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30 de outubro de 2018 - 09:03Fórmula 1, Senna 30 anos

30 anos de Senna, parte XIII – GP de Portugal

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Qualquer harmonia que poderia existir na relação entre Prost e Senna começou a rachar em 25 de setembro, com as agressivas manobras de um contra o outro no Estoril, no início do GP de Portugal

RIO DE JANEIRO - O revés no GP da Itália não foi daqueles de tirar o sono de ninguém na McLaren e muito menos na Honda. Afinal, problemas acontecem e alguns dos motores japoneses já haviam ido para o espaço em 1988 – principalmente na Lotus. Mas as coisas começavam a ferver nos bastidores.

Alain Prost, segundo consta, já pensava em 1989. Mas os primeiros quilômetros do motor Honda 3,5 litros V10 não foram realizados com ele e sim com Ayrton Senna, no minúsculo circuito galês de Pembrey. Emanuele Pirro, então piloto de testes, foi escalado para andar em Silverstone e Suzuka.

Difícil saber se realmente foi isso que deixou Prost irritado, mas para muitos da imprensa o piloto começava a deitar falação sobre um suposto favorecimento dos japoneses a Senna.

“Nunca houve um motor com a inscrição ‘engine for Alain’. Mas às vezes eles (os engenheiros da Honda) mandavam para a McLaren motores marcados com a inscrição ‘engine for Ayrton’”, dizia Prost.

“Quando queriam, os japoneses me davam motores muito rápidos”, completou.

Eram acusações sérias, graves – e que foram refutadas por boa parte dos engenheiros que trabalhavam com os dois e com a equipe de Ron Dennis. Começavam os primeiros abalos sísmicos que minariam a relação entre os dois – especialmente no ano de 1989.

Mas ainda estávamos em 1988 e o troca-troca de pilotos estava a todo vapor. Em Portugal, foi confirmada a passagem do britânico Johnny Herbert, que estava na Fórmula 3000, para a Benetton – mesmo com a jovem promessa ainda se recuperando de um grave acidente. A Scuderia Italia fechou com Andrea de Cesaris para ampliar as operações do time que corria com os chassis Dallara para dois carros. E a Coloni contratou o brasileiro Roberto Pupo Moreno, com salários pagos pela Ferrari – já que era ele quem guiava a Ferrari 639, o carro-laboratório em que se testava o motor V12 aspirado e o câmbio semiautomático.

Nos treinos, os fortes ventos que sopravam no Autódromo do Estoril deixavam dúvidas sobre o comportamento dos carros durante as tomadas de tempo. Na pré-classificação, sem receber as evoluções do companheiro de equipe na EuroBrun, Oscar Larrauri já foi o primeiro a se despedir do fim de semana.

E a falação de Prost, verdadeira ou não, rendeu frutos a ele. O francês conquistou a segunda pole position na temporada, com 1’17″411, superando com relativa facilidade (quatro décimos) o companheiro de equipe Ayrton Senna. Surpresa mesmo foi o Leyton House March de Ivan Capelli numa espetacular terceira colocação – com Maurício Gugelmin em quinto no outro carro do time. A Ferrari só ficou em quarto com Gerhard Berger e sétimo com Michele Alboreto. De volta à Williams após a catapora, Nigel Mansell foi o sexto no grid. Julian Bailey, Piercarlo Ghinzani, Stefano Modena e Bernd Schneider não se classificaram.

A tensão toma conta de todo mundo no circuito português naquele dia 25 de setembro, quando Roland Bruynseraede é obrigado a adiar a largada: Andrea de Cesaris é vítima de um curto-circuito em seu Rial. Os carros partem para nova volta de apresentação. E na largada, Prost não hesitou em empurrar Senna em direção ao acostamento.

Mas a primeira volta não seria completada. Uma carambola envolvendo vários pilotos, entre eles Derek Warwick, Luis Perez-Sala, Andrea de Cesaris e Satoru Nakajima bloqueou a pista. Não havia como os carros passarem na reta em direção à primeira curva, feita para o lado direito. Bruynseraede ordenou bandeira vermelha e a corrida foi interrompida.

