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17 de janeiro de 2017 - 19:28Discos eternos

Discos eternos – Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10 (1971)

1971-Sociedade-da-Grã-Ordem-Kavernista-Apresenta-Sessão-das-10-Capa

RIO DE JANEIRO - Veja a turma aí acima, na foto da capa do disco “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10″, tirada no cinema Império, famoso “poeira” do Rio dos anos 1930 aos 1970.

O magrelo de visual hippie, camiseta vermelha, óculos de grau e cavanhaque é ninguém menos que Raul Seixas. Vestida de “Super-Woman” está a cantora paulista Míriam Batucada (e que pernões ela tinha…); ao lado dela, mão no queixo e camisa da seleção, o capixaba Sérgio Sampaio; e na outra ponta, o único da turma que ainda está vivo, o baiano Edy Star.

Na época da gravação deste disco (1971), Raul era apenas Raulzito, produzia discos de artistas como Renato & Seus Blue Caps – que a julgar pela base instrumental, participaram do álbum dos Kavernistas, Trio Ternura e Jerry Adriani na Columbia Broadcasting System (CBS). E com a ajuda do amigo e também produtor Mauro Motta, deu forma a este trabalho, que hoje podemos qualificar como um clássico que nunca teve o reconhecimento que merecia.

Este é um mix sonoro como poucas vezes se viu na carreira do magro. Tem o desabafo de “Eta Vida” (cantado por Raul e Sérgio em dueto), com uma abertura pra lá de debochada.

Respeitável público! A Sociedade Da Grã-Ordem Kavernista pede licença para vos apresentar o maior espetáculo da terra!

O escracho continua na faixa-título. Edy Star abre “Sessão das 10″ como ‘uma homenagem aos boêmios da velha guarda’. E em ritmo de seresta, desfila uma letra irônica e genial de Raul Seixas.

Ao chegar do interior
Inocente, puro e besta
Fui morar em Ipanema
Ver teatro e ver cinema
Era a minha distração.

Foi numa sessão das dez
Que você me apareceu
Me ofereceu pipoca
Eu aceitei e logo em troca
Eu contigo me casei.

Curtiu com meu corpo
Por mais de dez anos
E depois de tal engano
Foi você quem me deixou.

Curtiu com meu corpo
Por mais de dez anos,
Foi tamanho o desengano
Que o cinema incendiou.

Como em praticamente todas as faixas, o baião-frevo-calipso “Eu Vou Botar Pra Ferver” (Raul cantava “felver”) é aberto com uma vinheta (a inspiração veio dos discos de Frank Zappa, em especial o ‘Mothers Of Invention’) e depois cantado por Raul e Sérgio, em perfeita sinergia. O magro capixaba manda muito bem em “Eu Acho Graça”, a quarta faixa do álbum, abrindo terreno para – enfim – Míriam Batucada aparecer com a anárquica “Chorinho Inconsequente”.

“Quero Ir” é um baião-pop que remete à canção “I Wanna Go Back To Bahia”, do baiano Paulo Diniz, que despontou para o anonimato depois desse meteórico sucesso – mas que tem letra prevendo o ‘fracasso’ dos quatro, que abandonariam o Rio de Janeiro. Míriam comparece novamente com outra levada de ritmo nordestino, o xaxado, em “Soul Tabarôa” (letra e música de Antônio Carlos e Jocafi), trazendo na esteira o rock and roll de “Todo Mundo Está Feliz”, cantado e escrito por Sérgio Sampaio.

“Aos Trancos e Barrancos” é um sambão sensacional – um dos únicos de toda sua carreira – composto por Raul que resume de uma forma nada sutil e bastante irônica a sua trajetória musical. Do menino pobre de Salvador que passou fome para morar em Ipanema e se tornar astro do rock. Aliás, diria que o verdadeiro Raul Seixas que a gente conheceu aflorou nessa música.

Edy Star comparece novamente com a ótima “Eu Não Quero Dizer Nada” e o disco fecha com mais um petardo de Raul, “Dr. Paxeco” (aquele que tem nos olhos o cifrão) – ou melhor, o “Finale” é a mesma musiquinha canalha de abertura de circo acompanhada de uma descarga numa privada!

