Bobby Unser (1934-2021)

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RIO DE JANEIRO – Aberto o mês de maio, que é emblemático na história das 500 Milhas de Indianápolis – e nos despedimos de um tricampeão da maior prova estadunidense e um dos maiores nomes do automobilismo dos EUA. Robert William “Bobby” Unser morreu domingo em Albuquerque (Novo México), aos 87 anos, de causas naturais, informa o GRANDE PRÊMIO.

Nascido em Colorado Springs, em 20 de fevereiro de 1934, Bobby é irmão de Al Unser e tio de Al Unser Júnior. A família, das mais tradicionais do esporte, teve ainda Jerry e Louis Unser (os outros irmãos de Al Senior e Bobby), Robby Unser, Johnny Unser e Al Unser III nas pistas. Ele era um dos seletos integrantes do rol de pilotos que ganharam a Indy 500 três vezes ou mais – e assim como Rick Mears, faturou a disputa em três décadas diferentes.

Terceiro na ‘escadinha’ de quatro irmãos, Bobby começou no automobilismo ainda menor de idade, mas foi servir ao exército de seu país e teve que se afastar do esporte. Quando começava a carreira, o irmão Jerry morreu na disputa da Indy 500 de 1959.

Mas isto não o abalou: além das vitórias em Indianápolis, Bobby foi um dos gigantes da prova Pikes Peak Hill Climb, no Colorado. Venceu-a em 1956, consecutivamente entre 1958 e 1963, voltando a triunfar em 1966, 1968 e – incrivelmente, aos 52 anos, em 1986, com um Audi. Robby Unser ganhou a prova três vezes, Al Junior uma e Al Senior duas – fora os oito triunfos de Louis Unser, o mais velho dos irmãos. É só fazer as contas: ao todo, a família Unser venceu 24 vezes em Pikes Peak. Uau!

Na USAC, Bobby levou os títulos das temporadas de 1968 e 1974, afora dois vice-campeonatos da CART em 1979 e 1980 – com 10 vitórias em provas desta disciplina. E em 21 largadas na Indy 500, três vitórias.

A primeira veio em 1968 com o modelo Eagle 68 Offenhauser. Com a criação de Dan Gurney, Bobby derrotou o próprio Dan, além de nomes como Denny Hulme, Joe Leonard, o campeão de 1966 Graham Hill e o de 1967 (e já tricampeão, aliás) A. J. Foyt.

Em 1975, a prova foi interrompida após 174 voltas em decorrência de chuva. Mas Bobby era o líder no momento em que a água desabou no Speedway, comandando a disputa no lindo Olsonite Eagle 74 Offenhauser, derrotando Johnny Rutherford – o campeão do ano anterior e, novamente, A.J. Foyt.

Aos 47 anos, já veterano, Bobby igualou o irmão Al em vitórias na edição de 1981 (Unser Senior venceria de forma inesperada em 1987 e chegaria ao recorde junto a Foyt e, posteriormente, Rick Mears). Na oportunidade, em que houve inclusive um acidente com incêndio devido a um vazamento de metanol – que provoca chamas invisíveis – no pitwall de Rick Mears – aconteceu uma das maiores polêmicas da história do evento. Tanto que foi decidida quase cinco meses após a corrida propriamente dita.

E por que? Numa neutralização em bandeira amarela, Bobby Unser ultrapassou oito carros e Mario Andretti, dois. Em decorrência desta ‘trapaça’ – porque inclusive parte da mídia o rotulou assim – Bobby teve seus pontos na CART retirados, perdeu contratos de patrocínio na casa de US$ 1 milhão e a vitória para Mario Andretti – que o USAC só restituiria ao piloto do Team Penske após um julgamento.

A Penske recorreu da decisão usando a seu favor uma regra chamada “Blend Rule”, que não era clara o suficiente no livro da USAC e deixava brechas de interpretação. Os oficiais da entidade aceitaram o argumento e em 12 de outubro, devolveram a Unser a vitória conquistada na pista. O anel da vitória, aliás, não foi entregue: Mario Andretti revoltou-se com a revisão do resultado e sumiu com o objeto. Na época, o piloto não teve sequer o apoio da Patrick Racing, sua escuderia em 1981, para o apelo junto ao USAC. Andretti tentou como última instância a FIA, mas não foi bem-sucedido.

Para Bobby foi a gota d’água e o piloto, desiludido com os meandros do esporte, resolveu se retirar. “Minha paixão terminou”, revelou em sua autobiografia. Mas Unser não se afastou do automobilismo, tornando-se um excelente analista de provas da Indy em três emissoras – NBC, ABC e ESPN, sem contar participações na IMS Radio e em provas da Nascar entre 1986 e 1992.

