WEC, 6h de Portimão: Toyota se impõe no Algarve com cinco hypercars diferentes no top 5; United faz 1-2 na LMP2 e Corvette ‘bisa’ na LMGTE-AM em final acirrado

RIO DE JANEIRO – Foi melhor que a abertura do campeonato: a 2ª etapa do FIA WEC, as 6h de Portimão, no espetacular traçado do Autódromo Internacional do Algarve (AIA) já mostrou evolução na competição do Mundial de Endurance – em todas as categorias.

A Toyota ganhou de novo – e ganharia novamente em dobradinha não fosse a questão do sensor de torque do carro #7 do trio Mike Conway/Kamui Kobayashi/José María López, que precisou ser resolvida na garagem e fez a tripulação perder sete voltas nos boxes, abrindo caminho para o triunfo de Sébastien Buemi/Ryo Hirakawa/Brendon Hartley, os atuais campeões mundiais de pilotos.

Mas, desta vez, em que pese o distanciamento em relação aos demais construtores da principal classe, os outros Hypercars diminuíram a desvantagem – embora ainda apresentem, aqui e acolá, problemas. A Ferrari perdeu a chance de ter seus dois 499P no pódio por conta de uma falha nos freios, por exemplo. Esses problemas do Toyota e de um dos carros da marca italiana proporcionaram um momento raro: cinco construtores diferentes no top 5, o que não aconteceu jamais na Hypercar em anos anteriores por falta de inscritos, também.

A Ferrari desta vez só perdeu uma volta em relação à Toyota e tem que estar satisfeita com mais um 2º lugar do trio Nicklas Nielsen/Antonio Fuoco/Miguel Molina, seguidos do 963 LMDh da Porsche com Kévin Estre/Laurens Vanthoor/André Lotterer, que no mesmo fim de semana da vitória da Penske na IMSA deram mais um pódio ao “Capitão” Roger, que estava de corpo presente no Algarve.

Não obstante, o Cadillac V-Series.R de Earl Bamber/Richard Westbrook/Alex Lynn teve ótimos momentos na disputa – apesar de no confronto direto entre os protótipos do mesmo regulamento ter perdido dessa vez para a Porsche – e a Peugeot, que trocou o sistema elétrico do câmbio de seu inovador 9X8 por um acionamento hidráulico, saiu satisfeita com o bom 5º posto alcançado por Gustavo Menezes/Nico Müller/Loïc Duval – e mesmo o outro carro do construtor francês, que largou de último e tendo de esperar o pelotão completar uma volta inteira, perderia somente mais dois giros – normal, o #94 também perdeu – e chegou em sétimo.

A vitória deu ao trio do #8 a liderança do campeonato de pilotos com 53 pontos contra 42 de Fuoco/Nielsen/Molina e 40 de López/Conway/Kobayashi. Nos Construtores, a Toyota alcança 64 pontos de 65 possíveis, seguida da Ferrari com 42, Porsche e Cadillac ambas com 30, Peugeot em quinto com 13, Vanwall com seis e Glickenhaus, quatro.

A disputa das 6h de Portimão foi muito tranquila para a direção de prova capitaneada por Eduardo Freitas, exceto as advertências e punições por excesso de abuso dos limites de pista, alguns momentos de direção muito perigosa e por um único acidente, quando o Vanwall Vanderwell 680 guiado pelo antigo campeão de Indy, Indy 500 e Fórmula 1 Jacques Villeneuve teve o disco de freio dianteiro direito explodido e o canadense bateu de traseira numa barreira de pneus da curva 10 do circuito português. Foi a única oportunidade em que o Safety Car foi chamado.

Na LMP2, a United Autosports chegou à primeira dobradinha na classe, chutando para escanteio o insólito abandono do #23 em Sebring, quando a câmera de bordo cortou o sistema de ignição do protótipo Oreca 07 Gibson do time de Zak Brown e Richard Dean. Mas foi com emoção: o carro vencedor não tinha rádio e a comunicação no trecho final foi através da boa e velha placa de sinalização.

E foi exatamente com o mesmo carro da falha terminal nos EUA, só que com Giedo Van der Garde ajudando Josh Pierson e Oliver Jarvis na missão, com a ausência de Tom Blomqvist pela coincidência de datas com a IMSA em Long Beach. Filipe Albuquerque também não pôde competir em casa e no #22 foi substituído por Ben Hanley, que foi fundamental para deixar Frederik Lubin e Phil Hanson na liderança do campeonato com 56 pontos, dezesseis a mais que Mirko Bortolotti/Doriane Pin/Daniil Kvyat (Prema), que partiram da pole position, lideraram boa parte da disputa e chegaram em quarto desta vez.

A gestão de pneus foi outra vez um fator, além da distribuição dos stints e o ritmo dos pilotos. O Team WRT, que fora muito mal em Sebring, recobrou a forma e coadjuvou o pódio da United em dobradinha, com o 3º posto de Rui Andrade/Robert Kubica/Louis Déletraz, que estão em quarto na classificação.

