Y dale Lole…

Y
Em Jacarepaguá, venceu o primeiro GP do Brasil disputado no Rio de Janeiro, com a Ferrari 312 T2

RIO DE JANEIRO – Tristeza imensa para nossos vizinhos da Argentina, para o automobilismo mundial e, principalmente para a Fórmula 1: morreu nesta quarta-feira o antigo piloto Carlos Reutemann. Com pesar, uma de suas filhas, Cora, confirmou a infausta notícia.

Carlos foi um dos grandes da história do automobilismo que jamais teve a glória de um campeonato do mundo de pilotos. Lutou muito para isso. Foi um ‘carne de pescoço’ para a maioria de seus rivais. Em 146 corridas que disputou, ganhou 12 delas. Fez seis pole positions, seis recordes de volta em prova e subiu ao pódio 45 vezes.

“Meu referencial era o Carlos. Toda vez que eu chegava numa pista, queria saber que tempos estava marcando. Ele era meu indicador”, contou uma vez Emerson Fittipaldi, bicampeão mundial de F1 e da Indy 500, em um livro autobiográfico.

Wilsinho Fittipaldi, que conviveu com Reutemann na Brabham, tinha outra opinião sobre o rival e colega de equipe. O Tigrão achava que ele tinha uma personalidade “estranha”. E de fato Reutemann era um piloto de altos e baixos. Nos seus dias, era simplesmente irresistível, imbatível. Noutras, fazia corridas absolutamente medíocres.

Sua trajetória no esporte começou no automobilismo doméstico de seu país, mas em 1970, com o generoso aporte da Yacimientos Petroliferos Fiscales (YPF), sem contar a propaganda que fazia para o mercado exportador de carnes, Reutemann chegou à Fórmula 2. Na antessala da categoria máxima, disputou três temporadas, 28 corridas e foi o vice-campeão europeu de 1971, atrás do sueco Ronnie Peterson.

Antes disso ele já estreara com um McLaren na categoria máxima: Carlos foi um dos participantes da corrida de 1971 em Buenos Aires que homologou a pista da capital para receber novamente a Fórmula 1. Quando estreou com o Brabham “Lobster Claw”, o BT34, fez pole logo na primeira corrida e venceu – extracampeonato – o primeiro GP do Brasil em Interlagos.

A simbiose entre Reutemann e Brabham foi razoavelmente boa – até 1975. Naquele ano, ele foi 3º colocado do campeonato, atrás apenas de Fittipaldi e do campeão Niki Lauda. Porém, no ano seguinte, a Brabham assinou com a Alfa Romeo para o fornecimento de motores e, enquanto o parceiro José Carlos Pace se matava na pista em muitos testes com a BT45 de motor 12 cilindros opostos, “Lole” parecia desinteressado. Na maioria das vezes, ia jogar golfe. E forçou sua saída, assinando com a Ferrari – o grande problema é que Niki Lauda era um de seus desafetos. Não se sabe por qual razão, mas o austríaco detestava o argentino.

“Lole” e Lauda só conviveram uma temporada inteira até que o então bicampeão foi para a Brabham. Pela Ferrari, Reutemann conquistou cinco vitórias, 13 pódios e foi 3º colocado do Mundial de Pilotos outra vez, em 1978 – atrás somente da dupla da Lotus, Ronnie Peterson e  o campeão Mario Andretti.

E quando o “Sueco Voador” morreu no GP da Itália, foi a Reutemann (primeiro Jean-Pierre Jarier, bem entendido) que a Lotus recorreu. Piloto e equipe assinaram um contrato de duração longa, mas o compromisso foi rompido ao fim do primeiro ano, onde o argentino fez uma ótima primeira metade de campeonato com quatro pódios, mas a falta de competitividade do Lotus 79 e também do modelo 80 – que jamais pilotou – pesou naquele campeonato.