No ano de 1990, Bobby Unser fez parte da equipe da ABC que foi premiada com o Emmy de melhor transmissão esportiva ao vivo, recebendo o galardão junto a Paul Page, Sam Posey e outros daquela casa.

Ah, já ia esquecendo: Bobby Unser também esteve presente em provas de Fórmula 1. Na verdade, seriam três, mas por força de compromissos assumidos no USAC, o piloto – então com 34 anos – não participou dos GPs da Itália e Canadá, onde correria com a BRM P126 da Owen Racing Organisation. Sua única prova na categoria máxima foi em Watkins Glen, no GP dos EUA, com a BRM P138. Largou em 19º lugar e abandonou quando era décimo na 36ª volta, por um problema de motor.

#RIP Godspeed.

Sobre o Autor

Rodrigo Mattar

5 Comentários

  • Sobre o episódio das 500 Milhas de Indianápolis em 1981, o próprio Bobby citou no livro autobiográfico dele(Winners are Driven) que aquilo da desclassificação era um ardil da USAC(e dos donos do Indianápolis Motor Speedway) pra criar uma briga entre o chefe da equipe de Bobby(Roger Penske) e o chefe da equipe de Mário Andretti(Pat Patrick, falecido no começo de 2021) que fosse o estopim pra implodir e destruir a CART já que as Indy 500 seguia sendo organizada pela USAC e dos donos do IMS, Tony George incluso, se posicionaram favoráveis a USAC contra a CART o que fez as 500 Milhas de Indianápolis não contarem pontos pro certame da CART até 83 quando Tony George e a CART firmaram um acordo onde as 500 Milhas voltariam a fazer parte do calendário da CART e a contar pontos pros certames desta mas cuja organização das 500 Milhas ainda seria feita pela USAC.

  • Interessante destacar que ele e o Mario Andretti planejavam se classificar pra corrida em Monza, voar para Indianapolis para a Hoosier 100 (tradicional evento da USAC em oval de terra), voltar para a Itália a tempo da corrida. Isso em 1968, quando não tinha Concorde e ir dos EUA pra Europa era um tanto quanto complicado nesses anos iniciais da era do jato.

    Só não contavam com a astúcia do Automóvel Clube da Itália, que exigiam que todos os pilotos não participassem de eventos 24 horas antes do Grande Prêmio, então sequer voltaram para a Itália. Sensacional a explicação para a exclusão dos dois no Stats F1, só aparece lá “race in another race”.

    Uma lenda maiúscula do automobilismo RIP

  • Que homenagem linda a uma lenda, que, sinceramente, conhecia muito pouco. Sou da época em que Al Junior batia rodas com Emerson Fittipaldi, Al Senior já era um veterano e, agora sei, Bobby Unser já tinha se aposentado das pistas. Então sabia – e muito pouco – de seus feitos.
    Dizer que essa família é vitoriosa é chover no molhado. Nossos sentimentos à toda a família Unser. A cada lenda que volta aos autódromos celestiais, o automobilismo terreno fica mais triste.

  • Mais uma lenda que se vai, e no início de Maio, mês da Indy 500 e que colocou o sobrenome da familia na história da categoria e da prova, bem como do automobilismo norte-americano. O episódio envolvendo o Mario Andretti é surreal e espetacular.
    Descanse em paz, Bobby Unser!!

  • Mais uma postagem com a assinatura maiúscula de Rodrigo Mattar.
    Outra vez, agradecemos e parabenizamos por nos brindar com tantas e maravilhosas informações.
    Deveria mandar esse post para a família Unser .
    Forte abraço,

Reclames

Perfil

Rodrigo Mattar, carioca de 49 anos. Apaixonado por automobilismo desde os nove, é jornalista especializado em esportes a motor desde 1998. Estagiou no Jornal do Brasil e numa assessoria de comunicação antes de ingressar na Rede Globo. Em 2003, foi para o SporTV, onde foi editor dos hoje extintos programas Grid Motor e Linha de Chegada. No mesmo ano, iniciou sua trajetória como comentarista, estreando numa transmissão de uma corrida de Stock Car, realizada no saudoso Autódromo de Jacarepaguá. Há sete anos, está no Fox Sports, atuando como editor responsável do programa Fox Nitro e comentarista de diversas categorias, entre as quais Rali Dakar, Nascar, MXGP, WTCC, WRC, FIA WEC, IMSA, Fórmula E, WTCR e Superbike Series Brasil. Conduz o blog A Mil Por Hora, agora no GRANDE PRÊMIO, desde 2008.

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