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20 de agosto de 2019 - 19:14Discos eternos

Discos eternos – Let It Be… Naked (2003)

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RIO DE JANEIRO – Anos 2000: os Beatles já estavam dissolvidos como grupo desde 1970, John Lennon estava morto e Paul McCartney ainda insistia que Let It Be, o último disco lançado com o nome dos Fab Four, era uma porcaria.

O baixista implicava com o trabalho de pós-produção de Phil Spector (George Martin não quis trabalhar com as músicas daquele álbum), especialmente na orquestração de “The Long And Winding Road”. O método “Wall of Sound”, com todos os enfeites e overdubs orquestrais introduzidos no disco, encontrava resistência de McCartney, mas não de Lennon, que deu sua benção às mexidas na mixagem final – aquela que todos conhecemos do lançamento de 1970.

“Demos a ele uma boa coleção de porcarias, gravações bem ruins, cheias de sentimento ruim nelas, e ele (Spector) foi capaz de fazer algo bom daquilo”, comentou Lennon em uma lendária entrevista no ano de 1971.

Esse clima de ame ou odeie de Let It Be mexeu tanto com a cabeça de Paul McCartney por décadas. Ele tinha a certeza de que precisava fazer um acerto de contas com o passado.

Um certo dia, ele encontrou num voo o cineasta Michael Lindsey-Hogg, que vem a ser o homem que fez as filmagens de Let It Be, também o último filme beatle depois de Help!, A Hard Day’s Night, Magical Mystery Tour e Yellow Submarine.

Trocando uma ideia sobre a digitalização das imagens e uma remasterização das músicas lançadas (a película não tinha sido lançada, ainda, em DVD), Paul comentou com Lindsay-Hogg que os arquivos da Apple, pertencentes à então EMI-Odeon, ainda teriam os takes de gravação – que inclusive duraram dois anos, de fevereiro de 1968 a janeiro de 1970 (o disco original saiu em maio daquele ano, com o grupo já extinto) – e que seria interessante dar uma nova cara a Let It Be.

McCartney buscou então a benção dos antigos companheiros de banda. Já muito doente, vítima de câncer, George Harrison não se opôs. Tampouco Ringo Starr. Herdeira do espólio musical de John Lennon, Yoko Ono também foi igualmente consultada e o baixista recebeu o sinal verde para o retrabalho do álbum.

Com três novos engenheiros de som (Paul Hicks, Guy Massey e Allan Rouse) e a consultoria do velho amigo George Martin, Paul recuperou os fonogramas antes do trabalho contestado de Phil Spector e conseguiu o que queria para Let It Be – como não podia mudar o nome desse álbum de remasterizações, optou por rebatizá-lo como Let It Be… Naked, para mostrar suas reais intenções.

Claro, as comparações são inevitáveis. O disco de 2003 não tem “Maggie Mae” e “Dig It”, por exemplo. Mas tem “Don’t Let Me Down” (em outro take de gravação, registre-se), música que só fora lançada em single e todos conheciam do lendário Rooftop Concert, o último concerto da banda ao vivo, executado em 1969 – quando à formação original dos Beatles juntou-se o pianista e organista Billy Preston, que toca em várias faixas de Let It Be e de Let It Be… Naked, sem ser creditado.

Numa prova até de respeito ao disco original de 1970, a ordem das faixas foi totalmente modificada. O álbum remasterizado abre com “Get Back” na versão de single que foi editada em várias coletâneas da discografia beatle. É audível também a diferença entre praticamente todas as canções, especialmente “The Long And Winding Road”, “One After 909”, “Across The Universe” e também na canção-título.

A crítica se esquivou de fazer grandes críticas, mas também foi parcimoniosa nos elogios. A Allmusic achou que Let It Be… Naked era um álbum até ‘mais forte’ que o original, por conta da crueza dos sons – tão perseguida por Paul McCartney. Dominique Leone, da Pitchfork, resenhou o disco como ‘impecavelmente apresentado’, porém ressalvado que tratava-se de uma releitura ‘não essencial’.

Já a Rolling Stone Magazine preferiu lembrar que as novas gerações podiam buscar o álbum original sem rejeitar o novo. “As melhorias sonoras para o álbum como um todo são inegáveis”, descreveu o jornalista Anthony de Curtis.

Ficha técnica de Let It Be… Naked
Selo: Apple/Parlophone Records – EMI-Odeon
Remasterizado e remixado por Paul McCartney, Paul Hicks, Guy Massey e Allan Rouse
Lançado em 17 de novembro de 2003
Tempo total das faixas: 35’04”

Músicas:

1. Get Back (McCartney)
2. Dig a Pony (Lennon-McCartney)
3. For You Blue (Harrison)
4. The Long And Winding Road (McCartney)
5. Two Of Us (Lennon-McCartney)
6. I’ve Got a Feeling (Lennon-McCartney)
7. One After 909 (Lennon-McCartney)
8. Don’t Let Me Down (Lennon-McCartney)
9. I Me Mine (Harrison)
10. Across The Universe (Lennon)
11. Let It Be (McCartney)

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2 comentários

  1. Ricardo Talarico disse:

    Muito obrigado por lembrar e ainda detalhar esse disco que está sempre comigo, com toda a coletânea dos Beatles, seja no pendrive no carro, seja no celular, portanto em qualquer lugar.
    Definitivamente caro Mattar, você nasceu uns 20 anos antes do que registra sua Certidão de Nascimento.
    :-)
    Abração.

  2. Reinaldo Rodrigues disse:

    Beatles é sempre Beatles, é sempre maravilhoso! Mas creio que o som que Paul buscava soa algo um pouco diferente daquilo que a banda sempre apresentou em seus álbuns. Amo “Let It Be” é, sem dúvidas, um dos discos que mais gosto deles, porém prefiro a versão original ao “naked”, mas o registro é muito válido.

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