Carlos assinou com a Williams. E encontrou não só um obstáculo – Alan Jones – mas vários outros, entre eles Nelson Piquet, Jacques Laffite, Didier Pironi e diversos outros adversários com bons carros, dependendo da ocasião. Em 1980, com vitória no GP de Mônaco e oito pódios, estabelceu seu 3º lugar no Mundial pela terceira vez. Mas, perto de completar 40 anos, ele decidiu peitar a hierarquia da equipe que defendia.

Em 29 de março de 1981, eclodiu a crise na equipe de Frank Williams: Jones e Reutemann venceram em 1-2 duas semanas antes em Long Beach, chovia cântaros no Rio de Janeiro e Carlos liderava em Jacarepaguá.

Foi dada placa de sinalização para a inversão de posições. Reutemann fez que não era com ele, seguiu em frente e após 2h de prova, venceu. Quarto triunfo do argentino no Brasil. Eu era um dos “arquibaldos” que levou chuva até a alma naquele dia. E que teve de aturar a gozação de torcedores ‘hermanos’ que nos gritavam ‘Y dale Lole’ e empunhavam bandeiras. A festa era deles, com toda razão e merecimento.

Mas Piquet deu o troco: venceu os GPs da Argentina e San Marino, ambos com atuação monumental. Só que Reutemann também triunfaria no GP da Bélgica e faltando seis etapas, o argentino tinha 17 pontos de vantagem sobre o rival da Brabham (43 a 26).

O problema é que, entre quebras e acidentes, Reutemann só marcaria mais seis pontos naquela temporada e o brasileiro, 24 – mesmo quebrando em Monza, à frente do piloto da Williams, quando era 3º colocado.

Se houvesse um empate em pontos, Piquet seria campeão por ter uma vitória a mais, mas isso não foi necessário. Reutemann fez duas corridas ‘de cão’ em Montreal sob um toró épico e em Las Vegas, onde largara na pole. Nelson o superou sem qualquer dificuldade, chegou em 5º e levou o título de 1981.

“Perdi para o garoto que um dia limpou as rodas de meu carro”, lamentava Carlos.

E era verdade: em 1974, Piquet, então com 21 anos, foi uma espécie de faz-tudo para a Brabham por ocasião do GP Presdidente Médici – um triste nome para a corrida que inaugurou o Autódromo de Brasília,

Além de servir sanduíches, conseguir peças, soldas, macacos e tudo o mais, Piquet foi motorista dos mecãnicos e os levou para os puteiros da capital. E ele também polia as rodas dos BT44 de Wilsinho Fittipaldi e de Reutemann.

Carlos ainda disputaria mais duas corridas: foi 2º colocado na África do Sul, numa atuação excelente. Mas cometeu vários erros no GP do Brasil e decidiu se retirar, aos 40 anos completos, da categoria.

Reutemann não largou o esporte a motor de todo: fez aparições esporádicas no WRC (Mundial de Rally) em seu território e causou sensação com ótimos resultados. Em 1995, aos 53 anos, emocionou e enlouqueceu os torcedores de seu país ao guiar a Ferrari 412 T2 de 1994, que fora de Jean Alesi e Gerhard Berger. Carlos deu uma aula de pilotagem no molhado, virando tempos melhores que pilotos 30 anos mais jovens…

Depois, enveredou pela política. Foi primeiro senador da República Argentina e depois governador de seu estado natal, Santa Fe, pelo Partido Justicialista. Depois, mudaria para o “Macrismo”, do antigo presidente do Boca Juniors e também da Argentina, Mauricio Macri, que não se reelegeu. Carlos foi senador novamente, pelo Cambiemos. E seu mandato já estava expirado quando sua saúde começou a lhe trair.

Carlos Alberto Reutemann (1942-2021)

Já há alguns anos, Reutemann lutava contra problemas digestivos, especialmente hemorragias. Este ano de 2021 foi duríssimo para ele e seus familiares. Foram recorrentes as notícias de que sua saúde não vinha bem e ontem, terça-feira, ele entrou em estado crítco num hospital de Santa Fe. Veio a falecer hoje, aos 79 anos.

