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5 de julho de 2018 - 13:44Discos eternos

Discos eternos – Revolver (1966)

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RIO DE JANEIRO - “Nós gravamos esse disco para os Stones”, teria dito Paul McCartney na época do surgimento de Revolver.

Verdade ou não, certo é que os Beatles deram um enorme passo à frente para atingir a maturidade enquanto grupo e quanto às suas composições.

Além disso, em 1966, quando sai o álbum, eles decidem não sair mais em turnê alguma, não fazem parte de qualquer filme (pelo menos até “Magical Mystery Tour” e “Yellow Submarine”) e é aí que acontecem dois divisores na história da banda: projetos paralelos não são descartados… e John Lennon se encontra pela primeira vez com Yoko Ono.

Tirante isto, o grupo teve mais tempo para criar, ensaiar, inventar e reinventar. Foram dois meses produzindo as 14 músicas do álbum – que jamais cantariam ao vivo, pois no período de pré-produção eles ainda faziam apresentações diante de platéias monumentais, aquelas que ainda os viam de terninhos iguais e franja nos cabelos. O último show da banda aconteceu em San Francisco (EUA), no Candlestick Park, em 29 de agosto daquele ano – exatamente o mês em que Revolver fora lançado não só nos States como no Reino Unido.

Certo é que a evolução musical já demonstrada no álbum anterior, Rubber Soul, se faz muito mais presente num disco que cogitou-se inclusive chamar de Abracadabra, Magic Circles e Beatles On Safari.

Revolver foi de fato a melhor escolha (de nome, claro) e o disco abre com “Taxman” – pela primeira vez, uma música de George Harrison começava um álbum dos Fab Four. Suprema ironia: o destaque absoluto é o baixo funkeado de Paul McCartney, que também faz o solo de transição entre as estrofes da primeira e segunda partes. A música é sobre impostos e taxas – que levavam enormes somas do dinheiro que os quatro ganhavam, com citações a políticos – Harold Wilson (o então primeiro-ministro inglês, do Partido Trabalhista) e Edward Heath (membro do Partido Conservador).

“Eleanor Rigby” é mais um brilhante momento de Paul McCartney enquanto compositor e George Martin contribui com um fantástico arranjo de cordas que torna a canção ainda mais bela do que normalmente seria. “I’m Only Sleeping” é a primeira letra viajandona de John Lennon. Uma grande sacada desta faixa é que o solo de guitarra foi gravado em cima da fita ao contrário e quando esta é colocada no sentido normal, a melodia fica de trás pra frente.

Harrison não parou em “Taxman”. Ele ofereceu também “Love You To”, uma ode à cultura oriental, com George tocando cítara e um músico indiano fazendo a percussão na tabla. Nesta época, mergulhado no misticismo, o guitarrista influenciaria todos os seus colegas a conhecerem o guru Maharishi – morto em 2008.

Paul volta com “Here, There and Everywhere”, outra ótima balada de sua trajetória beatle – um pedido de desculpas por ter composto “Yesterday”? Talvez… nunca se sabe…

A canção antecede a divertidíssima “Yellow Submarine”, que faz ressuscitar os vocais de Ringo Starr, esquecidos desde o segundo disco. Aliás, ninguém mais apropriado para cantar “Yellow Submarine” do que o narigudo baterista. A música seria o título do filme-desenho lançado alguns anos depois.

John Lennon volta a fazer das suas em “She Said, She Said”. Inspirada numa frase de Peter Fonda após uma viagem de ácido – “I know what it’s like to be dead”, a música é uma experiência do compositor em brincar com os compassos, saindo de 4/4 para 3/4 – algo que ele ainda faria em alguns outros sucessos do grupo. Quem toca baixo na faixa é George Harrison.

“Good Day Sunshine” é uma música pra cima de Paul, que canta e toca piano. E para quem mora na Inglaterra, nada mais oportuno do que cumprimentar o sol – de raras aparições naquele país. A brilhante e misteriosa “And Your Bird Can Sing”, da qual inclusive Lennon confessou nunca gostar muito, antecede outra famosa e lindíssima música de Paul McCartney, “For No One”, com trompas e arranjo de George Martin, onde o baixista toca ainda piano e craviola.

