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28 de março de 2013 - 11:02Fórmula 1, Memorabilia

Saudosas pequenas – Andrea Moda

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Alex Caffi foi o primeiro “piloto” do time, que entrou na F1 comprando os carros Coloni; Bernie Ecclestone proibiu a iniciativa

RIO DE JANEIRO - Mais de vinte anos se passaram desde que esta equipe entrou na Fórmula 1 e saiu dela pela porta dos fundos. Até os anos 90, a categoria foi pródiga em misturar equipes profissionais até a raiz do cabelo com arrivistas e outros tipos sem muito crédito, dispostos a se promover. Foi o caso de Andrea Sassetti e sua Andrea Moda, uma equipe com cheiro de fraude.

Então com 32 anos, empresário da vida noturna e também dono de uma indústria de calçados, Sassetti tornou-se dono de equipe pelo viés mais prático: comprou a preço de banana a Coloni, que por dois anos consecutivos (32 corridas) não se classificou para NENHUMA delas. Foram os tempos do fracassado projeto do motor 12 cilindros boxer com a Subaru-Motori Moderni e do português Pedro Matos Chaves. Sassetti, tão logo comprou o time, anunciou o leasing de motores Judd V10 e a contratação de dois pilotos italianos: Enrico Bertaggia e Alex Caffi.

A primeira aparição da Andrea Moda como equipe de F-1 não foi no GP da África do Sul e sim no Bologna Motor Show – um evento onde, numa pista improvisada, os carros dos times pequenos da Itália (Minardi, Dallara, Fondmetal e Andrea Moda) competiam entre si. Daí é que o time foi para Kyalami para disputar a primeira etapa. E veio também a primeira polêmica entre a recém-criada escuderia e quem mandava na Fórmula 1, leia-se Bernie Ecclestone.

À época, a associação dos construtores exigia um depósito-caução de US$ 100.000 para qualquer equipe nova. Alegando que tinha comprado a Coloni e a propriedade intelectual de seus chassis, Sassetti não queria pagar a quantia. Lutava por seus direitos e dizia que a March voltara ao nome original após se chamar Leyton House, sem qualquer beligerância. E que a Arrows mudara de nome para Footwork. O caso da Andrea Moda, segundo ele, seria igual ao das outras duas escuderias. Mas para Ecclestone, não era assim que a banda tocava. E contrariar o baixinho inglês é sempre complicado…

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A equipe apareceu em Kyalami no começo do campeonato, mas foi proibida de andar com o C4 da Coloni no México

Enfim… um único carro foi à pista com Alex Caffi na África do Sul, pelo menos para dar algumas voltas. Mas a FIA entrou em ação e vetou a estreia da Andrea Moda. Sassetti, a contragosto, pagou a quantia exigida por Ecclestone e logo partiu para a construção de um carro novo, pois o tempo urgia e ainda em março viria o GP do México, 2ª etapa do campeonato.

O italiano encomendou ao escritório de projetos Simtek (ora vejam…) a construção do modelo S921 – que na verdade era o carro que a BMW chegara a encomendar para uma possível aparição do time bávaro na Fórmula 1 em 1990 e depois descartada. Com as devidas atualizações, Wirth fez o que foi possível e os chassis foram enviados às pressas para a terra dos hermanos Pedro e Ricardo Rodríguez.

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O primeiro Andrea Moda ficou pronto… APÓS o GP do México

Enquanto Caffi e Bertaggia aproveitavam para renovar o bronzeado, a equipe trabalhava de sol a sol para terminar a montagem do S921. O que só foi feito – e isso é verdade absoluta – APÓS a corrida. Os pilotos sentiram que a armação tinha ido longe demais para eles e caíram fora. Sassetti se defendeu que os tinha despedido. E sem piloto algum, a Andrea Moda veio para o GP do Brasil, em Interlagos. Aqui, achou logo um substituto ideal: o “pau pra toda obra” Roberto Pupo Moreno.

