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14 de outubro de 2015 - 12:42Música, Televisão

Miele, um camarada que soube viver

Miele

RIO DE JANEIRO – “Conheci” Miele através da televisão. Escrevo conheci entre aspas, porque nunca tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente. Com o passar do tempo, eu e muita gente da minha geração descobriu muito mais coisas sobre aquele sujeito barbudo, de humor refinado, um gentleman com todo mundo, que as pessoas tanto gostavam e admiravam.

Luiz Carlos d’Ugo Miele deixou São Paulo com uma mão na frente e outra atrás para se aventurar no Rio de Janeiro, trabalhando na TV Continental – onde hoje funciona uma concessionária Volkswagen, em Laranjeiras, na Zona Sul. Foi nesse tempo de TV Continental, emissora de parcos recursos, onde as lâmpadas explodiam ao vivo, que ele conheceu Ronaldo Bôscoli. Juntos, os dois fariam história. E teriam muitas outras para contar.

Da “Noite do Amor, do Sorriso e da Flor”, que marcou o pontapé inicial da Bossa Nova como movimento de proa da MPB até a morte do Ronga em 1994, foram mais de três décadas de ligação quase umbilical entre eles. Miele & Bôscoli eram quase uma coisa só e assim foi, no tempo do Beco das Garrafas, dos shows de Wilson Simonal, do Gemini V e Elis Regina, dos especiais na Excelsior, Record e Globo e, principalmente, a alavancada na carreira de Roberto Carlos, imprimindo aos espetáculos do Rei um quê de Broadway.

Talentoso, criativo, inventivo e divertido, Miele era o autêntico showman. Se tivesse acesso a uns uísques, com certeza ficava mais engraçado ainda. Fez shows de sucesso com Tuca e a inesquecível Sandra Bréa. Trabalhou em humorísticos como “Satiricom” e “Planeta dos Homens”. Sentou no banco da “Praça da Alegria”. E virou ídolo instantâneo de toda uma geração quando comandou o lendário “Cocktail”, no SBT.

Quem há de esquecer o desfile de peitinhos que povoava nossas telinhas?

Miele foi um homem avant la lettre, além do seu tempo. Nunca achei que fosse morrer da forma que se despediu da vida, aos 77 anos, em casa, vítima de um mal súbito. Imaginei que seria após um porre monumental, depois de um papo informal entre amigos num bar, varando a madrugada.

Iguais a ele, existem e existiram poucos na música e na cultura do país. Não à toa, João Marcello Bôscoli, filho mais velho de Elis Regina (com Ronaldo Bôscoli) disse – com toda razão – que Miele era uma esquina de fatos e pessoas.

“Em algum momento, alguém passaria por ele”.

Sorte de quem passou. Eu não tive essa sorte. Mas aqui reverencio Luiz Carlos Miele, um camarada que soube viver.

Ah, Barba… quando você encontrar com o Veneno aí em cima, tome uns tragos pela gente.

O céu vai ficar bem mais divertido. “Tutti-Frutti! Tutti-Frutti!”

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6 comentários

  1. Zé Maria disse:

    Belo texto (mais um!) em homenagem a um dos poucos grandes nomes do mundo do entretenimento!

  2. pedro araujo disse:

    Uma das histórias mais legais do Miele é da época do início da bossa nova, o Miele frequentava um bar (nem sei se era no tal beco das garrafas, mas não importa), mas levava o próprio uísque, pra economizar.

    O gelo quem fornecia era o garçom, mas era aquele blocão, tinha que quebrar com um martelinho. Mas fazia um barulho dos diabos.

    Solução? O Miele era amigo do baterista (algum desses fodões, tipo o Dom Um Romão, acho que era um dos combos famosos da bossa nova), e combinou com o cabra que toda vez que ele precisasse quebrar o gelo, o baterista fazia uma virada mais barulhenta, pra despistar o Miele quebrando lá o gelo dele.

    Também “conheci” o Miele pela televisão e pelas histórias dele. Vai deixar saudades, até porque os tempos são outros, não aparecem mais caras como ele.

    (a história do primeiro grande show do Roberto Carlos no Canecão, produzido por Miele-Boscoli, com 2 baterias, com carro de formula 3 no palco, todos os músicos vestidos de mecânicos de corridas, é maravilhosa. Foi uma reportagem da finada e saudosa revista Bizz. Texto do Ricardo Alexandre, um baita jornalista. Achei uma reprodução:

    http://www.clubedorei.com.br/articles/detail.asp?iData=124&iCat=747&iChannel=2&nChannel=Articles)

  3. Ilmar disse:

    A morte de Miele representa, de certa forma, a morte da televisão brasileira, pois ele era, ao mesmo tempo, a alegria, a criatividade, a cultura e a irreverência em pessoa… Hoje, a televisão brasileira está mais triste, modorrenta, embrutecida e insossa do que nunca! Uma observação: naquela época do programa Cocktail (anos 1980), as mulheres eram mais feias (pelo menos pra mim), mas o mundo era melhor. Hoje, é o contrário: as mulheres são mais bonitas, mas o mundo está pior!…

  4. Gustavo Oliveira disse:

    Como bem disse o João Marcelo Boscoli: Miele deveria ter sido proibido de morrer! Grande cara, versátil, talentoso e a síntese do Bon Vivant.

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