Discos eternos: Essa Tal de Gang 90 & Absurdettes (1983)

D
Capa do primeiro álbum para valer da Gang 90 & Absurdettes, ainda sem Taciana Barros: May East (de azul), Lonita Renaux, Herman Torres, Alice Pink Pank e o saudoso e genial Júlio Barroso

RIO DE JANEIRO  – Os anos 1980 foram a década dos excessos no Brasil, principalmente em relação ao consumo de drogas. Mas também foi o período mais criativo da música nacional, depois da Jovem Guarda, da Era dos Festivais e da Tropicália – sem contar os ‘seres de outro planeta’ chamados Raul Seixas e Tim Maia – que não eram de movimento nenhum e tiveram brilho próprio.

Para o meu gosto, um dos grandes revolucionários da estética pop da música brasileira foi o poeta multimídia Júlio Barroso. Carioca nascido em 1953, ele se radicou em São Paulo e no final dos anos 1970 mudou-se para os EUA depois de fracassar na tentativa de montar um grupo ‘performático’. Antes, em 1975, ele editou uma revista chamada “Música do Planeta Terra”. 

“O poeta é o traficante da liberdade”, dizia.

Naquela época, com o fim da discothèque como movimento musical, nascia outra estética – a New Wave, aproveitando traços do punk, do glam, do rockabilly e também a chamada Beat Culture (Cultura Beat). Júlio fascinou-se com Kid Creole & The Coconuts e, com tudo aquilo na mente, voltou ao Brasil para trabalhar – com um conhecimento musical absurdo na bagagem – como Disc Jockey na casa Pauliceia Desvairada, um empreendimento de Nelson Motta, de quem Júlio ficaria amigo. Tanto que daria uma força ao programa que o jornalista e compositor faria na Bandeirantes, o ‘Mocidade Independente’.

Em 1981, Júlio deu o salto mais audacioso e ambicioso de sua vida. Apagou a frustração do grupo que não dera certo e fez – em português – sua versão tropicalista de Kid Creole & The Coconuts, não exigindo muita coisa das quatro meninas que compunham o grupo, batizado Gang 90 & Absurdettes. Exceto charme, anarquia e sensualidade.

Só que as quatro tinham talento: Alice “Pink Pank” Vermeulen era holandesa, bailarina, tinha formação musical e fora vocalista de estúdio de gravações de um grupo que começava a fazer sucesso – um tal de U2. May Pinheiro, “May East”, era uma anglo-brasileira bonita e afinada. Havia ainda Denise, irmã de Júlio… e Luiza Cunha, que era a auxiliar de Júlio no Pauliceia e que arrebataria o coração de Guilherme Arantes.

Aliás, Guilherme amou a proposta da Gang. Para o primeiro compacto, aceitou ser o diretor musical e vocalista de apoio. Quem escutar “Perdidos na Selva” nos aplicativos, perceberá claramente o vocal do cantor, compositor e tecladista, além do ronco da guitarra do saudoso Wander Taffo – e menos explicitamente a voz de um certo “Mielsen Notte”, que era nada mais, nada menos, que Nelson Motta – créditos à revelia, é bom lembrar.

“Perdidos…” foi inscrita no festival MPB-Shell 81, da Globo. A banda foi muito bem na eliminatória, classificou a música para a final, mas no Maracanãzinho, nada deu certo e eles não levaram nada. Ganhou a vaiadíssima “Purpurina”, do gaúcho Jerônimo Jardim, com Lucinha Lins no vocal.

A Gang 90 começou a decolar com cancha de palco e vieram as apresentações nos programas globais como o dominical “Geração 80”. Quando Chacrinha voltou à emissora carioca em 1982 com seu “Cassino do Chacrinha”, palco perfeito para as loucuras da banda de Júlio Barroso, ele resolveu morar um tempo nos EUA.

Alice, que inclusive era sua namorada, foi arrebatada por um certo Lobão. Mas Júlio, com nonchalance, passou por cima da cornitude – mesmo que acompanhado por hectolitros de Caninha Pirassununga 51 – e recompôs a Gang para em 1983 gravar o que seria o primeiro LP do grupo, já que além de “Perdidos na Selva”, lançaram apenas outra música, “Lilik Lamê”, que é o lado B do primeiro grande sucesso do grupo.

Sem Luiza, Júlio manteve May, Denise e Alice (que sairia para se integrar a Lobão & Os Ronaldos) e trouxe uma nova – literalmente – vocalista, pelo menos para os shows. Taciana Barros tinha apenas 17 anos quando foi alçada à condição de Absurdette, sem ter gravado o álbum: Wilma Nascimento pôs voz em várias canções no estúdio. O band leader também recrutou o guitarrista cearense Herman Torres, que igualmente passou a dividir os vocais da Gang com Barroso.