A participação da equipe na 3ª etapa do campeonato foi outro drama. Consta dos anais do automobilismo uma deliciosa história contada pelo competente jornalista Luiz Alberto Pandini, que conhecia Sylvio Romero, integrante da equipe. Sylvio foi um obscuro piloto de Fórmula Ford nos anos 80 e 90, que construiu seu próprio carro – o Rocom 1 - na sala de casa, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Depois ele se deu conta de que não conseguiria descer o monoposto no elevador…

Pois bem: Romero era um dos “engenheiros” da Andrea Moda e o panorama nos boxes era desalentador. Um ou dois mecânicos trabalhando e um chassi nu, completamente desmontado, sem motor, suspensão, nada. Panda, curioso, perguntou a Sylvio se o carro ficaria pronto. “Vamos varar a madrugada montando o carro, para fazer um shakedown no Autódromo de Jacarepaguá”. O dia era, incrivelmente, 1º de abril.

Para nenhuma surpresa do Pandini, o carro não ficou pronto, mas tinha algumas coisas montadas nele. E como todo bom jornalista, o Panda perguntou de novo quando o Andrea Moda ficaria pronto. “Ontem tivemos um probleminha, mas hoje vamos montar tudo e levar o carro para a pista de testes da Varga (em Limeira, interior de São Paulo) para o shakedown.”

Nada feito: o carro não ficou pronto e aí nosso bravo Pandini sentiu cheiro de armação no ar. E emendou para um resignado Sylvio Romero a pergunta fatal:

“E aí, vai andar?”, no que foi respondido: “Vamos trabalhar agora para fazer o carro andar no Campo de Marte.” Panda se segurou para não achar graça e no dia seguinte não se surpreendeu ao ver o carro desmontado, mas quase pronto. Mas se assustou com a resposta de Sylvio Romero.

“Agora é ver se vai andar na pista. Isso, se conseguir sair do lugar.”

Com um carro apenas e Perry McCarthy impedido de treinar, pois a FIA não lhe concedera a Superlicença, Moreno, que se alimentava nos boxes com uma maçaroca de banana amassada, mel e farinha láctea esperando o carro ser montado, teve a impossível missão de levar o carro para os treinos oficiais.

Moreno deu pouquíssimas voltas e virou tempos vergonhosos para um Fórmula 1. Só pra se ter uma idéia, ele foi mais lento que o pole position da última etapa do Sul-Americano de Fórmula 3 disputada em Interlagos meses antes. E seu treino terminou com a alavanca de câmbio na sua mão direita…

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É… quebrou… Perry McCarthy olha pro infinito como quem diz “aonde vim me meter”

Em Barcelona, na Espanha, finalmente a Superlicença é concedida a McCarthy. A equipe conseguiu aprontar um segundo carro e o piloto do #35 sentou no S921. Engatou a primeira marcha e… pá! Quebrou após andar três metros!

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Motor deixa Roberto Pupo Moreno na mão em Barcelona

Moreno, que já não ia muito com a cara do britânico, que tinha uma personalidade arrogante demais para quem chegara à Fórmula 1 naquelas condições, também não teve a mesma sorte: o motor de seu carro foi para o espaço e ele não se pré-qualificou.

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Até que em San Marino o McCarthy percorreu alguns metros

Em San Marino, os dois treinaram. Treinaram é modo de dizer: Moreno ficou a sete segundos e 101 milésimos do melhor tempo e McCarthy a risíveis quinze segundos e 695 milésimos. E veio Mônaco.

Sabiamente, a Andrea Moda concentrou seus esforços em Roberto Pupo Moreno, pois sabia que se existia uma chance do S921 correr num Grande Prêmio, o circuito de Monte-Carlo era o ideal. E veio o primeiro espanto: na pré-qualificação, Moreno desalojou dos 30 que iam para os treinos oficiais a Larrousse-Venturi de Ukyo Katayama.

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Gênio: Moreno coloca o Andrea Moda S921 no grid do GP de Mônaco

No primeiro treino classificatório, o segundo espanto: com o tempo de 1’24″945, Moreno consegue a vigésima marca entre os trinta carros aptos a qualificar. O prêmio para o brasileiro vem das demais equipes: ele foi aplaudido unanimemente por engenheiros, mecânicos e dirigentes por seu extraordinário esforço. No entanto, seu tempo não melhora e na segunda sessão, Moreno cai na classificação. Acaba com o último lugar no grid, à frente das Brabham de Eric Van de Poele e Damon Hill (sim, ele mesmo!), do Fondmetal de Andrea Chiesa e da March de Paul Belmondo. O Baixo era demais!

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A corrida acabou para o brasileiro após apenas onze voltas

O milagre da classificação foi precedido por um problema nos boxes. Moreno dera tantas voltas com a Andrea Moda nos treinos que era impossível prever quanto tempo o carro ficaria na pista durante a corrida. Só do S921 largar, era uma vitória. E assim foi: como no início muitos pilotos abandonaram, Moreno chegou até a 19ª posição na 12ª volta, quando o motor, envolto numa nuvem de fumaça, quebrou e ele teve que desistir.

A façanha de Moreno faz com que alguns patrocinadores apareçam na Andrea Moda, mas Sassetti começa a dar as caras como um dono de equipe de cunho duvidoso: falha o pagamento à Engine Developments de John Judd, que se recusa a fornecer os motores para o time disputar o GP do Canadá. Às pressas, a equipe consegue uma unidade emprestada pela Brabham, mas só para Roberto Pupo Moreno. O motor durou quatro voltas no S921, antes de fundir.

Novo problema para o GP da França, e não é técnico ou financeiro: uma greve de caminhoneiros bloqueou as estradas que levavam ao circuito de Magny-Cours. As demais equipes conseguiram encontrar um atalho e chegaram a tempo dos primeiros treinos. A Andrea Moda, não. Os equipamentos ficaram presos no engarrafamento e os patrocinadores, insatisfeitos com a ausência da equipe, foram embora.

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Equipe perde todos os patrocinadores após a ausência no GP da França e tem que recomeçar do zero

Em Silverstone, uma trapalhada histórica: os dois carros foram para a pré-qualificação mais uma vez e McCarthy, sempre ele, foi tentar a sorte com pneus biscoito numa pista que já secava. Como sói, ele ficou a VINTE E SETE SEGUNDOS da pole position de Nigel Manselll. Um escárnio!

No GP da Alemanha, outra história folclórica envolvendo McCarthy: o piloto se distraía com um Super Nintendo nos boxes e perdeu a pesagem. Foi desclassificado. Roberto Pupo Moreno, por mais que se esforçasse, ficou novamente de fora.

Em Hungaroring, com a saída de Eric Van de Poele da Brabham, a Fórmula 1 ficou restrita a 31 carros. Isto possibilitou a passagem de Moreno aos treinos oficiais e o brasileiro até que não fez feio com o carro que tinha: virou 1’22″286 em sua melhor passagem, apenas seis décimos mais lento que a Minardi de Alessandro Zanardi, que substituía Christian Fittipaldi, lesionado no pescoço desde o GP da França em Magny-Cours.

A coisa estava tão feia para a Andrea Moda que a equipe recebeu um ultimato da FIA: ou dava condições mínimas a Perry McCarthy ou seria excluída de forma sumária da Fórmula 1. E foi nesse clima que a escuderia viajou para a Bélgica, para a 12ª etapa do campeonato.

