Fórmula 1 2021: o melhor campeonato dos últimos anos

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Uma das mais bacanas imagens da temporada – a celebração entre Alonso e Ocon na primeira vitória do francês e da Alpine na Fórmula 1 (Foto: reprodução Twitter/Alpine F1 Team)

RIO DE JANEIRO – Mil perdões a todos desde já, se carrego nas tintas deste título, mas não encontro outra descrição para o que é o Mundial de Fórmula 1 de 2021.

Não me refiro somente à disputa Hamilton versus Verstappen. Ela é a cereja do bolo de um grande campeonato. Que nos apresentou momentos incríveis até agora e nos surpreendeu com ótimas corridas onde e quando menos se esperava. O GP da Hungria foi um desses e, para o meu conceito, o melhor desde que o país entrou no calendário em 1986 para nunca mais sair.

Até pelo que se viu desde a largada, com o strike perpetrado por Valtteri Bottas e a imbecilidade de Lance Stroll, que tentou passar a Ferrari de Charles Leclerc onde não dava, culminando com uma surpreendente e histórica vitória da Alpine com o francês Esteban Ocon, quebrando vários tabus de uma vez só, a corrida já entra para o rol das melhores no circuito de Budapeste e também de toda a temporada.

Foi uma pena o acidente da largada? Talvez. Para a Red Bull, foi horrível, o pior cenário. Lando Norris perdeu uma sequência de 15 corridas na zona de pontos, um feito que nenhum outro piloto McLaren conseguiu na história cheia de glórias do time britânico.

E Bottas?

Pois é… é o Bottas que a gente conhece. Larga mal e ainda faz aquela cagalhofança desgraçada. Realmente não é o ano do piloto da Mercedes-Benz que, ao causar a colisão onde se envolveram ele, Norris e os dois carros da Red Bull – como descrito, Stroll e Leclerc se acharam noutro incidente – ajudou muito Lewis Hamilton. Propositalmente (não acredito nisso) ou não, mas ajudou.

É claro que Christian Horner, que já deitara falação em Silverstone, ficou tiririca porque Pérez abandonou e o carro de Verstappen recebeu danos que limitaram e muito a performance do holandês.

E depois da bandeira vermelha, houve ainda aquela largada surreal em que Hamilton, único com intermediários, partiu sozinho no grid e os outros 14 pilotos trocaram para pneus de pista seca. Depois a Mercedes mandou Lewis para o box e o britânico foi engolido pelo pelotão inteiro, incluindo a Alfa Romeo de Antonio Giovinazzi, que seria depois penalizado por excesso de velocidade no pitlane.

Daí o surrealismo da classificação até a volta #22, com Ocon liderando pela primeira vez um GP de Fórmula 1, a Aston Martin de Vettel em segundo e a… Williams (!) com Nicholas Latifi num incrível 3º lugar. E Hamilton lá na caixa-prego, em 13º lugar. Verstappen, não muito melhor, duas posições à frente e com um carro manco.

O “Comandante” só passou Mick Schumacher – que inclusive numa disputa de posição viu do que é capaz o senhor Max Verstappen – e aí com a primeira parada, o piloto entrou em modo “Hammer Time”. Na saída do box, passou numa só tacada a McLaren de um irreconhecível Ricciardo e também o rival da Red Bull. Só de superar o adversário, Hamilton já começava a a construir uma vantagem técnica e psicológica sobre o holandês.

Daí em diante, sem muita transição, Lewis superou as Williams e Mick vendeu caro a posição, sendo superado definitivamente na volta #24. Com um carro mais rápido que todos na pista, trucidou a diferença para Tsunoda e chegou a figurar à frente de Alonso após a parada do espanhol – que com 40 anos recém-completos no dia 29, voltou a liderar uma prova de Fórmula 1 desde… o GP da Hungria de 2014!

Lewis parou uma segunda vez na volta 48 e com pneus mais novos veio descendo o cacete para chegar em Alonso. E aí tivemos um pega histórico entre dois gigantes do automobilismo. Fernando, com classe, rechaçou quase todas as investidas de LH, mas não foi possível segurá-lo por muito tempo: acabou superado a cinco voltas do final e Lewis ainda teve fôlego para desalojar Carlos Sainz do 3º lugar final na pista.

Vettel tentou o que pôde para ganhar a liderança de Ocon, mas o francês de 24 anos e nascido em Evreux, na região da Normandia, levou o A521 com o nome da criação imortal de Jean Rédélé a uma vitória que entra para os compêndios em muitos sentidos.

Depois que a Renault mudou sua denominação esportiva para Alpine, é a maior vitória do construtor desde o triunfo de Didier Pironi e Jean-Pierre Jaussaud, nas 24h de Le Mans de 1978. É coincidência demais que a vitória de Ocon tenha sido logo após a morte de Jaussaud, que partiu na terça-feira passada aos 84 anos.

Também é a primeira vitória de uma combinação de carro, motor e piloto franceses em 38 anos – a última fora o GP da Áustria de 1983, com Alain Prost e o Renault Turbo RE40. E foi a primeira vez em que a Marselhesa tocou para piloto e equipe da França em 25 anos. Último: GP de Mônaco de 1996, com Olivier Panis e a Ligier.

Tem mais: Ocon é o 111º piloto de todos os tempos a triunfar em 72 temporadas de Fórmula 1. O piloto de 1,86 metro fez seu segundo pódio, liderou 65 das 70 voltas da corrida magiar e venceu pela primeira vez desde 2015, quando corria ainda na GP3 Series.

