MENU

17 de julho de 2015 - 16:50Discos eternos

Discos eternos – O Bidu [Silêncio no Brooklin] (1967)

Folder-136

RIO DE JANEIRO – Carioca de Madureira, mas criado no Rio Comprido, onde integrou a Turma dos Cometas, gangue de rapazes que fazia farras na época da brilhantina e do iê-iê-iê, Jorge Ben (hoje Jorge Ben Jor, para não ser confundido com o guitarrista George Benson) era conhecido pela rapaziada pelo apelido de “Babulina”, graças a um rock de Ronnie Self chamado “Bop-A-Lena”, que era cantado errado – tanto por ele quanto por Tim Maia, outro igualmente apelidado “Babulina”. Com 18 anos, o mulato alto e elegante explodiu como uma bomba sonora no Bottles Bar, no famoso Beco das Garrafas, revolucionando o som do berço da Bossa Nova. Um banquinho e um violão? Mas que nada. Jorge tocava em pé, rasqueando seu violão com os dedos grandes, como se fosse uma guitarra. O produtor Armando Pittigliani viu, ouviu e levou o garoto para a Philips, onde lançaria seu primeiro e instantâneo sucesso, “Mas Que Nada”, tendo “Por causa de você, Menina”, como lado B.

O cantor e compositor, que aliás falava voxê em vez de você, lançaria o primeiro disco naquele mesmo ano e na esteira de Samba Esquema Novo, vieram outros três trabalhos pela gravadora então dirigida por Alain Troussat. Mas Jorge achou que estava sendo desprestigiado na Philips, que suas músicas não eram trabalhadas/divulgadas, enfim, que não fazia mais sucesso nenhum. Decidiu reinventar-se e em 1967 deu um grande salto no escuro ao fazer seu quinto disco por uma gravadora de fundo de quintal.

Com produção de Roberto Corte Real, ex-diretor da Columbia Broadcasting System, a Rozenblit, do Recife, pôs nas lojas O Bidu (Silêncio no Brooklin). Nos primeiros álbuns, Jorge Ben se acompanhava por seu violão e por um combo de ritmos liderados pelo Copa 5 de J.T. Meirelles nos sopros e bateristas como Edison Machado e Dom Um Romão, mantendo os laços com o Beco e com a estética da chamada Música Popular Moderna (MPM). Daquela vez, o carioca eletrificava seus sons. Trazia para junto de si os rapazes d’Os Fevers, popularíssimo conjunto de iê-iê-iê do circuito suburbano de bailes. A aposta era arriscada, mas deu certo.

Com sua mistura hermética de rock e samba, Jorge amplificava seus horizontes musicais e trazia o chamado ‘sambalanço’ para mais perto do pop. O sambalanço, aliás, fora uma ‘invenção’ de Carlos Lyra, que brigara com Ronaldo Bôscoli para alçar voo solo nos tempos em que a Bossa Nova ainda não tinha atingido a força que teria – principalmente graças a Tom Jobim e João Gilberto. Morando em São Paulo com Erasmo Carlos num sobrado da rua Kansas, justamente no Brooklin, Jorge era de uma vitalidade animal. Passava horas e horas fazendo harmonias ao violão ou na guitarra, compondo ou tendo ideias. De um improviso, aliás, nasceu a primeira e única parceria dos colegas de sobrado. Ben e Erasmo compuseram “Menina Gata Augusta”, faixa que fechava o lado #1 do disco. Quando a farra terminava, Jorge dava seu recado.

“Shhhhh! Silêncio no Brooklin!”.

A frase virou subtítulo do álbum e também pontuou várias das 12 canções gravadas

O Bidu tinha músicas curtas, com até menos de quatro minutos de duração, muito balanço e suingue, afora o auxílio luxuoso dos Fevers, que ajudou a alavancar canções como “Si Manda”, “A Jovem Samba”, “Vou Andando”, “Olha o Menino” e “Toda Colorida”. Jorge deu seu recado e a Philips captou a mensagem. Tanto que em 1969, voltava à gravadora e com o reforço do Trio Mocotó para eletrificar e suingar ainda mais as suas músicas.

Ficha técnica de O Bidu (Silêncio no Brooklin)
Selo: Rozenblit
Produção de Roberto Corte Real
Gravado e lançado em 1967
Duração: 31’13”

Músicas:

1. Amor de Carnaval
2. Nascimento de um Príncipe Africano
3. A Jovem Samba
4. Rosa Mas Que Nada
5. Canção de uma Fã
6. Menina Gata Augusta (Jorge Ben/Erasmo Carlos)
7. Toda Colorida
8. Olha o Menino
9. Quanto Mais te Vejo (Jorge Ben/Yara Rossi)
10. Vou Andando
11. Sou da Pesada
12. Si Manda

Todas as demais músicas, exceto as indicadas, são de autoria de Jorge Ben

5 comentários

  1. Gustavo Oliveira disse:

    Caramba, eu não conhecia esse disco, que, pelo jeito, é uma espécie de Highway 61 Revisited do Jorge Ben. A Tábua de Esmeraldas e Negro é Lindo estão entre os meus discos preferidos de todos os tempos.

    Já encontrei bastante gente famosa por ai, nunca abordei ninguém, mas acho que se visse o Babulina atravessando a rua, iria pelo menos dar um alô e agradecer pela contribuição dele a música.

  2. Tenho uma copia em versão analogica (vilnil), prensasgem de 1969. Disponivel pra vender somente na internet. Jorge ben nunca soou tão radical como neste disco. Pré- Tropicalia!!!

  3. Tenho uma copia em versão analogica (vilnil), prensasgem de 1969. Disponivel pra vender somente na internet. Jorge ben nunca soou tão radical como neste disco. Pré- Tropicalia!!!

  4. Fernando Vinil disse:

    Com todo respeito ao bom texto escrito, eu espero que ao longo destes quase 4 anos (estamos em 2019) você tenha conhecido melhor a historia da Gravadora e Fabrica de Discos Rozenblit, a qual você definiu de maneira infeliz, alegando ser uma gravadora de “fundo de quintal”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *