Direto do túnel do tempo (471)

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RIO DE JANEIRO – Fim de semana do Grande Prêmio da Espanha de Fórmula 1, marcado para 8 de maio de 1977.

Na lista de inscritos para a 5ª etapa daquela temporada, uma nova equipe dava as caras. Era a Williams Grand Prix Engineering. Inscrita com o dorsal #27, apresentava um March 761 pintado nas cores da cerveja Belle Vue, dos lubrificantes Texaco, de uma companhia aérea – Fly Saudia – e estranhas inscrições em árabe.

O piloto era Patrick Néve, um belga. O carro era fraco, um dos piores do grid. Mas foi assim que Frank Williams voltou à Fórmula 1 após levar uma pernada de Walter Wolf, que montou uma estrutura dele e pra ele, assim que desfez a sociedade com Frank ao fim do campeonato de 1976.

Williams não era um qualquer na categoria máxima. Como independente, já alinhava carros desde 1969. Tivera modelos Brabham e De Tomaso guiados por Piers Courage e, após a morte deste em Zandvoort/70, deu chance a Brian Redman e Tim Schenken.

Depois, trabalharam com Frank o francês Henri Pescarolo, o brasileiro José Carlos Pace e uma dezena de outros nomes que guiaram nos anos subsequentes primeiro os Iso-Marlboro e depois os Williams FW04 e FW05. Eram os tempos da Frank Williams Racing Cars e depois da Walter Wolf Racing – isso já em 1976.

Tendo que recomeçar do zero, com uma estrutura enxuta, Frank optou primeiro pelo March 761 como paliativo enquanto um jovem engenheiro chamado Patrick Head rabiscava as primeiras linhas do carro de 1978.

Uma história curiosa é que nem a Williams e nem a Copersucar iam bem no campeonato de 1977 e no correr da temporada, Frank – que admirava e gostava de Emerson Fittipaldi – chegou no brasileiro e perguntou.

“Quer correr para mim? Tenho dinheiro dos árabes, estou fazendo um carro para o próximo ano e quero você na minha equipe. Cubro o que você ganha na Copersucar e em dois anos minha equipe será de ponta.”

Emerson admirou a tenacidade e as palavras de Williams, mas por lealdade a Wilsinho e à Copersucar, negou o convite para deixar a equipe brasileira.

Talvez fosse melhor que o tivesse feito, pois em 1979 a Williams era sim, como dissera Frank, um time de ponta graças ao investimento da Saudia, da Techniques d’Avant Garde – da família Ojjeh e até do pai de Osama Bin Laden – acreditem. O FW07 foi o melhor carro-asa da segunda metade daquele ano e a equipe se estabeleceu como força da Fórmula 1 pelos anos seguintes, com pequenos altos e baixos – mais altos que baixos, nos períodos de parcerias com Honda e Renault.

Depois veio a associação com a BMW e a partir da metade da década passada, embora a Williams ainda conservasse alguns momentos de brilho, a performance da equipe decaiu a olhos vistos. Os últimos três, quatro anos, da equipe hoje sediada em Grove, na moderna sede erguida há algum tempo, são de dar pena.

Sir Frank Williams, hoje com 78 anos, está tetraplégico desde 1986, por força de um grave acidente de estrada na França. Não vê sua criação ganhar uma corrida desde 2012. Há três anos, a equipe está em último lugar no Mundial de Construtores, sem qualquer atenuante. E a mudança de comando, com a entrada da filha Claire, foi mais criticada do que qualquer outra coisa.

Muito bem: há alguns dias, antes do GP da Bélgica, foi anunciada a venda da equipe para um fundo de investimentos – Dorilton Capital. E Claire Williams confirmou às vésperas do GP da Itália que está fora. Sai do comando do time, que deve ficar nas mãos do antigo piloto James Matthews.

Que ele e o Dorilton Capital mantenham vivo o legado daquela equipe que, a partir deste fim de semana, sai de cena como a última entre os ‘garagistas’ de um passado que não pertence mais a este mundo e, principalmente, à Fórmula 1.

Não há mais lugar para sonhadores.

Há 43 anos, direto do túnel do tempo.

Sobre o Autor

Rodrigo Mattar

2 Comentários

  • Mais um belo texto, Rodrigo.
    Estava mais do que na hora dos Williams deixarem o comando da equipe.
    Sir Frank é praticamente um octogenário, a Claire é um zero à esquerda, gostei do que li num outro comentário, a única proeza dela foi destruir em 4 anos o que o pai levou 40 para erguer.
    Apenas um comentário, a última vitória foi Espanha/12, com o mais que improvável Maldonado.

Por Rodrigo Mattar

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Perfil

Rodrigo Mattar, carioca de 49 anos. Apaixonado por automobilismo desde os nove, é jornalista especializado em esportes a motor desde 1998. Estagiou no Jornal do Brasil e numa assessoria de comunicação antes de ingressar na Rede Globo. Em 2003, foi para o SporTV, onde foi editor dos hoje extintos programas Grid Motor e Linha de Chegada. No mesmo ano, iniciou sua trajetória como comentarista, estreando numa transmissão de uma corrida de Stock Car, realizada no saudoso Autódromo de Jacarepaguá. Há sete anos, está no Fox Sports, atuando como editor responsável do programa Fox Nitro e comentarista de diversas categorias, entre as quais Rali Dakar, Nascar, MXGP, WTCC, WRC, FIA WEC, IMSA, Fórmula E, WTCR e Superbike Series Brasil. Conduz o blog A Mil Por Hora, agora no GRANDE PRÊMIO, desde 2008.

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