#RIP Godspeed

Sobre o Autor

Rodrigo Mattar

8 Comentários

  • Que pena, torci muito contra ele, especialmente em Jacarepagu´á / 1978, mas que grande piloto.

    Há uma nota muito contemporânea na carreira do argentino: em 1982, a Argentina era presidida por um mau militar, um ditador de quinta categoria (parece com o Brasil de hoje). Percebendo que ia ser derrubado, o Gen. Galtieri inventou uma guerra impossível pelas Ilhas Malvinas, tentando criar um ambiente nacionalista em que ele pudesse se manter no poder. Perdeu a guerra, o poder, mas, pior, perdeu a vida de centenas de soldados. Presidentes ruins criam guerras artificiais para se manter no poder.

    Mas Galtieri também acabou com a carreira de Reutemann, junto com emergentes argentinos que andavam bem na F3, como Mansilla.

    Não vi nenhum depoimento de Reutemann sobre isso, mas há vários outros na web, destes pilotos que, de um dia para outro, ficaram sem passaporte para viajar.

  • Obviamente por conta da idade (nasci exatamente em 1981) não acompanhei a trajetória dele. Contudo, este post mostra bem o quão importante ele foi para o automobilismo dos hermanos, como para a própria F1. Aliás,
    essas histórias das corridas realizadas no Brasil são sensacionais. Certamente ele está entre aqueles “grandes” que não foram campeões da categoria (como Gilles Villeneuve).
    Que agora descanse em paz!

  • Mattar,

    Confesso, com imensa vergonha, não saber que Reutemann nunca fora campeão de F1!!!

    Acompanho a F1 desde meados dos anos 80, lembro auge do Piquet sendo Tri, e nunca, nunca mesmo, se quer imaginei que “o argentino Reutemann” que ouvia meus familiares falando jamais tinha sido campeão. Cresci com essa certeza e, com o advento da Internet, nas pesquisas para matar a curiosidade sobre títulos e corridas antigas, nunca me atentei a esse “detalhe”.

    Isso só mostra o tamanho que Reutemann teve!!!

  • Boa noite, Rodrigo.
    Alguns comentários, se me permite:
    Interlagos/72 estava lá, Wilsinho liderou no início de BT33, depois no finzinho a 72 quebrou na nossa cara e entrou meio que ziguezagueando nos boxes, daí o Lole faturou na maciota.
    Pelo que li, o Lauda pegou bode justamente porque ele aceitou a vaga rapidinho pós Nurburgring/76.
    E com relação ao abandono da carreira no comecinho de 82, embora todos jurem que foi por conta das Malvinas, li noutro lugar que o próprio Patrick Head disse que o argentino havia perdido o gosto e o entusiasmo pelo esporte.
    Se bem que, vindo do Patrick Head soa até estranho, concorda?
    Abraço e bom final de semana prolongado.
    Zé Maria