A rasteira que Raulzito e os Kavernistas deram no que se convencionava chamar de MPB surpreende até hoje, mais de 45 anos depois que o disco foi lançado. Uma pena que um trabalho tão genial quanto este tenha caído na vala dos maiores fracassos da música brasileira, já que a CBS não teve a menor intenção de trabalhar o LP – que ficou fora de catálogo até ser relançado em formato digital apenas em 1995.

Apesar de ter se lançado como compositor, Raul ainda produziria para a companhia os compactos de Míriam Batucada e Diana. Mas ele queria mais.

Queria ser Raul Seixas.

E ele disse ao que vinha com uma aparição monumental no último Festival Internacional da Canção (VII FIC), cantando “Let Me Sing, Let Me Sing” e “Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo”, composições inéditas de sua autoria.

O resto é história.

Ficha técnica de Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10
Selo: CBS/Sony Music
Gravado e lançado em agosto de 1971
Produção de Mauro Motta
Tempo: 29’25″

Músicas:

1. Eta Vida (Raul Seixas/Sérgio Sampaio)
2. Sessão das 10 (Raul Seixas)
3. Eu Vou Botar Pra Ferver (Raul Seixas/Sérgio Sampaio)
4. Eu Acho Graça (Sérgio Sampaio)
5. Chorinho Inconsequente (Edy Star/Sérgio Sampaio)
6. Quero Ir (Raul Seixas/Sérgio Sampaio)
7. Soul Tabarôa (Antônio Carlos/Jocafi)
8. Todo Mundo Está Feliz (Sérgio Sampaio)
9. Aos Trancos e Barrancos (Raul Seixas)
10. Eu Não Quero Dizer Nada (Sérgio Sampaio)
11. Dr. Paxeco (Raul Seixas)
12. Finale (Vinheta)

6 comentários

  1. Leandro disse:

    Rodrigo, não sou da época, mas muito fã do trabalho do Raul, diz a lenda, não sei se é verdade, que ele produziu e lançou este disco sem autorização da CBS e ele foi recolhido do mercado depois de um tempo.

    As letras são ótimas.

    • Rodrigo Mattar disse:

      Tudo lenda, Leandro. A CBS sabia do projeto. Só que o disco foi um festival de encalhe. Se ela não soubesse, o Mauro Motta – que era colega do Raul como produtor e também compositor – não teria produzido esse disco. O próprio Edy Star afirmou que é lenda que o álbum tenha sido feito sem o consentimento do sr. Evandro Ribeiro.

      Mas você sabe que às vezes para tornar a história mais deliciosa – dependendo do ponto de vista – inventa-se uma historinha aqui, outra ali e vamos indo…

      Abraços!

  2. Kleber disse:

    Obrigado Rodrigo por compartilhar ícones da música desse calibre, que eu não tive o prazer de conhecer. Confesso que tenho preguiça para procurar referências musicais.

    Um abraço, Kleber

  3. Wilton Sturm disse:

    Grande Rodrigo… agradeço o post, relembrando um grande disco!! Vou ouvir o danado daqui a pouco! Sessão das Dez é uma das músicas do Raul que mais gosto!
    Saudações raulseixistas!

  4. O Lp mais corrosivo do rock nacional ate os dias de hoje,na epoca ninguem deu bola pra ele,tambem pudera foi “cassado” pela censura.Toda aquela ingenuidade da “jovem Guarda” não se comparava a este album inspirado em “Tropicalia – Panis at Circenses” (1968), que ano que vem completa 50 anos. Letras de cunho socialista, depois Raulzito foi classificado como um “Adorador do Diabo” em “Novo Aeon” – 1975, o album (aquele que tem “Rock do Diabo” talvez a musica mais controversa dele ate hoje. Paulo Coelho chegou a dar curso de satanismo (aulas) durante a decada de 1970, o Zé Rodrix tava la (ex-maçom)!!

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