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Agonizando: o GP da Bélgica marca a última aparição da equipe em 1992

Para sorte do time, a Brabham, que já se encontrava em situação financeira precaríssima, fechou as portas e a partir daquela data não haveria mais a pré-qualificação. Um enorme acidente de Erik Comas com a Ligier-Renault durante os treinos abriu até a possibilidade de qualificação para Roberto Pupo Moreno. Mas o desempenho do carro foi tétrico: ele acabou a 14″551 da pole. McCarthy foi ainda dez segundos pior que o brasileiro. Não podia dar mesmo certo.

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Conheciam o Andrea Sassetti? Não? Pois ei-lo…

A armação de Sassetti veio à tona lá mesmo na Bélgica. Preso por emitir notas fiscais falsas, o dono da escuderia recebeu da FIA a pá de cal. A entidade máxima do desporto automobilístico acabou por excluir o registro da Andrea Moda, eliminando-a do restante do campeonato de 1992 por alegada “má reputação ao esporte”.

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Olha a Andrea Moda em Indianápolis aí gente!

A Andrea Moda passou a inexistir como equipe, mas como patrocinadora não. Querem um exemplo? Então vejam o carro de Davy Jones para as 500 Milhas de Indianápolis de 1993, inscrito pela Euromotorsport. Em Detroit, outro Andrea, o Montermini, conseguiu a 4ª colocação guiando este mesmo carro. Mas depois disto, nunca mais se ouviu falar nem na Andrea Moda e muito menos em Andrea Sassetti.

13 comentários

  1. Jaime Boueri disse:

    Escrevi sobre Moreno (ou, o Super Sub) lá no Blog. Admiro demais o sujeito.
    O link é esse auqi ó ~~~> http://blogdoboueri.blogspot.com.br/2013/03/supersub.html

    No mais, sempre quis escrever sobre esse episódio da Andrea Moda em Monte Carlo, mas, nunca saiu do querer. É uma boa história, fundamental para quem curte F1…

    Bom post Rodrigo. Muito bom!

    Abraço!

  2. Zé Maria disse:

    Saiu há um tempo atrás, acho que na Autosprint, uma matéria sobre o Sassetti. . .ele ainda tinha os 2 chassis e de vez em quando dava umas voltas numa pista qualquer da Itália. . .
    Zé Maria

  3. Michael Turella disse:

    Já tinha lido várias matérias sobre esse folclorico time, mas nunca com uma riqueza de detalhes dessas,o fato de interlagos é hilário.Apesar de tudo ainda fico com a Life no gênero cômico/ trágico.

    • rmb37 disse:

      A Life foi a pior equipe porque nunca correu, Michael. A Andrea Moda pelo menos largou. E o que o mundo da F-1 reverenciou o Moreno em Mônaco é uma mostra do quanto o Baixo era bom demais.

      • Diego disse:

        A pior equipe de todos os tempos foi a Life, a pior equipe que já alinhou no grid foi a Andrea Moda e a pior equipe do século XXI foi a HRT, com menção honrosa à dupla Midland/Spyker que foram duas equipes obscuras e incompetentes que herdaram a Jordan e que seus restos foram assumidos pela Force India.

  4. Alexandre Esse disse:

    O Baixo era meu ídolo nas pistas! Agora, esse chassi s921 tinha um problema crônico de refrigeração que levava o motor a fundir em poucas voltas. Os caras tiveram varias provas pra melhorar isso e ao invés ficavam brincando de destruir motor? Fala sério!

  5. Eduardo disse:

    E para quem não sabe, o Perry McCarthy é o Stig (ou um dos Stigs) – o piloto misterioso do Top Gear da BBC UK.

  6. Renato de M. Machado disse:

    Moreno,era para ser campeão de f1,pelo menos um do schumacher,deveria de ser dele uns com tanto outros sem nada.

  7. Pedro Henrique Fonseca disse:

    Cara, não me canso de ler sobre essa equipe. Dava um bom filme de comédia a história da Andrea Moda…

  8. Vinicius disse:

    Rodrigo

    Porque o Moreno não ia com a cara do McCarthy?e porque consideravam o McCarthy arrogante demais para um estreante na F-1?

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