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5 de janeiro de 2015 - 13:16Fórmula 1, Memorabilia

Outsiders: Jean-Pierre Beltoise, um homem marcado pela morte

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RIO DE JANEIRO - O automobilismo começa 2015 de luto: morreu nesta segunda-feira aos 77 anos o francês Jean-Pierre Beltoise, vítima de um acidente vascular cerebral em Dacar, capital do Senegal. Cunhado de François Cevert, Beltoise deixa a viúva Jacqueline e dois filhos, ambos pilotos – Julien e Anthony.

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Com este Bonnet de motor Renault-Gordini, Beltoise disputou a primeira de 14 provas em Le Mans, chegando em 11º lugar na geral

Nascido Jean-Pierre Maurice Georges Beltoise em 26 de abril de 1937 na cidade de Boulogne-Billancourt, na região de Hauts de Seine, Beltoise começou sua carreira como motociclista. Em duas rodas, conquistou onze títulos nacionais com máquinas de 125 e 250cc, antes de ingressar no automobilismo já com 26 anos, em 1963, graças a René Bonnet. Naquele mesmo ano, disputou a primeira de um total de catorze edições nas 24h de Le Mans. Chegou em 11º logo na estreia com um Bonnet Aerodjet 6, partilhado com Claude Bobrowski. A partir de 1966 e pelos oito anos seguintes, desenvolveria uma ligação quase umbilical com a Matra, contudo sem conseguir ganhar uma única vez a lendária prova de Sarthe.

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Os primeiros passos na Fórmula 1 pela Matra

Após ganhar a Fórmula 3 francesa em 1965, o GP de Mônaco da mesma categoria em 1966 e a temporada argentina em 1967, Beltoise já estava pronto para o maior desafio de sua carreira: a Fórmula 1. Estreou no GP dos EUA, em Watkins Glen, com um Matra MS7 de Fórmula 2, chegando em 7º lugar tanto na prova estadunidense quanto no México. Em 1968, disputou sua primeira temporada completa. A bordo do Matra MS11 com motor V12, chegou em 2º lugar no GP da Holanda, em Zandvoort. Fechou o campeonato em nono lugar, com 11 pontos.

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A bordo da Matra Simca MS120 em 1970, duelando com o antigo parceiro de equipe Jackie Stewart

A temporada de 1969 foi a melhor do piloto francês na Fórmula 1. Dividindo a equipe Matra-Ken Tyrrell com Jackie Stewart, Beltoise foi muito bem a bordo do Matra MS80 Cosworth V8. Chegou em 5º no Mundial de Pilotos, com três pódios, repetindo um 2º posto como melhor resultado do ano, agora no GP da França, em Clermont-Ferrand, além de dois terceiros em Montjuich (Espanha) e Monza (Itália). Com a volta do motor V12 aos carros do construtor francês, Jean-Pierre passou a dividir a equipe Matra em 1970 com o compatriota Henri Pescarolo. Foi duas vezes terceiro, em Spa e Monza, chegando em nono no Mundial de Pilotos, com 16 pontos somados.

Aí veio o ano de 1971 e com ele, logo no início da temporada, uma tragédia das grandes. Era o dia 10 de janeiro e Beltoise, ao lado de Jean-Pierre Jabouille, participava da abertura do World Sportscar Championship com um Matra MS660. Na altura da 36ª volta, acabou a gasolina do carro do francês e ele, de forma um tanto quanto imprudente, desceu do protótipo e começou a empurrá-lo.

Nisso, o italiano Ignazio Giunti, a bordo da única Ferrari 312PB inscrita na prova, vinha se aproximando e, com a visão prejudicada pelo carro de Mike Parkes, que estava à sua frente, não teve como se desviar do Matra. O choque foi violento e os dois carros se transformaram em verdadeiras bolas de fogo. Giunti morreu instantaneamente e a imprensa italiana, que até hoje jamais perdoou Beltoise, pediu uma punição dura para o piloto francês. A FIA suspendeu-o por seis meses, com sursis. O episódio prejudicou toda sua temporada na Fórmula 1: 21º colocado, com um único ponto somado no GP da Espanha, o piloto ficou fora de quatro corridas. A Matra reduziu o programa na categoria para um carro e Beltoise buscou abrigo na BRM.

