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23 de junho de 2015 - 15:58Equipes Históricas, Fórmula 1

Equipes históricas: Tyrrell, parte XXIII

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O Tyrrell 020 foi o primeiro projeto de George Ryton após a saída de Jean-Claude Migeot para a Ferrari

RIO DE JANEIRO – Sem Jean Alesi, que se transferiu para a Ferrari, a Tyrrell tinha novidades para a temporada de 1991, a 21ª do time britânico com o nome de seu fundador. E eram muitas as boas novas: começando pelo contrato com a Honda para o fornecimento dos motores V10 que eram da McLaren até 1990, passando pela chegada do italiano Stefano Modena, ex-Brabham e Eurobrun. Até a programação visual foi modificada: o novo carro seria branco e preto, cortesia do novo patrocinador, os eletrodomésticos Braun.

Seguindo a tendência implantada pela própria equipe no ano anterior, graças à inventividade de Dr. Harvey Postlethwaite, o novo modelo 020 tinha bico alto e o prolongamento da seção frontal ia até o meio da seção dianteira, para proporcionar um maior arrasto e melhorar a pressão aerodinâmica. Com a transferência do designer francês Jean-Claude Migeot para a Ferrari, o engenheiro George Ryton foi o responsável pela execução do projeto sob a diligente supervisão de Postlethwaite. Uma nova seção traseira foi concebida para acomodar um motor mais pesado e de dimensões maiores que o Cosworth e os pneus Pirelli, um dos trunfos da temporada anterior, foram mantidos. A esperança da Tyrrell era se manter como a quinta força da categoria – mas contra ela haveria uma estreante com pinta de promessa: a Jordan, mesmo dispondo de motores Ford HB V8, tinha um carro interessante projetado por Gary Anderson.

Após uma pré-temporada de bons resultados, os 020 estrearam oficialmente nas ruas de Phoenix, nos EUA. E o desempenho foi bom: quarto lugar na estreia de Modena na equipe e quinto posto para Nakajima. A Tyrrell foi a única equipe a pontuar com dois pilotos na abertura do Mundial de 1991. No GP do Brasil, Modena fez o 9º tempo do grid, mas sua corrida acabou com a quebra da caixa de câmbio. Nakajima abandonou na 12ª volta em razão de uma rodada.

Na chuvarada de Imola, no GP de San Marino, Modena quase coadjuvou – de forma merecida – um pódio que seria 100% composto por motores Honda, pois Ayrton Senna e Gerhard Berger, com as McLaren MP4/6 dotadas da versão V12 do construtor japonês, estavam disparados na frente. O italiano era 3º colocado com folga, mas a transmissão de seu carro falhou na 41ª volta. O mesmo problema já tinha vitimado Nakajima muito antes.

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A melhor performance do carro foi em Mônaco: Modena largou em 2º no grid, mas o motor quebrou na 42ª volta

Em Mônaco, os pneus Pirelli renderam muito bem numa pista sem tanta aderência e Modena fez uma volta excepcional de qualificação para os padrões da Tyrrell, recolocando a equipe numa primeira fila de grid desde que Jody Scheckter largara da 2ª posição no GP dos EUA-Leste em Watkins Glen, no distantíssimo ano de… 1976! O italiano foi muito bem na largada e seguiu atrás de Ayrton Senna até a 42ª volta, quando o motor de seu carro se entregou e ele foi obrigado a abandonar. Nakajima conquistou um bem razoável 11º lugar no grid, mas rodou e também ficou fora da zona de pontuação.

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Nelson Piquet sorri sem parar no pódio do GP do Canadá, última vitória de sua carreira; Modena, a seu lado, mal poderia acreditar que o 2º lugar marcaria seu último pódio na F1 também…

No Canadá, Modena começou com o 9º lugar no grid e Nakajima em 12º. O forte calor no dia da corrida (cerca de 44ºC) fez várias vítimas e os 020 com motor Honda V10 resistiram bem, embora o japonês tenha se atrasado e perdido três voltas. Mas Modena seguiu firme e estava em 3º, para conquistar o primeiro pódio do ano, atrás de Nigel Mansell, líder isolado, e do brasileiro Nelson Piquet, cuja Benetton também tinha pneus Pirelli a exemplo da Tyrrell do italiano. Aí Mansell, como todo mundo sabe, fez uma gracinha sem precedentes, sua Williams morreu, a liderança e a vitória caíram no colo de Piquet e o 2º posto foi de presente para Modena – o melhor resultado da carreira do piloto até então e a volta da equipe ao pódio desde o GP de Mônaco no ano anterior.

A corrida seguinte, no México, foi um ponto fora da curva da equipe na primeira metade da temporada. Embora o desempenho em qualificação tenha sido bom, os dois carros não foram bem na corrida. Modena chegou a andar em quinto, mas teve problemas na 21ª volta e despencou para último. Nakajima também ficou para trás quando vinha em 12º e os dois pilotos terminaram entre os últimos a receber a quadriculada, duas e três voltas – respectivamente – atrás do vencedor Riccardo Patrese.

Com o 5º lugar no Mundial de Construtores, a Tyrrell já se sentia ameaçada pela evolução da estreante Jordan, que marcara oito pontos até o GP do México e faria mais um na prova da França, reinaugurando o circuito de Magny-Cours. Numa pista inócua, substituta de Paul Ricard, nem a potência do motor Honda V10 ajudou muito. Modena classificou-se em 11º no grid, mas desistiu com problemas na caixa de câmbio. Nakajima, vindo de 18º no pelotão de largada, saiu da pista pela terceira vez no ano em razão de uma rodada.

