fly Minardi M281 com motor BMW, Alboreto, então com 24 anos, era tido como a principal esperança italiana para o futuro. Com o dinheiro de uma cerâmica de Imola, ele garantiu seu lugar na equipe britânica enquanto prosseguia com a temporada de F2. A estreia seria numa nova corrida – o GP de San Marino, justamente no circuito de Imola, na Itália.

Alboreto não desapontou nos treinos, muito pelo contrário: o estreante conseguiu o 17º tempo, meio segundo mais rápido que Eddie Cheever. Na corrida, com pista molhada, ambos bateram e saíram da disputa. Mesmo com os percalços, “Tio” Ken ficou contente. Já tinha a dupla formada para o restante do campeonato de 1981 e algum dinheiro em caixa.

No exigente circuito de Zolder, Cheever – ainda com o velho 010 – impressionou de novo e foi o oitavo mais rápido do grid, com Alboreto ocupando o 19º posto. Após uma largada confusa e o acidente das duas Arrows em que o mecânico-chefe David Luckett foi atropelado pelo carro de Siegfried Stohr, Cheever fez uma corrida muito competitiva e chegou em 6º lugar, somando mais um pontinho no campeonato. Alboreto andou sempre no fim do pelotão, mas pelo menos recebeu a quadriculada, com o 12º lugar, duas voltas atrasado.

Somando pontos: Cheever foi 5º na Bélgica e 6º em Mônaco, nas ruas de Monte-Carlo

Em Monte-Carlo, o novato italiano conseguiu a façanha de se qualificar para o GP de Mônaco. E surpreendeu mais ainda ao alcançar inclusive a sexta posição na altura da 47ª volta. Após ser superado por Didier Pironi, colidiu com a Alfa Romeo de Bruno Giacomelli, o que motivou o abandono de ambos os pilotos. Cheever, que largou em 15º, caiu para penúltimo na altura da volta 35. Beneficiado pelos abandonos e por um bom ritmo de corrida, o estadunidense chegou em 5º, igualando o resultado da estreia e provando que ele era um bom piloto em circuitos de rua.

Abre-se um parêntese: em paralelo com a Fórmula 1, registre-se que Cheever também disputava o World Sportscar Championship, o Mundial de Resistência, como piloto oficial da equipe Lancia Martini, inclusive com o 8º lugar nas 24 Horas de Le Mans de 1981. Alboreto, que correu também em Sarthe ao lado do colega de Tyrrell, foi um pouco mais feliz: em 12 de julho, ele e Riccardo Patrese faturaram as 6 Horas de Watkins Glen, nos EUA. Fecha-se o parêntese.

No GP da Espanha, Alboreto foi vencido pela inexperiência e por uma diferença de apenas 0″121, ficou fora da corrida disputada em Jarama, superado pelo chileno Eliseo Salazar, que estreava como piloto da Ensign. Eddie Cheever conseguiu o 20º tempo, mas teve uma prova cheia de percalços e só terminou nove voltas atrás do vencedor Gilles Villeneuve, sem classificação. Em Dijon-Prenois, a equipe começou a sofrer com a desatenção total da Michelin, que entregou não só à Tyrrell como a várias outras equipes do paddock sobras de pneus já usados ao longo do campeonato de 1981. É lógico que nem Cheever e nem Alboreto fizeram grande coisa no GP da França: os dois terminaram respectivamente em 13º e 16º lugar.

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White light, white heat: a Tyrrell disputou a segunda metade do campeonato de 1981 com seus carros pintados de branco

Como novidade, no GP da Inglaterra em Silverstone os dois carros da Tyrrell apareceram inteiramente pintados de… branco. Era uma tradição que já fora mais ou menos quebrada nos anos de 1977/78, quando o matiz azul deixou de prevalecer pela primeira vez na programação visual do time do velho Ken. Foi a última corrida em que os dois 010, que já davam sinais de cansaço, usaram os pneus Michelin.

Apesar das dificuldades, foi a corrida em que Eddie Cheever alcançou o melhor resultado da equipe no ano: 4º colocado, após largar de penúltimo, a cinco segundos da pole position, numa disputa que teve muitas quebras ao longo das 68 voltas previstas. Alboreto nem correu: a embreagem de seu carro quebrou logo após a largada.