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A primeira e única vitória de Jean-Pierre Beltoise na Fórmula 1 foi também a derradeira conquista da BRM

Pelo já decadente construtor inglês, com os carros pintados nas cores da Marlboro, Jean-Pierre fez a maior exibição de sua carreira: venceu de ponta a ponta, sob uma chuva inclemente, o GP de Mônaco de 1972. Foram seus únicos nove pontos na temporada, o que pôs a BRM em 7º lugar no Mundial de Construtores. Na temporada seguinte, o francês terminou o ano em décimo, com o quarto posto no GP do Canadá como melhor resultado.

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A morte de François Cevert, amigo e cunhado, foi um baque para Jean-Pierre Beltoise

Foi em 1973 que Beltoise sofreu outra grande perda no automobilismo: o cunhado François Cevert, irmão de sua mulher Jacqueline, morreu num dos treinos do GP dos EUA, em Watkins Glen. Os dois eram grandes amigos, se gostavam muito e a afinidade entre eles ia além dos laços familiares. Beltoise sentiu muito a morte de François e decidiu que 1974 seria sua última temporada na Fórmula 1.

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Com a BRM P201, subiu ao pódio pela última vez no GP da África do Sul, em Kyalami

A bordo primeiro do modelo P160E e depois da P201, Jean-Pierre ainda fez boas corridas: foi 5º na Argentina e na Bélgica e segundo no GP da África do Sul, conquistando o último pódio da história do time de Sir Louis Stanley. Antes da despedida no GP dos EUA, em Watkins Glen, o piloto participou da temporada final da Matra nos Protótipos, ganhando os 1000 km de Paul Ricard, Nürburgring e Brands Hatch, ajudando o construtor francês a repetir 1973 e vencer o WSC entre os Construtores.

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Com o Inaltera-Ford GTP: 8º colocado nas 24h de Le Mans de 1976

Em 1975, Beltoise passou ao volante de um Ligier JS2 Cosworth em Sarthe. Ao lado de Jean-Pierre Jarier, colecionou mais um de um total de sete abandonos na prova. Bandeou-se para os Inaltera GTP e foi 8º na edição de 1976 das 24h ao lado do amigo Henri Pescarolo. Nesse mesmo ano, venceu o Campeonato Francês de Superturismo com uma BMW.

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A despedida, aos 42 anos: décimo colocado em Le Mans com um Rondeau M379 Cosworth

Nos últimos anos da carreira, Jean-Pierre repetiu o título do Francês de Superturismo e ainda disputou mais duas vezes as 24h de Le Mans: chegou em 13º ao lado de Al Holbert em 1977 e dois anos depois, já com 42 anos de idade, fez sua aparição final em Sarthe, terminando em 10º na geral e segundo no Grupo 6 acima de 2 litros a bordo de um Rondeau M379 dividido com Henri Pescarolo.

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Seu cartel na Fórmula 1 nos diz que Beltoise disputou 85 GPs no total, com uma vitória, quatro melhores voltas em prova, oito pódios, 37 abandonos, 77 pontos somados, 101 voltas na liderança e um total de 4.069 voltas percorridas, perfazendo quase 20 mil km a bordo dos carros da categoria máxima do automobilismo.

7 comentários

  1. Ronaldo disse:

    Mais um sobrevivente que se foi.

  2. Marcelo Dias disse:

    Vi agora o video do tal acidente mortal. Que imbecil! Nem o Nakajima faria uma idiotice tão grande!

  3. Walter S. disse:

    Obrigado pelo belo obituário a um dos meus ídolos de infância.

    Giunti vinha colado na 512-S do Mike Parkes, traseirona alta bem à sua frente, e não viu o carro de Beltoise. Quando Parkes moveu seu carro para dentro da curva, Giunti simplesmente seguiu o traçado e talvez nem tenha visto no que bateu.
    Para quem não acompanha provas de endurance ou é jovem a menos tempo, é bom saber que era comum na época o piloto empurrar o carro em casos de falta de gasolina ou pneu furado.
    Imbecil é julgar os atos daqueles tempos com a ótica e a ética de hoje em dia.

  4. sinval disse:

    Beltoise e BRM

    “inesquecíveis”

  5. gilmar disse:

    Cervert, não era um imbecil, foi uma fatalidade sua morte…..

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