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28 de agosto de 2017 - 23:50Especial Boesel 30 anos

Especial Boesel, 30 anos: parte III, Monza

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“Cat-Trick”: mais um duelo Jaguar versus Porsche vencido pelos britânicos numa corrida de um erro – raro – do brasileiro Raul Boesel, que vinha em 2º e optou trocar pneus uma volta depois do outro carro da TWR-Silk Cut quando começou a chover em Monza

RIO DE JANEIRO – Com o triunfo em Jerez de la Frontera e a boa performance em Jarama, Raul Boesel começava muito bem no World Sportscar Championship: o brasileiro foi ao templo de Monza, na Itália, como líder do campeonato entre os pilotos, com 32 pontos.

Mas na prova marcada para 12 de abril de 1987, ele teria um novo companheiro de equipe. É que Eddie Cheever voltara à Fórmula 1 e naquele mesmo fim de semana seria disputado o GP do Brasil. Por isso, quem se juntou ao brasileiro foi o dinamarquês John Nielsen, então com 31 anos e com a experiência de ter ganho o GP de Macau de Fórmula 3, três anos antes.

Para a 3ª etapa do campeonato, com 1000 km de percurso pelo circuito italiano, então com 5,8 km de extensão, foram inscritos 24 carros de um total de 26 aguardados – um grid pouca coisa melhor em quantidade que as corridas da Península Ibérica, mas com mais qualidade, graças à volta da Joest Racing com dois carros alinhados para “John Winter” (a.k.a Louis Krages) e Stanley Dickens, além de Klaus Ludwig e Pier Carlo Ghinzani, aproveitando que a Ligier, sua equipe na Fórmula 1 para 1987, estava fora da prova inaugural no Brasil. Em contrapartida, a Kremer Racing que se saíra bem em Jarama e Jerez de la Frontera, optou por fazer uma viagem ao Japão.

Outra novidade para Monza era a Primagaz Competition com um Cougar C20 Porsche para Hervé Regout/Joël Gouhier, aumentando para onze o total de inscritos na divisão principal contra 13 carros do grupo C2.

Nos treinos livres e classificatórios, várias equipes tiveram problemas, principalmente com quebras de motor. A Richard Lloyd Racing perdeu dois propulsores num único dia. A Brun Motorsport teve menos sorte ainda: quatro unidades foram para o espaço.

Apesar disso, foi um Porsche 962C que obteve a pole position: o #17 de Hans-Joachim Stuck/Derek Bell largou da posição de honra com o tempo de 1’32″17, média de 226,537 km/h. “Poppy” Larrauri e o patrão Walter Brun levaram o carro #1 da campeã do ano anterior a um improvável 2º posto no grid, com Bob Wollek/Jochen Mass em terceiro e os dois Jaguar XJR-8 a seguir, sendo o de Raul Boesel/John Nielsen o quinto colocado no pelotão.

A Rothmans Porsche optou pelo seguro: após os problemas com a transmissão PDK semi-automática, trocaram a caixa experimental por uma convencional de 5 marchas. Peter Schutz e o Prof. Helmuth Boss, do board da marca de Weissach, estavam presentes em Monza e não se opuseram à mudança.

Numa pista veloz, à feição para os carros de fábrica, Porsche e Jaguar começaram a disputa dos 1000 km de Monza de forma animada. A briga foi excepcional entre os quatro protótipos até o #17 de Stuck perder uma volta por conta de um furo de pneu. O carro #15 de Mauro Baldi/Bruno Giacomelli colidiu com um retardatário da divisão C2 e precisou trocar toda a seção dianteira.

Com o atraso de Stuck, quem chegou no bloco dianteiro foi Klaus Ludwig, apesar de seu Joest Porsche não estar ainda 100% afinado para combater os times oficiais de fábrica. A Brun, surpresa no treino, foi decepção na corrida. O carro de “Poppy” Larrauri e Walter Brun teve uma falha prematura no exaustor e desistiu com 15 voltas apenas.

Os dois XJR-8 da equipe TWR-Silk Cut, com uma melhor performance em termos de economia de combustível, começaram a prevalecer na disputa. Pior para os 962C e o carro de Stuck/Bell, já com o britânico a bordo, envolveu-se num contato com o #15 de Baldi/Giacomelli, provocando o abandono da dupla da Britten-Lloyd Racing.