Após 25 minutos de paralisação, o GP de Portugal finalmente teve início. Prost novamente exibe uma manobra agressiva e imprensa Senna mais uma vez contra a grama. Nas posições seguintes estariam Capelli, Berger, Mansell e Gugelmin.

O fim da primeira volta é marcado pelo revide de Senna. O brasileiro também tem suas armas e as mostra quando preciso. Agora é a vez de Ayrton imprensar Prost em direção ao muro dos boxes, na descida da reta, a mais de 300 km/h. O pânico se instaura entre os mecânicos e principalmente na McLaren. Apesar da manobra de intimidação, é o francês quem se mantém na ponta, pois Senna prefere ir para o lado esquerdo e evitar uma catástrofe.

A corrida começava a se tornar um pesadelo para o brasileiro. Ele descobre que o marcador de combustível no computador de bordo já indicava um alto consumo de gasolina. O que significava ter de dosar o acelerador. Por isso, o March de Ivan Capelli chega de vez em Senna.

Porém, Ayrton é inflexível diante das várias tentativas do italiano, que não tem problemas com consumo de gasolina e – vejam vocês – um carro melhor e mais equilibrado. Na frente, Prost some. Em 10 voltas, a diferença já chega próxima a seis segundos e quatro décimos.

Algumas voltas mais tarde, primeiro Berger e depois Mansell chegam na disputa entre Senna e Capelli pelo 2º lugar. Prost vai abrindo vantagem e consegue marcar a melhor volta da prova em 1’23″438.

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Após muito insistir, Capelli consegue superar Ayrton Senna para espanto geral. O italiano fez naquele domingo a corrida de sua vida na Fórmula 1

Capelli não desiste da luta. Se da primeira vez que aspira do vácuo do McLaren de Ayrton a manobra não é bem-sucedida, o italiano terá sucesso na 22ª volta. Manobra clássica e perfeita do piloto, que ainda por cima faz a melhor volta da corrida, trucidando a marca anterior de Prost – 1’22″397.

É possível que Senna esteja com problemas não de consumo de combustível, mas sim de gestão eletrônica, o que nesse caso faz com que o brasileiro tenha de reduzir o ritmo. Ele até não resiste tanto à Ferrari de Gerhard Berger, caindo para quarto. Mas deixar Mansell passar, aí já era demais. E Ayrton não hesita em bloquear o seu velho rival.

No tráfego dos retardatários, Prost é mais Prost do que nunca. A pista do Estoril é estreita e o francês prefere não correr riscos. Com isso, cede terreno para Capelli e também para Berger, que vai tirando a diferença para o piloto da Leyton House March. Com 30 voltas, o líder tem 3″3 de vantagem sobre o segundo colocado, enquanto o austríaco da Ferrari está a um segundo e dois décimos de Capelli. A esta altura, Senna perde 14 segundos em relação a Prost, com Mansell colado. Gugelmin é o sexto.

Enquanto perseguia Capelli, Berger faz a melhor volta da disputa em 1’21″961. Só que na 33ª volta, ele comete um erro crasso e aciona o extintor de incêndio de bordo por engano. O cockpit se torna um congelador e, sem sensibilidade nos pedais, Berger acaba saindo da pista e da corrida algumas voltas depois.

Metade da corrida: enquanto Piquet, em mais uma jornada infeliz e discreta, abandona sem embreagem nenhuma, Prost também é avisado pelo computador de bordo que seu consumo de combustível começa a apresentar números um tanto quanto alarmantes. O francês é instruído a mudar o regime de sobrealimentação do turbocompressor para não ficar a pé com pane seca. Isto permite que Capelli desconte um pouco a diferença, enquanto Senna é terceiro, a longos 25 segundos do líder.

