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25 de outubro de 2019 - 22:46Túnel do Tempo

Direto do túnel do tempo (459)

RIO DE JANEIRO – Longe vão os tempos de uma Fórmula 1 com um calendário enxuto. Até por volta de 1967, era difícil – quase impossível – conseguir ter 10 GPs por temporada. A temporada ganha por Denny Hulme e o campeonato de 1958, com onze eventos cada, foram exceções.

Tanto que o México, que já decidiu campeonatos a favor de Lewis Hamilton desde que a corrida daquele país voltou ao calendário, já foi palco de outra decisão – bem mais marcante por outro motivo: a Ferrari não estava de vermelho no antigo Autódromo Magdalena Mixhuca.

Isso aconteceu em 1964, quando a marca italiana tinha como principal piloto John Surtees, que buscava um feito histórico – se tornar o primeiro campeão mundial em duas e quatro rodas. Seu principal adversário era outro britânico: Graham Hill, campeão mundial de Fórmula 1 em 1962 e que buscava o bicampeonato com a equipe de Sir Alfred Owen e os carros da BRM.

A razão de Surtees e seu companheiro de equipe Lorenzo Bandini terem corrido não só no México como também na etapa anterior, o GP dos EUA, em Watkins Glen, passa por uma briga entre o Commendatore Enzo Ferrari e a FIA – sempre ela…

Na época, a Ferrari construíra o modelo 250 LM e a entidade máxima do desporto automobilístico se recusou a homologar o carro como veículo de competição.

Enzo ficou furibundo com a notícia – e ficaria com mais raiva ainda ao descobrir que a ACI, o órgão desportivo de seu país, não o apoiou diretamente.

Ferrari não teve dúvidas. Foi à sede do ACI e devolveu a licença de competição, prometendo nunca mais competir de vermelho – o que, como todo mundo sabe, não foi cumprido.

Mas para aquele final de campeonato, não havia como se resolver a quizila. Enzo cumpriu com a palavra, não retornou com a Scuderia Ferrari de imediato e o jeito foi Luigi Chinetti assumir a inscrição para Glen e para a Cidade do México com o nome de sua equipe, a North American Racing Team (NART) – que corria de azul e branco.

A corrida final opunha Hill com 41 pontos (39 com os descartes dos quatro piores resultados num total de 10 etapas) e John Surtees, com 34. O piloto da Ferrari, em más condições físicas – pois estava muito resfriado – precisava marcar pontos, de preferência com uma vitória ou um 2º lugar, caso Hill quebrasse no GP do México.

Eram 20 os inscritos – A.J. Foyt foi prometido numa BRM, mas não compareceu – e 19 pilotos participaram da última etapa, justamente num dia 25 de outubro como hoje.

Jim Clark partiu da pole com sua Lotus 33 com motor Climax, seguido pela Brabham BT7 guiada por Dan Gurney, com o mesmo propulsor V8 de 1,5 litro. Surtees fez o quarto tempo do grid e Hill, o sexto.

Avassalador, bem ao seu estilo, Clark dominou a seu bel prazer o GP do México, enquanto Hill não começava bem a decisão do campeonato, caindo para a décima posição. Surtees também não teve sorte melhor: engasopando na largada, completou a primeira volta em 13º. Mas o motor de seu carro funcionou lindamente após o problema e o piloto da Ferrari faria uma corrida espetacular.

Na 12ª volta, Graham já era o 3º colocado – mais do que suficiente para lhe assegurar o segundo título na Fórmula 1. Porém, o companheiro de equipe de Surtees, Lorenzo Bandini, facilitaria as coisas.

Um contato com a BRM de Hill na 31ª volta de um total de 65 quebrou o exaustor do carro com o dorsal #3. O inglês caiu primeiro para sexto e depois, com o problema se agravando, foi aos boxes. Retornou em 13º, duas voltas atrasado.

A quarta colocação não bastava para Surtees. Com o resultado do piloto da Ferrari e mesmo com problemas técnicos, Hill era campeão.

Até que o motor Climax da Lotus de Jim Clark começou a vazar óleo e o Escocês Voador foi perdendo velocidade. Na penúltima volta, Dan Gurney ultrapassou o rival e o motor de Clark expirou logo a seguir.

A NART ordenou a troca de posições entre as duas Ferrari, já que o 3º lugar também não bastava. Bandini obedeceu e abriu passagem a Surtees, que chegou em segundo a pouco mais de um minuto de Gurney. E com o título assegurado!

“Foi fantástico! Nunca pensei que teria uma chance”, comentou Big John.

“Foi muita falta de sorte – da pior forma possível!”, exclamou Clark ao Duque de Edimburgo. “Acho que foi uma vitória moral para mim. Só que vitórias morais não dão títulos”, completou o piloto da Lotus.

Há 55 anos, direto do túnel do tempo.

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2 comentários

  1. Carlos disse:

    Fantástica história.
    Rodrigo, do alto de seu vasto conhecimento, poderia fazer uma matéria sobre automobilismo no cinema hein?
    Mas de filmes pré Grand Prix!
    Lembro que quando era garoto, via alguns nas extintas tvs Rio e Excelsior.
    Até tentei pesquisar sobre esse assunto, mas não cheguei à termo conclusivo.
    Saudações de Friburgo!

  2. Antonio Seabra disse:

    Se os carros daquela época não quebrassem tanto, Clark teria muito mais vitorias, e, certamente um palmares mais impressionante ainda, em termos percentuais.
    E, sem duvida, teria 3 titulos mundiais.

    Mas, eu sei, “SE” não conta pras estatisticas….

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