Outro dado curioso: Davide Brivio consegue sua primeira vitória como Team Principal da Alpine num espaço inferior a um ano de sua saída da Suzuki Ecstar MotoGP, onde fez de Joan Mir o campeão da categoria-rainha da Motovelocidade.

E dentro dos compêndios também está um fato que merece ser comemorado: a Williams pontuou e com seus dois pilotos! Nicholas Latifi é o quarto canadense de sempre na zona de pontuação e o 345º do rol. Ele tinha quatro pontos do 8º lugar e, por enquanto, tem seis de uma sétima posição, logo à frente de George Russell.

Inclusive, com essa pontuação dupla, a equipe de Grove, hoje sob o comando do grupo Dorilton, ultrapassou e muito a Alfa Romeo no Mundial de Construtores, o que é excelente para a divisão da receita com vistas ao campeonato de 2022.

Quando disse que “por enquanto” Latifi tem seis pontos e Russell, quatro, é porque a Aston Martin vai recorrer da desclassificação de Sebastian Vettel de seu 2º lugar e isso faz o resultado do GP da Hungria sub-judice pelo menos até o julgamento do apelo.

Vettel beija troféu no pódio em Budapeste: alemão foi desclassificado e a Aston Martin promete recorrer alegando haver mais combustível no reservatório que o alegado pela FIA (Foto: reprodução Twitter/Aston Martin Cognizant F1 Team)

Ocorre que o regulamento prevê que os Fórmula 1 têm de carregar no mínimo 1 litro de combustível para posterior análise técnica e os comissários encontraram somente 300 ml, quantidade insuficiente e que desclassificaria o alemão.

Otmar Szafnauer, Team Principal da Aston Martin, se fiava na informação dos técnicos de que sobrara cerca de 1,4 litro ou mais um pouco e que um problema na bomba de gasolina fez o carro #5 parar durante a volta de desaceleração. A FIA apreendeu o carro, a vistoria será feita com detalhes mais minuciosos e, numa polêmica – dentre muitas de 2021 – Vettel foi ‘reconduzido’ ao 2º lugar final e o recurso, julgado, pode mantê-lo na P2 ou então não ser aceito e a desclassificação oficalizada.

Isto posto, com a punição a Vettel, Lewis Hamilton chegará à Bélgica na volta das férias com oito pontos de frente (195 a 187) sobre Verstappen e – caso o recurso seja acolhido e o resultado devolvido oficialmente a Vettel, o total muda: 192 para o piloto da Mercedes-Benz e 186 para o da Red Bull. O evidente interesse da Aston Martin em manter o 2º lugar do alemão reside no seguinte: a equipe chegaria a 66 pontos com a Alpine descendo dois – indo para 75 e  a Alpha Tauri perderia quatro pontos – baixando a 64, a filial da Red Bull seria superada pelos verdes no Mundial de Construtores.

Sob todos os aspectos, as onze etapas fazem do Mundial de 2021 um campeonato incrível e, repito, um dos melhores dos últimos anos. Veremos as cenas dos próximos capítulos a partir da Bélgica e que papéis desempenharão os artistas do espetáculo.

Sobre o Autor

Rodrigo Mattar

4 Comentários

  • Voto com o relator…e culminou exatamente em ser a temporada em que a categoria muda de emissora e, inegavelmente, passa a ser muito melhor tratada pela nova casa. Isso num momento em que a categoria não conta com pilotos brasileiros.
    Não é pouca coisa. Sempre achei o ingresso da F1 caro, mas muito caro demais, ainda mais pelo que vinha oferecendo em troca nos últimos anos mas, se não houvesse a pandemia, este ano eu faria uma força e compraria uma entrada.

  • Na minha humilde opinião, esse é o melhor campeonato da “Era Hibrida” da F1.

    Um abraço Rodrigo.

    Sempre é muito prazenteiro ler o que você escreve.

  • Mattar,

    O duelo Alonso x Hamilton só não foi mais perfeito pq não teve seus comentários, sua empolgação e alegria em ver a disputa!!!

    Quando Hamilton começou a encostar em Alonso, na hora me veio na cabeça vc falando algo como a primeira frase do parágrafo que descreve a batalha entre os pilotos:

    “Lewis parou uma segunda vez na volta 48 e com pneus mais novos veio descendo o cacete para chegar em Alonso.”

    HE HE HE

Por Rodrigo Mattar

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Perfil

Rodrigo Mattar, carioca de 49 anos. Apaixonado por automobilismo desde os nove, é jornalista especializado em esportes a motor desde 1998. Estagiou no Jornal do Brasil e numa assessoria de comunicação antes de ingressar na Rede Globo. Em 2003, foi para o SporTV, onde foi editor dos hoje extintos programas Grid Motor e Linha de Chegada. No mesmo ano, iniciou sua trajetória como comentarista, estreando numa transmissão de uma corrida de Stock Car, realizada no saudoso Autódromo de Jacarepaguá. Há sete anos, está no Fox Sports, atuando como editor responsável do programa Fox Nitro e comentarista de diversas categorias, entre as quais Rali Dakar, Nascar, MXGP, WTCC, WRC, FIA WEC, IMSA, Fórmula E, WTCR e Superbike Series Brasil. Conduz o blog A Mil Por Hora, agora no GRANDE PRÊMIO, desde 2008.

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