  • Rodrigo,

    Excelente o teu texto sobre o Reutemann.
    Tenho a impressão que a Argentina nunca valorizou Reutemann a altura do que ele mereceu, como piloto, por conta de ele nunca ter vencido um campeonato mundial de F1.
    Voce pontuou muito bem o fato de Lole, no deus dias bons, ser tão rapido quanto os mais rapidos, mas nos seus dias ruis ser capaz de apresentar desempenhos mediocres. Essa inconstância de performance certamente pesou contra ele e dificultou a conquista do titulo.
    Outro ponto que você muito bem ressaltou foi o ocorrido em 1995. A Ferrrri levou levou para Buenos Aires, como carro reserva, um monoposto do ano anterior. Dai foi programado que Lole daria 2 ou 3 voltas de exibição antes do primeiro treino, sem compromisso de velocidade. O argentino, aos 53 anos e parado com a F1 a mais de 12 anos, não quis saber: sentou na barata e desceu a borduna, marcando tempos impressionantes. E não parou com 3 voltas, conforme programado, guiou até consumir toda a gasolina que tinha a bordo. Deu uma 5 ou 6 voltas !
    Isso foi outra característica do argentino: enquanto a maioria dos pilotos inicia o declínio pela faixa dos 36 anos, Lole guiou em plena forma até os 40 anos. Depois dos anos 60, poucos forma os pilotos que chegaram a essa idade sem perder velocidade, sem do Lole e Mansell os dois melhores exemplos dos que não tiveram queda de desempenho. E essas voltas em Buenos Aires, aos 53 anos, só corroboram essa tese.
    Há ainda outro fato a destacar: Lole tinha o respeito de grandes pilotos que foram seus contemporâneos, tais como Emerson, Pace e Gilles. Porem, a maioria deles destaca a convivência difícil nos boxes e a forma estranha como ele regulava o carro. Lole preferia o carro substerçante, e conseguia (da mesma forma que Prost) ser muito rápido com o carro regulado assim. Moco, quando chegou no team Brabham, dizia que o BT44 era inguiavél pra ele. Demorou até que ele conseguisse mudar o carro, projetado por Murray ao estilo do Lole, pra sair menos de frente (Moco, com toda a habilidade que Deus lhe deu, ficava a vontade com o carro sobresterçante), pra torna-lo mais neutro e ser rápido com ele.
    A primeira vez que vi o Lole guiando, ao vivo, fiquei impressionado com a velocidade dele com o Brabham BT36, na temporada de Formaula 2 de 1971, em Interlagos, onde o argentino liderou as baterias e deu muito trabalho a Emerson de Lotus 69 e a Peterson de March 712M. Ele andou bem mais rápido do que os 3 pilotos da Rondel Racing (G. Hill, Bob Wolleck e Tim Schenken guiando pra Ron Dennis ), que dispunham do mesmo modelo de Brabham, porem teoricamente com mais desenvolvimento e mais suporte de fabrica.
    Desde dessa época eu já notava que, enquanto os “especiais”, como Emerson, Peterson, Moco, guiavam mais de lado, Lole vinha sempre numa trajetória “redonda”, apoiada nos pneus dianteiros.
    A vida pessoal dele foi meio misteriosa, alimentada por diversas fofocas, que dizem, o fizeram desistir da campanha para presidente da Argentina, quando era o candidato favorito.

    Dia triste para o automobilismo,
    RIP Carlos Reutemann.

  • Xará, na autobiografia do Emerson Fittipaldi, ele comentou que em uma prova de F2 em Hockenheim, o Reutemann bateu no Lauda (que liderava) nas últimas voltas e foi xingado pela torcida alemã.

    Tá certo que a gente não deve levar a ferro e fogo a memória de um piloto mas… não seria por isso?

Por Rodrigo Mattar

Reclames

Perfil

Rodrigo Mattar, carioca de 49 anos. Apaixonado por automobilismo desde os nove, é jornalista especializado em esportes a motor desde 1998. Estagiou no Jornal do Brasil e numa assessoria de comunicação antes de ingressar na Rede Globo. Em 2003, foi para o SporTV, onde foi editor dos hoje extintos programas Grid Motor e Linha de Chegada. No mesmo ano, iniciou sua trajetória como comentarista, estreando numa transmissão de uma corrida de Stock Car, realizada no saudoso Autódromo de Jacarepaguá. Há sete anos, está no Fox Sports, atuando como editor responsável do programa Fox Nitro e comentarista de diversas categorias, entre as quais Rali Dakar, Nascar, MXGP, WTCC, WRC, FIA WEC, IMSA, Fórmula E, WTCR e Superbike Series Brasil. Conduz o blog A Mil Por Hora, agora no GRANDE PRÊMIO, desde 2008.

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