Uma corrida estranha

U
Mais uma vitória da Mercedes-Benz em Suzuka, agora com Valtteri Bottas. E pelo sexto ano consecutivo, a turma de Stuttgart leva o caneco do Mundial de Construtores

RIO DE JANEIRO – O GP do Japão deste domingo, madrugada pra nós, foi no mínimo estranho.

Primeiro teve toda aquela história do tufão Hagibis e havia que se preocupar muito com os possíveis estragos e com o rescaldo. Felizmente, o plano de contingência deu certo. O treino oficial foi transferido do sábado para o domingo, quatro horas antes da disputa.

A Ferrari deu um banho na qualificação e monopolizou a primeira fila.

Pra depois fazer o que fez na corrida. E principalmente na largada. O pole Sebastian Vettel e Charles Leclerc não puderam conter o fulgurante arranque de Valtteri Bottas, que emergiu líder na curva 1. E de lá não saiu mais.

Leclerc foi se meter com quem não devia. Verstappen, também. Acho que o risco foi todo do holandês, em tentar uma manobra por fora. E na saída da curva 1, feita em duas tomadas, os dois se enroscaram. Um chamou o outro de “irresponsável” e “idiota”.

#TretaDetected, pois.

A FIA fez que não era com ela e deixou seguir o jogo. Fez vista grossa com uma suposta queima de largada de Vettel, justificando a não-punição porque o alemão agiu “dentro do tolerável”. Sei…

O incidente Charles-Max foi avaliado a posteriori pelos comissários, que lhe aplicaram duas punições – relativamente inócuas. A primeira pelo entrevero com o piloto da Red Bull (punição da qual discordo, porque a intepretação é discutível). Depois, o piloto da Ferrari se desculparia por conta do toque.

A segunda, por conta da inspeção de segurança em razão do contato entre os dois carros, que danificou a asa dianteira da Ferrari do monegasco. Leclerc deu de ombros às instruções e ainda perdeu o espelho retrovisor do lado esquerdo.

Como efeito, levou pênaltis de 15 segundos, a equipe foi multada em 113 mil talkeys e Leclerc acabou na 7ª posição.

Com Bottas disparado na frente, a Mercedes-Benz falhou na tática com Lewis Hamilton, que largou de pneus macios e, com o desgaste pronunciado dos mesmos, parou para a troca pelos compostos médios. O pentacampeão esbravejou pelo rádio, disse que era melhor ter mudado para os duros e isso de nada adiantou.

Com a cara mais amarrada do mundo, o líder do campeonato subiu ao pódio sem se conformar por ter sido pelo menos segundo. E olha que a equipe que ele defende foi, pela sexta vez consecutiva, campeã por antecipação do Mundial de Construtores.

Sem “Valtteri, it’s James” no rádio – desta vez, aliás, foi exatamente o inverso, com muito bom humor, o finlandês conquistou uma merecida sexta vitória na Fórmula 1. Foi a 99ª conquista dos carros prateados na categoria e o centésimo GP de Bottas nos pontos.

Sobre os demais, novamente dou meus parabéns à Alex Albon e Carlos Sainz Júnior. Tirando os cinco protagonistas do início do campeonato, são os grandes nomes de 2019. O tailandês vai se firmando na Red Bull sem sentir a pressão de ter Verstappen como companheiro de equipe. Sainz, por sua vez, desfruta do bom momento que a McLaren vive. A equipe britânica, podem escrever aí, está no ótimo caminho para daqui dois anos.

De resto, há ainda uma reclamação formal e bem veemente da Force India sobre a Renault, que levou seus dois carros aos pontos após um treino oficial pavoroso. E Gasly de novo bem, à frente de Kvyat. Pelo visto, o francês é mais piloto de Toro Rosso mesmo do que da matriz…

E para completar uma corrida estranha, a direção de prova se embananou toda e ainda mostrou a quadriculada uma volta antes do final. Como sempre digo, parabéns aos envolvidos.

Agora, a matemática aponta Hamilton com 338 pontos e Bottas com 274. Pelo numerário, são 64 pontos de diferença entre eles e faltam quatro corridas – EUA, México, Brasil e Abu Dhabi.

Será que temos o direito de acreditar que o título, desta vez, pode ser definido em Interlagos?

Sobre o Autor

Rodrigo Mattar

2 Comentários

  • Foi mesmo uma corrida estranha, com todos esses acontecimentos que voce mencionou.
    Acho que a Mercedes “devolveu” ao Bottas alguns favores que ele fez nessa temporada, ao não atender o pedido do Hamilton, pelo rádio, por volta da metade da prova: “O que eu tenho de fazer pra ganhar essa corrida ?”. Se ele ficasse até o fim com os pneus medios, e não parasse novamente, tinha grande chances de vencer, ou, na pior da pior das hipóteses, chegar em,,,,,,terceiro !!!! Então, porque pararam ele ?????
    Simples, ficou claro quando o engenheiro do Bottas respondeu ao finlandês pelo radio: “O Lewis vai ter de parar também, isso é certo”. Logo depois, o inglês parou….
    Pra bom entendedor, pingo é letra.

  • Sobre a Red Bull, em 5 corridas Albon fez 48 pontos, contra 63 que Gasly havia feito em 12 corridas. Tirando o erro na Rússia, que depois compensou com ótima recuperação na corrida, aparentemente tem a constância que a equipe não via no francês. E ainda EMPATOU com Verstappen no treino de classificação. Nunca se sabe o humor de Horner e Marko, mas parece que está se encaminhando para ficar na equipe de cima. E o melhor desempenho da McLaren esse ano, e sem tantas lamúrias quando a coisa sai aquém do esperando, realmente é animador para os próximos anos. Inclusive é divertido observar as galhofas dos pilotos na internet.

Por Rodrigo Mattar

Reclames

Perfil

Rodrigo Mattar, carioca de 49 anos. Apaixonado por automobilismo desde os nove, é jornalista especializado em esportes a motor desde 1998. Estagiou no Jornal do Brasil e numa assessoria de comunicação antes de ingressar na Rede Globo. Em 2003, foi para o SporTV, onde foi editor dos hoje extintos programas Grid Motor e Linha de Chegada. No mesmo ano, iniciou sua trajetória como comentarista, estreando numa transmissão de uma corrida de Stock Car, realizada no saudoso Autódromo de Jacarepaguá. Há sete anos, está no Fox Sports, atuando como editor responsável do programa Fox Nitro e comentarista de diversas categorias, entre as quais Rali Dakar, Nascar, MXGP, WTCC, WRC, FIA WEC, IMSA, Fórmula E, WTCR e Superbike Series Brasil. Conduz o blog A Mil Por Hora, agora no GRANDE PRÊMIO, desde 2008.

Arquivos

Categorias

Nuvem de Tags

Twitter

Reclames

Facebook

Mais reclames