Não obstante, o #18 de Mass/Wollek sofreu com a quebra de um turbocompressor, que fez o carro ser conduzido para a garagem e fazendo a dupla perder 23 minutos nos boxes. Com 500 km de disputa, um pistão foi para o espaço no carro da Joest Racing guiado por Ludwig/Ghinzani e, a partir daí, a Jaguar passou a dominar a corrida ao seu bel-prazer.

À frente vinha o #5 de Jan Lammers/John Watson com o #4 de Raul Boesel/John Nielsen na dobradinha, o que seria um resultado fantástico para o construtor britânico. E tudo caminhava para o que os britânicos já chamavam de “Cat-Trick” da Jaguar sobre a rival Porsche.

Mas aí uma inesperada convidada chegou para atrapalhar todo mundo: a chuva.

Faltavam 20 minutos, aproximadamente, para o final. O que dava pelo menos umas nove ou 10 voltas até a bandeira quadriculada ser acenada ao vencedor. A ordem da equipe TWR-Silk Cut chefiada por Walkinshaw foi mandar os dois carros aos boxes para a troca dos pneus slicks pelos compostos de chuva da Dunlop.

A diferença entre o carro de Jan Lammers e o de Raul Boesel era de 50 segundos. O holandês atendeu ao chamado da equipe imediatamente e parou para a troca de pneus. Raul avaliou a situação e achou que podia dar uma volta a mais e parar com segurança suficiente para confirmar a dobradinha da Jaguar.

Mas aí a pista já tinha virado um sabão e totalmente imprópria para slicks. O resultado foi que Raul perdeu o controle do carro e acabou atolado na areia movediça. Isso tudo após completar 167 voltas – o que, em condições normais, teria sido o suficiente para a dupla do carro #4 terminar em 4º ou quinto lugar.

Só havia um detalhe importante no regulamento desportivo do World Sportscar Championship. Para uma dupla receber classificação era obrigatório ver a quadriculada. Como Boesel e Nielsen ficaram atolados mesmo com um número suficiente de voltas para fechar os 1000 km de Monza entre os cinco primeiros, ficaram mesmo no zero – um resultado que poderia custar caro ao brasileiro nas corridas seguintes do campeonato.

Para Bell/Stuck, o abandono dos rivais foi de colher: a dupla da Rothmans Porsche estava com 12 pontos do 3º lugar e herdou mais três com a segunda posição – um resultado que os deixou na liderança do campeonato com 42 pontos, dois à frente de John Watson e Jan Lammers, que assim emplacaram o tal do “Cat-Trick” para a Jaguar nas três etapas iniciais da temporada de 1987.

Na classe C2, novamente a Spice Engineering e a Ecurie Ecosse reinaram sozinhas, com mais uma vitória de Fermin Velez/Gordon Spice sobre os rivais Ray Malloc/David Leslie. Com apenas quatro carros da divisão na chegada e somente onze, somando as duas classes, o 3º colocado na divisão inferior chegou nada menos que catorze voltas atrás – mais de 70 km de diferença portanto.

Próximo post: Silverstone.

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6 comentários

  1. Kleber disse:

    Que riqueza de detalhes Rodrigo! Obrigado por nos presentear com mais esse especial!

  2. Allan Guimaraes disse:

    Sensacional, Rodrigo! É atualmente minha leitura favorita! Incrível as informações pormenorizadas, os detalhes… Não sei suas fontes, mas certamente ´é fruto de muita leitura e tradução. Se puder, apenas poste mais fotos de cada prova, vale a pena pela beleza dos bólidos envolvidos…

    • Rodrigo Mattar disse:

      Allan, não é fácil encontrar fotos do World Sportscar Championship. Estou tentando de todas as formas possíveis e se algum dos leitores puder colaborar… agradeço.

  3. TARCISIO FRASCINO FONSECA disse:

    No fim de 1988 a Abril Vídeo lançou dois cassetes muito bons.
    Um sobre o Mundial de Esportes Protótipos 1987 e o outro sobre o Mundial de Rali 1987.
    Tenho ambos. Preciso agora passa-los para DVD.
    Fotos: tenta neste site:
    http://www.racingsportscars.com/championship/World%20Championship.html?page=4

  4. Fernando Silva disse:

    De fato, material de primeiríssima qualidade e um feito que completa 30 anos e que infelizmente não está tendo (por parte dos demais veículos de comunicação…) o reconhecimento que merece. Parabéns, Mattar

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