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28 de novembro de 2013 - 15:38Carros

A história do Democrata

RIO DE JANEIRO - Há menos de 10 dias, o Flavio Gomes postou em seu blog sobre o Democrata, falando que os irmãos Finardi ficaram com várias carrocerias e que elas permaneceram anos num terreno ao lado da oficina deles em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Tem mais: pode ser que alguém finalmente tenha comprado uma. O que é aguardado faz pelo menos sete anos.

Eu falei a respeito, inclusive, no meu primeiro e mais antigo blog, o Saco de Gatos, no dia 8 de março de 2006, num texto que reproduzo ipsis litteris aqui abaixo.

Hoje cedo, abrindo O Globo para a leitura diária, me deparei com uma interessante reportagem de capa no caderno Carro e Etc. sobre um automóvel que nunca foi fabricado em série no Brasil: o Democrata (foto abaixo).

Lembro de ter comprado uma Quatro Rodas bem antiga, acho que de 1968, num sebo da Praça Tiradentes. E essa revista trazia fotos e uma matéria sobre o carro, totalmente difamatória, dizendo que ele não existia.

O Democrata foi fruto de uma ideia ambiciosa do empresário Nelson Fernandes, à época proprietário de um clube de campo e de um hospital em São Paulo. Ele queria fabricar automóveis modernos e nacionais, diferentemente dos carros defasados ou licenciados por montadoras estrangeiras que aqui existiam. Num terreno de 300.000 metros quadrados em São Bernardo do Campo, ele fundou a Indústria Brasileira de Automóveis Presidente (IBAP).

Em plena 1964, um carro Democrata produzido por uma indústria de nome Presidente soava bastante irônico. A princípio, a empresa produziria três tipos de automóveis: um de apelo popular, com um pequeno motor de até 0,5 litro; o Democrata, em versões coupé duas portas e sedan de quatro portas; e um utilitário.

Contrariando o cronograma, o Democrata começou a ser “produzido” pela IBAP, para mostrar aos céticos e detratores que era possível a existência do modelo. Nelson idealizara, também, um sistema de cotas para que o projeto fosse adiante e ele precisava de pelo menos 87 mil acionistas. E de alguns carros rodando.

Os primeiros exemplares impressionaram pelas linhas modernas, inspiradas nas maiores tendências americanas e europeias da época. Em especial com o Chevrolet Corvair, onde os detratores viam a notável semelhança entre os dois modelos.

Comentou-se à época que os primeiros protótipos teriam sido montados sobre chassis e motores do Corvair – embora em alguns carros roncasse um motor italiano V-6 de 2,5 litros com cabeçote e bloco de alumínio (requinte absoluto para a época) e 120 HP. Isto faria do Democrata o carro mais potente e veloz do país.

Nelson Fernandes conseguira 50 mil acionistas à época em que a imprensa deflagrou uma feroz campanha contra o Democrata e a IBAP. As promessas de construção de 350 carros/dia e o baixo preço de venda prometido deixaram muita gente com a pulga atrás da orelha.

Tentando o salto maior, o empresário propôs a compra da FNM. Mas foi impedido e a Fábrica Nacional de Motores foi absorvida pela Alfa Romeo. A pá de cal aconteceu quando o Banco Central fez uma devassa na IBAP e mostrou, via laudo, que a empresa não possuía condições idôneas e técnicas para construir automóveis. Trocando em miúdos: crime contra a economia popular.

Nelson Fernandes desistiu do empreendimento em fins de 1968 e hoje, aos 75 anos de idade, é dono de um cemitério vertical no Paraná. E provavelmente ele ficará muito feliz em saber que um entusiasta pelos carros que nunca existiram quer reviver os Democrata: Alvaro Negri, paulista de São Bernardo do Campo, aliou-se ao mecânico José Luiz Finardi e, juntos, reformaram um dos coupés – que é sensação nas exposições de automóveis antigos.

Ainda existem três protótipos semidesmontados e 21 carrocerias que nunca receberam chassis e motores, esperando para ganharem vida. Alvaro está buscando interessados em ratear os custos da reconstrução dos carros – que devem sair por cerca de R$ 40 mil cada.

Raridades que, com certeza, terão um valor inestimável para todos os seus proprietários.

7 comentários

  1. Eduardo disse:

    História bacana, lembrei agora da trajetória do Tucker Torpedo, que foi parecida.

  2. Renato de Mello Machado disse:

    A história do democrata eu li na revista Oficina Mecânica,e bate com quê foi dito no post,e ainda tinha uma foto do motor,Eu acho pessoalmente até quê o projeto era mais realista e o carro era bom demais até. Só quê no Brasil naquela época não tinha tantos compradores com bala na agulha para o projeto deslanchar,e o motor sê fosse nos moldes do opala 4 cilindros,pôr exemplo a manutenção seria mais fácil e barata.

  3. Grande Mattar! Essa empresa é histórica, é o nosso Tucker! Ela fica relativamente perto de casa e to combinando com um conhecido de visitar o espólio. Assim que for, tiro fotos!

  4. Escrevi uma dissertação de mestrado pela PUC-RS sobre o Democrata e a IBAP, o título é INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA, POLÍTICA E DESENVOLVIMENTO: OS CASOS FNM E IBAP, está disponível em: http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2958 ou no meu blog

  5. Francisco Sena Manso F disse:

    Bom Dia .Acreditem,se quizer,eu estive em uma demonstracao do automóvel Democrata ,em Sao Paulo Capital, esta ,ocorreu no Largo Santo Ant’ónio do Parí,por volta dos anos 1962 /1964,nao lembro direito,sei que fiquei louco pelo carro era espetacular ,lindo maravilhoso,tudo que uma crianca queria ter quando crescer ,lembro que ,os representantes ,ou vendedores ,vendiam o sonho eram papéis tipo acoes da cia presidente e ,prometiam entregar os carros prontos ,oque eu vi ,foi um preto ,e tinha tanta gente….prá olhar e adimirar suas linhas arrojadas ,tenho muita saudades daqueles momentos de emocao ,quando falei para meu pai que era médico ali no bairro do Parí ,ele me disse isso é furada,,quem compra acoes desta fábrica perde dinheiro,,,,,fiquei desepcionado,com estas palavras de meu pai ,que preferi comprar os chevrovet Belair , 1951 2 portas sem coluna…preto com capota branca,chamado ,na época de saia e blusa….abs a todos e parabéns pela reportagem ,ainda tenho esperanca de ve-lo andando nas estradas brasileiras …

  6. GABRIEL disse:

    tinha dez anos e minha paixão era automóveis motos e aviões…. maldita politica continua até hoj enterrando nossos sonhos de independência total…..

  7. Izabel Freire disse:

    Meu Pai Carlos Freire foi um dos accionistas nunca receber ser dinheiro de volta

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