“Doctor Robert” é uma menção a um médico que receitava pílulas a seus pacientes – uma metáfora sobre o fornecedor de drogas do grupo, logicamente, e mais uma composição de John Lennon, que inspiraria outras canções surgidas a posteriori, inclusive no rock brasileiro. A música seguinte é “I Want To Tell You”, a terceira de Harrison, que a executa sempre em fá com acorde E – e Paul no baixo e no piano. O acorde E em fá seria imitado por John Lennon numa lendária faixa do Abbey Road – “I Want You (She’s So Heavy)”.

O disco fecha com chave de ouro em mais uma inspirada melodia de Paul McCartney pontuada por um naipe de metais à Motown. É “Got To Get You Into My Life”, cujo baixo foi levado à era Disco pelo grupo Earth, Wind & Fire. E a última faixa é a emblemática (porque inspirada no Livro Tibetano da Morte, de Timothy Leary) “Tomorrow Never Knows”, uma colagem de barulhos e efeitos pontuada pela bateria marcante de Ringo e o vocal de John Lennon, alterado num speaker Leslie para produzir o efeito que ele e o jovem (então com 19 anos apenas) engenheiro de som Geoff Emerick pretendiam.

Inspiração para dezenas de grupos daí pra diante, comparado ao clássico Fifth Dimension, dos Byrds (que aparecerá aqui no blog em breve, prometo), Revolver é apenas o aperitivo para o que viria depois: o espetacular e nunca igualado Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

Mas isso já é papo pra outra resenha.

Ficha Técnica de Revolver
Selo: Parlophone / EMI
Produção: George Martin
Gravado nos estúdios Abbey Road entre 6 de abril e 21 de junho de 1966
Tempo total do disco: 34’58″

Músicas:

1. Taxman (Harrison)
2. Eleanor Rigby (Lennon-McCartney)
3. I’m Only Sleeping (Lennon-McCartney)
4. Love You To (Harrison)
5. Here, There And Everywhere (Lennon-McCartney)
6. Yellow Submarine (Lennon-McCartney)
7. She Said, She Said (Lennon-McCartney)
8. Good Day Sunshine (Lennon-McCartney)
9. And Your Bird Can Sing (Lennon-McCartney)
10. For No One (Lennon-McCartney)
11. Dr. Robert (Lennon-McCartney)
12. I Want To Tell You (Harrison)
13. Got To Get You Into My Life (Lennon-McCartney)
14. Tomorrow Never Knows (Lennon-McCartney)

4 comentários

  1. Danir disse:

    Não tem disco ou fase dos Beatles que eu não goste. Abbey Road, Revolver, RubberSoul e Sgt. Pepper devem figurar em qualquer lista dos melhores de todos os tempos.

  2. Ricardo Talarico disse:

    Mattar,
    Obrigado por relembrar cada faixa desse espetacular álbum.
    Bons tempos que a gente ficava esperando os lançamentos dos LPs de músicos que se tornaram eternos, diferentemente de grande parte das músicas atuais que ofendem nossos ouvidos.
    Beatles are Forever !!

  3. Henrique disse:

    Ainda outras pequenas curiosidades:
    - A Capa do disco é criação de Klaus Voormann, baixista, que chegou a tocar acho que com John e George (não sei se com Ringo e Paul) pós fim dos Beatles;
    - She said, She said não conta com a participação do Paul (daí o baixo tocado pelo George), que brigou os outros Beatles durante as gravações;
    - Em Eleanor Rigby, nenhum dos Beatles tocam instrumentos;
    - I’m Only Sleeping, composta principalmente (ou totalmente) por Lennon, é uma referência ao fato de Paul meio que acordá-lo, visto que este chegava cedo na casa do primeiro para trabalhar nas composições.
    É um baita disco; um pouco triste.

    • Rodrigo Mattar disse:

      Klaus Voormann toca baixo na Plastic Ono Band, após o fim do grupo. Ele já conhecia o Fab Four da Alemanha. Era amigo da Astrid Kircherr, cuja história – e a do Stuart Sutcliffe – é contada no filme “Os cinco rapazes de Liverpool”.

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