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O modelo 011 estreou no GP da Alemanha apenas com Eddie Cheever, terminando num excelente 5º lugar

No GP da Alemanha, em Hockenheim, estreou finalmente o novo Tyrrell 011, com design de Brian Lisles e supervisão técnica de Maurice Philippe. O velho 010 ficou com Alboreto, que logicamente não se classificou. Mesmo com os pouquíssimo competitivos pneus Avon em seu novo carro, Cheever foi brilhante e chegou em 5º lugar, somando pontos pela quinta vez no ano.

Por interferência do tricampeão Jackie Stewart, a Goodyear – que voltara à Fórmula 1 no GP da França apenas com Williams, Brabham e Lotus – também passou a ter a Tyrrell como cliente a partir da prova da Áustria. Ironicamente, não deu em nada: Cheever conseguiu a façanha de não se classificar e Alboreto, mesmo no velho carro e ainda com pneus Avon, partiu de 22º até abandonar com o motor quebrado na 40ª volta.

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Sem ter direito aos pneus Goodyear, Alboreto se segurou com os Avon até o fim do campeonato e conseguiu chegar em 9º no GP da Holanda, em Zandvoort

Em Zandvoort, Alboreto recebeu o novo chassi do modelo 011, mas por falta de pneus disponíveis a Goodyear ainda só fornecia para o carro de Eddie Cheever. Nos treinos, os dois foram separados por apenas três décimos de segundo e Alboreto só competiu porque Andrea De Cesaris, sempre ele, deu uma porrada monumental com seu McLaren e não pôde alinhar para o GP da Holanda. Enquanto Eddie abandonou por acidente, Alboreto completou a disputa em 9º, mesmo com o motor quebrado na última volta da corrida.

No GP da Itália, novamente os dois pilotos largaram do meio para o fim do pelotão. Uma chuva fina caiu no circuito de Monza e pôs fim à corrida de Cheever, que atolou numa curva, na 11ª volta. Alboreto não deu sorte: vinha em último, três voltas atrasado, lutando para levar seu carro ao final, quando John Watson bateu na segunda perna de Lesmo e partiu seu carro ao meio. A pancada foi tão forte que o motor da McLaren do norte-irlandês atingiu em cheio a Tyrrell do italiano. É claro que Alboreto desistiu da corrida.

Em Montreal, numa corrida totalmente prejudicada pela chuva inclemente, Alboreto fez sua parte e mesmo saindo entre os últimos, chegou ao final em 11º, quatro voltas atrás de Jacques Laffite. Eddie Cheever não teve sorte e abandonou perto da quadriculada, com problemas de motor. E na última etapa do ano, no inócuo circuito montado no estacionamento do hotel e cassino Caesars Palace, em Las Vegas, os dois desistiram com problemas de motor.

Terminada a temporada, com a Tyrrell empatada em 8º lugar no Mundial de Construtores com os mesmos 10 pontos de Arrows e Alfa Romeo, o velho Ken perdia Eddie Cheever, seduzido por uma proposta da Talbot-Ligier. O jeito era apostar todas as fichas no talento emergente do jovem Alboreto para a temporada de 1982, que veremos na próxima postagem.

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3 comentários

  1. Wallace Michel disse:

    Impressionante como essa potência perdeu o brilho em menos de 4 anos. O Ken era fraco na hora de negociar os patrocínios? Como conseguiu perder um patrocinador para uma equipe novata? Muito estranho.

    • Rodrigo Mattar disse:

      Quem fazia o meio-campo era o filho dele, Bobby Tyrrell, mas o velho era meio inflexível. No caso da Candy cair fora em direção a Toleman, o contrato era de dois anos e a Candy optou por não renová-lo, já que a verba ia diminuir para 1981 e a Toleman a priori demandaria menos grana do que a Tyrrell, que era um time de médio porte na época.

  2. Fabio disse:

    Que ótima matéria amigo, e que ótimo blog, grande abraço.

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