Aposta de risco ou tiro no pé?

A

SÃO PAULO – Confesso que não achava que fosse acontecer: a Fórmula 1 entra de férias e temos a bomba para a próxima temporada. A Aston Martin não tardou em encontrar um substituto para Sebastian Vettel e, dentre alguns dos rumores, estava esse. Fernando Alonso é quem estará na equipe britânica a partir de 2023, dividindo trabalhos com Lance Stroll.

Não deixa de ser tão curioso quanto chocante esse anúncio: afinal, Alonso parecia satisfeito na Alpine e surpreende ao assinar um acordo de múltiplos anos – dizem que três – com uma equipe que, desde que trocou de nome e deixou de se chamar Racing Point, ainda não esteve à altura do investimento pesado de Lawrence Stroll para trazer a AMR a outro patamar dentro da Fórmula 1. O dono da companhia apostou num campeão do mundo, Vettel, que se retira. Agora, traz outro campeão, Alonso, para seu lugar.

Décimo no campeonato deste ano com 41 pontos, vindo de oito GPs consecutivos no top 10, Fernando é o decano da F1 com 41 anos, 347 GPs disputados (inclusive ainda este ano supera a marca de Räikkönen, recordista absoluto com 350), 32 vitórias, 22 p´oles, 23 recordes de volta, 98 pódios e dois títulos mundiais. É um currículo fortíssimo, mas a idade pode cobrar a conta e além de tudo é uma aposta que pode não se pagar: nesse ano, a Aston Martin só está na frente da Williams no Mundial de Construtores.

O CEO da Alpine Louis Rossi parecia confiante em ainda poder contar com Alonso para 2023 e além – e as peças no tabuleiro eram mexidas de forma a garantir ao promissor Oscar Piastri um assento na Williams no lugar de Nicholas Latifi e seus muitos dólares, que não são garantia de talento e resultados do canadense. Mas o australiano de 21 anos, que trocou a possibilidade de ser titular noutras categorias pelo posto de piloto reserva que quase não anda e de testes que quase não treina, pode ter a grande chance da vida: ser titular da equipe dirigida por Otmar Szafnauer ano que vem dividindo o time com Esteban Ocon.

A Williams, por seu turno, pode trocar o dinheiro de Latifi pelo talento de uma emergente promessa da Fórmula 2 – e não estamos falando de Felipe Drugovich, cujo nome ganha força para ser piloto de testes e reserva da Aston Martin em caso de título nesta temporada. E sim de Logan Sargeant, que é estadunidense como o Liberty Media, dono da categoria máxima e como o Dorilton Capital, o grupo de investidores que comanda a tradicional escuderia britânica, cuja gestão de pista está entregue a Jost Capito, antigo chefe da Volkswagen no WRC.

Uma outra possibilidade é a de Mercedes e Williams entrarem em acordo e Toto Wolff encaixar Nyck De Vries no posto de Latifi – o que não seria descabido – ou até mesmo no lugar de Alex Albon, que ainda não está seguro para 2023. A Mercedes precisa preparar um piloto para substituir Lewis Hamilton – e se o holandês, atualmente na Fórmula E, não pôde ir à Aston Martin porque Lawrence Stroll optou pela experiência de Alonso, existe ainda a Williams como possibilidade de ofertar a ele algumas horas de voo antes de assumir o cockpit de LH futuramente, quem sabe daqui a dois anos. Outro detalhe: De Vries já tem 27 anos de idade – e que outro piloto estaria no radar da Mercedes para suceder Hamilton, outra vez que os demais nomes (Verstappen, Norris e Leclerc, por exemplo) já têm contratos de longo prazo com suas escuderias?

E mais: em “on” à repórter da Band na Fórmula 1 Mariana Becker, o Team Principal da McLaren Andreas Seidl afirmou que o destino de Daniel Ricciardo será continuar na McLaren pelo menos até o fim de 2023. Isto deve definir o rumo do mercado de pilotos e, a menos que haja outras surpresas nada boas para alguns e excelentes para outrem, possivelmente seguiremos vendo Zhou na Alfa Romeo, Tsunoda em mais um ano na AlphaTauri e Mick Schumacher na Haas junto a – talvez – Kevin Magnusssen.

Quanto a Alonso, fica a pergunta do título do post: aposta de risco do piloto e da Aston Martin ou tiro no pé do próprio espanhol?

Sobre o Autor

Rodrigo Mattar

4 Comentários

  • Xará, em um exercício de futurologia, para mim é tiro no pé. Tiro no pé pois a equipe é 100% focada no Lance Stroll e se o Fernando Alonso pensa que vai deitar e rolar sobre o filho do novo patrão… é melhor mudar de ideia.

  • Nem aposta de risco e nem tiro no pé. Equipe nenhuma faz aposta de risco quando contrata um piloto como Alonso, ainda agora depois de retornar que parece estar bem mais sociável. O talento é inegável e ainda vai produzir boas temporadas. Alonso também sabe que já está na rabeira da carreira, nenhum time grande tem espaço pra ele, Alonso = águas passadas para os times da ponta.

    Alonso quer ficar em atividade na F1 acabou de garantir no mínimo mais 2 anos.

    Se existe algum risco é apenas de passar vergonha do ponto de vista esportivo, caso a equipe continue com essa porcaria de carro.

  • Aposta exótica, de ambos os lados.

    Eu jurava que Alonso ficaria mais um ano na F1 com a Alpine e depois iria para o WEC ou IMSA com eles, mas isso comprova que pra ele só existe F1 agora.

    Será q desistiu da Indy 500?

  • Pra mim essas carreiras longevas sem chances de vitória vão de encontro ao que Bernie Eclestone falou do Hamilton quando esse se enveredou pelas artes, de que em lugar nenhum ganharia tanto dinheiro quanto na F1, o que vale para todos os pilotos. Nas outras categorias os salários são uma pequena fração da F1. Então melhor para o Alonso andar na rabeira da categoria, do que ser campeão do WEC. Difícil largar o osso.

Por Rodrigo Mattar

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Perfil

Rodrigo Mattar, carioca de 49 anos. Apaixonado por automobilismo desde os nove, é jornalista especializado em esportes a motor desde 1998. Estagiou no Jornal do Brasil e numa assessoria de comunicação antes de ingressar na Rede Globo. Em 2003, foi para o SporTV, onde foi editor dos hoje extintos programas Grid Motor e Linha de Chegada. No mesmo ano, iniciou sua trajetória como comentarista, estreando numa transmissão de uma corrida de Stock Car, realizada no saudoso Autódromo de Jacarepaguá. Há sete anos, está no Fox Sports, atuando como editor responsável do programa Fox Nitro e comentarista de diversas categorias, entre as quais Rali Dakar, Nascar, MXGP, WTCC, WRC, FIA WEC, IMSA, Fórmula E, WTCR e Superbike Series Brasil. Conduz o blog A Mil Por Hora, agora no GRANDE PRÊMIO, desde 2008.

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