As disputas nessa subdivisão foram muito mais acirradas que em Sebring, houve momentos de manobras incríveis, pelotões de cinco e até seis carros andando próximos e algumas demonstrações de excesso – o ídolo local Antonio Félix da Costa, no carro hors-concours da Hertz Team Jota, quinto na classe em posição de pista, chegou a ser duramente advertido por Eduardo Freitas e o colégio de comissários do FIA WEC por manobras perigosas de defesa de posição.

Os brasileiros não tiveram o que comemorar: a Alpine continua com um início de temporada muito abaixo da expectativa e o #35 de André Negrão ficou com o 11º posto entre 12 carros – porém como o #48 não pontua, ele e os parceiros Memo Rojas Jr. e Oliver Caldwell ficaram com a décima posição e marcaram assim o primeiro pontinho do ano.

Pietro Fittipaldi fez a segunda melhor volta da corrida na categoria com 1’35″272, somente 0″026 abaixo da marca de Oliver Jarvis. Mas faltou alguma coisa à corrida do #28 da Jota, que navegou entre nono e décimo e terminaria, por conta da questão da gestão dos pneus Goodyear, em 17º na geral e oitavo na classe (sétimo para efeito de resultado). Talvez pudessem estar mais à frente se o resultado na sessão de classificação fosse outro.

Na LMGTE-AM, a Corvette Racing ganhou de novo com o C8.R, mesmo com o #33 lastreado por 30 kg adicionais por conta da liderança do campeonato e a vitória em Sebring, na abertura do Mundial. O trio Ben Keating/Nicolás Varrone/Nicky Catsburg administrou muito bem o equipamento e Catsburg, mesmo com pneus de muitas voltas, teve uma ótima condução do carro na defesa de posição contra a Ferrari #83 da Richard Mille-AF Corse, que teve de usar já em Portimão o carro preparado para Le Mans.

Seria inclusive a primeira vitória de uma pilota em 80 provas disputadas na série, mas Alessio Rovera, que estava a bordo do bólido que conduziu junto a Luis Perez-Companc e Lilou Wadoux, não tinha tração suficiente para derrotar o holandês. A diferença final foi de apenas 0″260 entre eles após 206 voltas percorridas.

E o pódio da classe de Grã-Turismo seria histórico: não só Lilou Wadoux ficou em segundo, como as Iron Dames Sarah Bovy/Rahel Frey/Michelle Gatting tiveram ótimo desempenho para terminar em 3º lugar. Quatro mulheres entre nove pilotos no pódio. Representatividade. Afinal, a mulher pode estar onde ela quiser.

No mais, as outras Ferrari 488 GTE EVO da AF Corse andaram bem: a #21 liderou no início com Diego Alessi a bordo entre os pilotos bronze, mas fechou em quinto na classe. Em contrapartida, a #57 da Kessel-Car Guy não teve ritmo e também se envolveu num enrosco com o Aston Martin da D’Station Racing que resultou em punição. Takeshi Kimura/Scott Huffaker/Daniel Serra ainda conseguiriam o 10º lugar na classe. Com esse ponto, ficam em 5º na tabela, com 24 pontos.

Entre os outros Porsche 911 RSR-19, destaque para o bom 6º posto da Project 1-AO graças ao empenho dos locais Miguel Ramos e Guilherme de Oliveira, que desempenharam bom papel junto a Matteo Cairoli, substituindo P.J. Hyett e Gunnar Jeannette, comprometidos com a IMSA – e Hyett, inclusive, nem largou em Long Beach…

Já os Aston Martin seguem devendo. Além do abandono da D’Station, o #98 da NorthWest AMR novamente não pontuou e quem salvou as coisas foi o #25 da ORT by TF, que figurou com a oitava colocação em Portimão.

Para Spa e Le Mans, as próximas corridas da temporada 2023, o BoP contemplando as modificações de peso e potência dos Hypercars pode sofrer um reajuste. É o que diz o site Endurance-info.com. O Comitê de Endurance da FIA deve deliberar a respeito e publicar uma nova tabela. Isso pode causar um efeito muito positivo para as próximas corridas.

Por fim, deixo por último o agradecimento por fazer novamente parte de uma transmissão do FIA WEC no canal oficial da categoria no YouTube, para o público brasileiro. Agradecer pela confiança, pelo carinho que a maioria demonstrou e que é possível trazer ao fã de automobilismo no país um evento de qualidade.

Que venha Spa!

Comentários

  • Achei a corrida no Algarve com maior dominância da Toyota do que em Sebring.

    Lá a Ferrari pelo menos arrancou a pole e se não fosse a estratégia esquisitíssima talvez tivesse andado mais sossegada logo atrás das duas Toyotas.

    Em Portimao a Ferrari foi sempre bem mais lenta.

    • Talvez a Toyota tenha ido pra classificação “com um pé atrás ” em Sebring, talvez por achar que as novas marcas não viriam. Já pra Portimão acredito que tenha vindo com mais força, desde a classificação. Mas o fato de im dos carros ter apresentado problema mecânico pode demonstrar que a Toyota tbm está trabalhando no limite, já que eles já tem a mão do carro há pelo menos 2 anos.

  • Rodrigo, e essa história do WEC em Interlagos para 2024 com corrida em Setembro do ano que vem? Como estão(se estão) as fofocas de bastidores?

    Parabéns pelas transmissões no YT do WEC