Em casa, no GP da Inglaterra, a equipe viu que a segunda metade do ano seria bem mais difícil que a primeira. Mesmo com um bom motor, faltava potência e o chassi do 020 não estava à altura do desempenho do modelo anterior, que quase sempre andava bem mesmo com o motor Ford Cosworth V8. Para piorar, a Williams tinha começado a atingir bons desempenhos com seu FW14 de suspensão ativa e o abismo para os times médios e pequenos aumentava a cada corrida. Modena e Nakajima terminaram aquela corrida em 7º e 8º lugares, respectivamente. Em Hockenheim, palco do GP da Alemanha, o japonês conseguiu, numa rara oportunidade, superar o companheiro de equipe em ritmo de classificação. Mas sua corrida acabou em razão de mais uma quebra de câmbio. Modena se arrastou para chegar em 13º lugar.

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A saída de Harvey Postlethwaite para a Sauber foi um duro golpe nas pretensões da Tyrrell

Na Hungria, havia a esperança de que as características da pista ajudassem a Tyrrell e seus pilotos, mas não foi isto que se viu: embora Modena tenha se qualificado com um bom 8º tempo, na corrida ele caiu para 12º na quadriculada. Nakajima foi apenas o décimo-quinto colocado. Não havia mais nada que os pilotos e a equipe pudessem fazer e – pior – após as provas da Inglaterra e Alemanha a Jordan já passara a Tyrrell, se estabelecendo de forma surpreendente como a quinta força da Fórmula 1 na temporada de 1991. Some-se a isso a desastrosa novidade no campo técnico: Harvey Postlethwaite pediu o boné e foi ajudar Peter Sauber na concepção do primeiro carro do time helvético, coligado à Mercedes-Benz, que tinha planos de estrear na categoria nos anos seguintes.

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A temporada de 1991 foi a última de Satoru Nakajima na Fórmula 1

O empolgante GP da Bélgica, talvez a melhor corrida de todo ano, foi mais um em que os dois 020 ficaram fora de qualquer possibilidade de pontos: Nakajima abandonou cedo, logo na sétima volta. Modena andou bem, esteve em sexto no início e quando conseguiu regressar à zona de pontuação, um vazamento de óleo acabou com sua corrida a onze voltas da quadriculada. Quando quebrou, estava atrás de Gerhard Berger, que ainda chegou em segundo… Na Itália, o motor quebrado no carro de Modena e o acelerador travado no de Nakajima marcaram mais uma corrida sem brilho da escuderia britânica.

Em Portugal, nada de novo: só Nakajima, que anunciara que aquela era sua última temporada na Fórmula 1, chegou em 13º lugar. E Modena, também de saída da Tyrrell para 1992, pois assinara com a promissora Jordan, abandonou na 56ª volta com a quebra do motor de seu 020. Na estreia do circuito de Barcelona como sede do GP da Espanha, os dois não fizeram nada de positivo e terminaram nas últimas posições entre os 17 que terminaram.

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Stefano Modena despediu-se da Tyrrell com o 10º lugar no aquático GP da Austrália

Com o anúncio da retirada de Nakajima das pistas, ficou claro que a equipe não teria os motores Honda para o ano seguinte. Mas era questão de honra marcar alguns pontinhos em Suzuka, pista do construtor nipônico. E Modena, após um longo jejum, finalmente conseguiu, chegando em 6º lugar. A última prova de “Naka San” diante de seus torcedores acabou na 30ª volta, vítima de um problema de suspensão. E no aquático – e curtíssimo – GP da Austrália, que teve apenas 14 voltas e menos de 25 minutos, Modena chegou em décimo e Nakajima bateu no início, terminando sua carreira bem ao seu estilo.

Sexta colocada no Mundial de Construtores, batida por um time estreante, sem motores, sem pilotos e outra vez sem dinheiro, a Tyrrell se encontrava no desvio para a temporada 1992. O que aconteceria naquela temporada? Esperem e verão o próximo post da série…

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6 comentários

  1. Alan disse:

    Grande Rodrigo!

    Obrigado por mais um capítulo da bela história da Tyrrell. Lembro do GP de Mônaco e eu torcendo para o Modena conseguir terminar a corrida, mas não deu. Esta foi a última Tyrrell “bonita”, infelizmente a partir de 93 até 98 foi queda livre para esta que foi uma das últimas equipes garagistas da história da F1, resistindo um pouco mais a Arrows e a teimosa Williams.

    ABRAÇO!

  2. Robertom disse:

    Foi o “começo do fim” para a equipe…

    Off topic : Sugiro que volte a disponibilizar o “programa da Nascar” no Blog.

    • Rodrigo Mattar disse:

      Sugestão negada. A Nascar regula o conteúdo de internet. Por isso os pgms que o Lucas Scherer gentilmente disponibilizava no YouTube foram suspensos.

  3. Wallace Michel disse:

    Incrível como quando tinha tudo para voltar a figurar como um dos times de ponta da F1 a Tyrrell colocou tudo a perder em apenas uma temporada.

  4. Me delicio a cada novo texto nesta seção. Uma pena que demore tanto tempo para que novos posts surjam.
    De qualquer forma, um grande abraço e obrigado pelas boas lembranças de um tempo em que a F1 dava muito prazer em assistir.

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