Mansell se irrita com as negativas de Ayrton em lhe ceder espaço e assim passar ao 3º lugar. O inglês da Williams tenta, várias vezes, as manobras de ultrapassagem – sem sucesso algum. Restando 25 voltas, os dois estão a mais de 30 segundos de Prost, com Capelli ainda em segundo a 5″7. Maurício Gugelmin sofre com problemas de superaquecimento e é obrigado a reduzir seu ritmo.

A 20 voltas para o final, Mansell retoma os ataques à McLaren de Senna na curva 1. Nada feito. Na 53ª passagem, nova tentativa, mais uma vez rechaçada por Senna. E a corrida de Nigel não termina em decorrência de uma colisão com o brasileiro – como aconteceria de fato em 1989 – mas porque ele e Ayrton acham pelo caminho a lenta Tyrrell de Jonathan Palmer, que perdera o controle do carro por conta de fortes vibrações, na veloz curva Parabólica. Sem espaço e sem chance de reação diante do retardatário, Mansell toca o guard-rail e abandona a corrida. Depois, o Leão reclamaria veementemente tanto de Senna quanto de Palmer.

Com os pneus em pandarecos, Senna vai aos boxes para uma troca, com o objetivo de retomar o 3º lugar. O trabalho dura oito segundos e na primeira volta do pneu novo, o brasileiro faz 1’22″852 – sua melhor volta na disputa. Mas não é o suficiente para avançar as posições perdidas até o final.

Alboreto é quem passa ao 3º lugar e sua Ferrari, que também tem indicador de consumo de combustível a bordo, lhe avisa dos riscos de não chegar com uma gota sequer no tanque para receber a quadriculada. Tanto que “Il Marocchino” tira o pé e fica a mais de 20 segundos de Capelli.

Na última volta, enquanto Prost vê a quadriculada da vitória pela 33ª vez na carreira, Alboreto se aproxima de mais um pódio, mas o carro fica sem combustível na curva Parabólica. No embalo, o italiano consegue chegar à linha final, mas perde o 3º lugar para Thierry Boutsen e a quarta posição para a Arrows de Derek Warwick. Senna cruza em sexto e decide completar a volta de retorno aos boxes, embora seu indicador no painel lhe garanta que ele não tem uma gota sequer de combustível. Nada menos errado: quem estava de mal com o piloto desde o começo era justamente o computador de bordo…

O ambiente relativamente saudável entre Senna e Prost de fato é abalado pelos acontecimentos em Portugal. Os comissários de prova querem explicações. Dois dos cinco membros da direção de prova exigem que Ayrton seja excluído da corrida. “Ambas as manobras foram difíceis, mas corretas”, argumenta o brasileiro. “Nós dois procuramos preservar nossas posições. Eu não culpo Prost, e não queria bloqueá-lo contra a parede quando ele passou por mim. Se nos encontramos tão perto, é porque eu não vi isso acontecer”, justificou.

Prost coloca mais lenha na fogueira. “Eu estava realmente com medo, porque neste caso não podemos fazer nada. No fim da reta, preso entre um carro e uma parede… Se eu tivesse desacelerado, eu seria acertado por uma roda. Foi terrível! Eu realmente não entendo porque ele fez isso. Não há necessidade de discutir. Eu vou ver diretamente com ele, cara a cara…”

E na verdade, Senna e Prost conversam por um longo tempo à noite, sob os olhos de Ron Dennis…

No papel, Prost voltara à liderança: 81 pontos contra 76 do rival. E havia ainda o temido descarte dos cinco piores resultados, que seria levado em consideração a partir dali até a última corrida na Austrália. Placar das vitórias: Ayrton Senna 7 x 5 Alain Prost.

Próximo post – GP da Espanha.

3 comentários

  1. Gustavo disse:

    Se não estou enganado, o March 881 foi o primeiro carro desenhado por Adrian Newey na F-1, e já era muito bom (quando os mecânicos da garagem acertavam a mão).

    Não vou lembrar exatamente ano ou a corrida, mas Mauricio Gugelmin havia pedido sucessivas mudanças nas suspensões que não surtiam qualquer efeito. Descobriu-se que os amortecedores simplesmente não estavam funcionando.. Feitas as devidas correções o carro voou.

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