Um timaço de músicos participou da gravação: Luiz Paulo Simas foi o tecladista na maioria absoluta das músicas, Tavinho Fialho o baixista, Gigante Brasil o batera (Albino Infantozzi gravaria uma faixa) e Guilherme Arantes voltou como diretor musical, ficando responsável pelos teclados numa canção.

O disco apresentou dois enormes clássicos da New Wave e do Pop nacionais. “Nosso louco amor” estrondou e foi escolhida para a abertura de – ora vejam vocês! – ‘Louco Amor’, folhetim global de Gilberto Braga, sucesso de 1983 no horário das 20h. O refrão, cantado em uníssono pelas Absurdettes, era tiro e queda.

Já foi assim
Mares do Sul
Entre jatos de luz
Beleza sem dor
A vida sexual dos selvagens

É bom saber
Voltou a ser
Na rua uma estrela ilumina
Nosso Louco Amor

E, claro, a espetacular “Telefone” – letra mais Júlio Barroso, impossível. 

São três horas da manhã, você me liga
Pra falar coisas que só a gente entende
São três horas da manhã, você me chama
E om seu papo poesia me transcende
 
Ó, meu amor
Isso é amor
Ó, meu amor
Isso é amor
É amor, é amor
 
A sua voz está tão longe ao telefone
Fale alto mesmo, grite, não se importe
Pra quem ama a distância não é lance
Nossa onda de amor não há quem corte
 
Ó, meu amor
Isso é amor
Ó, meu amor
Isso é amor
É amor, é amor
 
Pode ser de São Paulo a Nova York
Ou tão lindo flutuando nosso Rio
Ou tão longe mambeando o mar Caribe
A nossa onda de amor não há quem corte
 
Ó, meu amor
Isso é amor
Ó, meu amor
Isso é amor
É amor, é amor
 
Todas as referências de Júlio estão ali: Rio, São Paulo, Nova York, o Caribe citado en passant por conta do toque caribenho de Kid Creole & The Coconuts. E a música não podia dar errado. Como não deu: “Telefone” é um dos grandes hits nacionais dos anos 1980.
 
Ainda houve, inclusive, uma releitura não muito feliz de “Perdidos na Selva”, no lado B do bolachão e “Noite e Dia”, parceria de Júlio com Lobão – que só seria sucesso na voz deste último em 1986, com outro arranjo, no disco ‘O Rock Errou’. 
 
Outra letra espetacular é de “Românticos a Go-Go”. Com algumas ‘homenagens’ para caber na métrica: ao baterista Gigante Brasil e à irmã Denise, que na Gang cantava como ‘Lonita Renaux’.
 

Donga, Cartola, Guevara, Sinhô
Jimi, Caymmi, Roberto, Melô
Rita, Lolita, Del Fuego, Bardot
Gato, Coltrane, Picasso, Cocteau

Zeca, Zé Kéti, Gigante, Wally
Jorge, Lonita, Sarita, Ceci
Cummings, John Done, Augusto, Pagu
Yoko, Rodchenko and B-52

Nietzsche, Nijinski, Alan Poe
Sheena, Marilda, Tzara, Seraut
Arto, Ornette, Isadora, Monroe
Marley, Duchamp, Oiticica, Xangô

A anárquica proposta da Gang também é replicada em “Eu sei, mas não sei (I know, but I don’t know)”, adaptação de uma música de Frank Infante, baixista do lendário grupo New Wave Blondie.

Eu quero e eu consigo
Eu perco, mas eu não ligo
I’m your dog, but not your pet
Quero e sou Absurdette!

O álbum é completado pela enérgica “Convite ao Prazer”, parceria de Júlio com Lee Marcucci e Wander Taffo – que formavam na mesma época o Rádio Táxi (Taffo é responsável pela guitarra solo nesta música e em “Eu sei, mas não sei”); uma versão inacreditável de “Spaced out in paradise”, de Clive Stevens, chamada “Dada Globe Orixás”, “Mayacongo” e “Jack Kerouac”, uma ode ao grande escritor beat, ídolo de Júlio.

Após o sucesso de “Nosso Louco Amor” e “Telefone”, a Gang 90 ainda teria uma quarta música com grande repercussão – o grupo foi escolhido para participar do programa musical infanto-juvenil ‘Plunct… Plact… Zummm!’, com a hilária “Será que o King-Kong é Macaca?”, dividindo as honras com “Carimbador Maluco” (Raul Seixas), “Planeta Doce” (Jô Soares) e a linda “Brincar de Viver” (Maria Bethânia).

Chame, chame, chame… Tarzan
Chame, chame, chame… Tarzan

Chame, chame, chame… Tarzan

Krig-Ah! Bandolo! Na mata…
Vai ver que o King-Kong é macaca!
O King-Kong é macaca!

Na noite da floresta um raio explode no ar…
No céu da selva, linda é a lua…
Os animais dançando rock e chá-chá-chá
Papai do céu, qu’estrela é a sua…
Mamãe-mamãe-mamãe… Ai que medo!
Estamos sozinhos no mato!

– Um leãozinho solta um rugido…
– Uma pantera… (miau) é como um gato

Chame, chame, chame… Tarzan
Chame, chame, chame… Tarzan
Chame, chame, chame… Tarzan

Krig-Ah! Bandolo! Na mata…
Vai ver que o King-Kong é macaca!
O King-Kong é macaca!

Na noite da floresta medo de assombração…
Uma coruja pia no meio do mato…
Me diz que bicho “feio” é o bicho-papão…
Esse dragão é mesmo um barato!
Papai-papai-papai… Ai, que susto!

Estamos perdidos na mata…
Um elefante aspira fundo,
Uma hiena doida dá risada.

Chame, chame, chame… Tarzan
Chame, chame, chame… Tarzan
Chame, chame, chame… Tarzan

Krig-Ah! Bandolo! Na Mata
Vai ver que o King-Kong é macaca!

O King-Kong é macaca!

Contudo, os shows da Gang e o sucesso das músicas não fazem Júlio Barroso sair da roda de excessos. Pelo contrário: o vocalista e poeta entrava cada vez mais fundo no álcool e nas drogas.

E embora muitos achem que ele estivesse doidão, louco ou o que mais que pensem, quando caiu da janela de seu apartamento no 11º andar num prédio em São Paulo, em 6 de junho de 1984 – aos 30 anos, apenas, Júlio Barroso foi vítima de um lamentável acidente.

Sua morte trágica foi chorada pelos que dele gostavam e adoravam. Júlio vivia um momento feliz porque o segundo álbum da Gang, “Rosas e Tigres”, estava em pré-produção e seria muito bem recebido pela crítica. Só que não havia mais o carisma e a anarquia de Júlio e a Absurdette Taciana Barros tomou para si as rédeas do grupo. O disco póstumo não segurou muito a Gang. Em 1987, com “Pedra 90” e já esfacelada, sem quase ninguém da formação original, a banda conheceu seu fim.

Ficha técnica de Essa Tal de Gang 90 & Absurdettes
Selo: RCA-Victor/BMG
Gravado e produzido em 1983
Direção musical: Guilherme Arantes

Músicas:

1. Nosso Louco Amor (Herman Torres/Júlio Barroso)

2. Românticos a Go-Go (Alice Pink Pank/Júlio Barroso)

3. Telefone (Júlio Barroso)

4. Eu sei, mas não sei (I know, but I don’t know) [Frank Infante/v. Júlio Barroso]

5. Convite ao Prazer (Wander Taffo/Júlio Barroso/Lee Marcucci)

6. Dada Globe Orixás (Spaced out in Paradise) [Clive Stevens/Lincoln Gomes/v. Júlio Barroso]

7. Perdidos na Selva (Júlio Barroso/Márcio Vaccari/Guilherme Arantes)

8. Noite e Dia (Júlio Barroso/Lobão)

9. Mayacongo (Luiz Fernando Borges/Júlio Barroso/Luiz Paulo Simas)

10. Jack Kerouac (Alice Pink Pank/Júlio Barroso)

Sobre o Autor

Rodrigo Mattar

4 Comentários

Por Rodrigo Mattar

Reclames

Perfil

Rodrigo Mattar, carioca de 49 anos. Apaixonado por automobilismo desde os nove, é jornalista especializado em esportes a motor desde 1998. Estagiou no Jornal do Brasil e numa assessoria de comunicação antes de ingressar na Rede Globo. Em 2003, foi para o SporTV, onde foi editor dos hoje extintos programas Grid Motor e Linha de Chegada. No mesmo ano, iniciou sua trajetória como comentarista, estreando numa transmissão de uma corrida de Stock Car, realizada no saudoso Autódromo de Jacarepaguá. Há sete anos, está no Fox Sports, atuando como editor responsável do programa Fox Nitro e comentarista de diversas categorias, entre as quais Rali Dakar, Nascar, MXGP, WTCC, WRC, FIA WEC, IMSA, Fórmula E, WTCR e Superbike Series Brasil. Conduz o blog A Mil Por Hora, agora no GRANDE PRÊMIO, desde 2008.

Arquivos

Categorias

Nuvem de Tags

Twitter

Reclames

Facebook

Mais reclames