Discos eternos – Canta Canta, Minha Gente (1974)

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martinho da vila canta canta

RIO DE JANEIRO – Expoente máximo de um dos gêneros mais populares da música brasileira, o grande Martinho José Ferreira, que todos nós conhecemos como Martinho da Vila, completou 80 anos de vida em pleno Carnaval, no último dia 12, sendo enredo de uma escola de São Paulo – a Unidos do Peruche, infelizmente rebaixada para o Grupo de Acesso – e protagonista do abre-alas do desfile da sua escola do coração, que levou na Sapucaí o enredo “Corra que o futuro vem aí!”.

O filho da mãe Tereza, nascido no interior fluminense na cidade de Duas Barras, fez do samba o seu ganha-pão a partir dos festivais da Record e da Globo, transportando o partido alto do morro para o asfalto, apresentando músicas como “Menina Moça”, “Casa de Bamba” e “Meu laralaiá”. Apesar da resistência de artistas como Maysa, por exemplo, Martinho da Vila começou a ganhar notoriedade nos palcos e com “O pequeno burguês” – o famoso samba da faculdade – explodiu no Brasil inteiro graças ao faro do “Amigo da Madrugada” Adelzon Alves, que tocou incessantemente o compacto do artista na Rádio Globo – possibilitando assim a gravação do primeiro disco, em 1969.

A partir daí, Martinho também já deixara de ser o autor de clássicos como “Carnaval de Ilusões”, “Quatro Séculos de Modas e Costumes” e “Iaiá do Cais Dourado” para ser um grande intérprete de sambas e um excepcional vendedor de discos.

Sexto trabalho do artista, Canta Canta, Minha Gente, lançado em 1974 pela RCA Victor (a gravadora, naqueles tempos, era chamada “A casa do samba”), é provavelmente o disco mais representativo do início de sua carreira como artista da indústria fonográfica.

Com produção de Rildo Hora, o disco reúne a fina flor das obras de Martinho naqueles tempos, começando com a faixa-título de delicioso batuque que convida a gente de imediato pra cantar que a vida vai melhorar e que é pra deixar a tristeza pra lá – desaguando em mais um clássico martiniano: “Disritmia”, típico samba de sua discografia, com um quê de sensualidade e romantismo, com direito a um lindo arranjo de cordas.

Eu quero me esconder debaixo
Dessa sua saia pra fugir do mundo
Pretendo também me embrenhar
No emaranhado desses seus cabelos

Preciso transfundir seu sangue
Pro meu coração, que é tão vagabundo
Me deixa te trazer num dengo
Pra num cafuné fazer os meus apelos
Me deixa te trazer num dengo
Pra num cafuné fazer os meus apelos

Eu quero ser exorcizado
Pela água benta desse olhar infindo
Que bom é ser fotografado
Mas pelas retinas desses olhos lindos

Me deixe hipnotizado pra acabar de vez
Com essa disritmia
Vem logo, vem curar seu nego
Que chegou de porre lá da boemia
Vem logo, vem curar seu nego
Que chegou de porre lá da boemia

“Este sambinha eu fiz…”, e assim Martinho abre “Dente por dente”, terceira faixa do álbum, que antecede outro clássico do compositor – envolto em enorme polêmica naquele ano de 1974. Refiro-me à “Tribo dos Carajás (Aruanã-Açu)”, obra feita para competir na disputa de samba-enredo da Unidos de Vila Isabel para aquele ano.

Tendo tido cinco sambas escolhidos para a escola – entre 1967 a 1970 e em 1972 – Martinho fez uma belíssima composição para a escola do coração e com uma letra forte, de protesto. Em tempos de censura e ditadura, uma letra que dizia “E o índio cantou o seu canto de guerra… não se escravizou, mas está sumindo da face da terra”, tinha todas as chances de ser tesourada.

Mesmo falando de liberdade, da ligação dos povos indígenas com o ecossistema brasileiro, o compositor tocava fundo na questão da maciça destruição das comunidades do Alto Xingu.

Não deu outra: os militares pressionaram a diretoria da agremiação do Boulevard a não optar pelo samba de Martinho da Vila, escolhendo um samba horroroso de autoria de Rodolpho e Paulinho da Vila, uma das coisas mais pavorosas já vistas no Carnaval do Rio, nível Beija-Flor com “Educação para o desenvolvimento”, “Brasil ano 2000” e “O Grande Decênio”, afagando o regime e exaltando a Transamazônica.

Como resultado, a Vila ficou em último lugar, mas não houve rebaixamento, por conta – justamente – do afago ao regime militar.

Menos mal que o samba censurado pelos milicos foi gravado por Martinho e eternizado. A lamentar que só o veríamos como campeão de uma disputa de samba-enredo novamente em 1980, com o maravilhoso “Sonho de um sonho”.

Como também seria eternizado um dos grandes sambas-exaltação compostos para a Vila Isabel: “Renascer das Cinzas” é exatamente uma ode à escola azul e branco, congraçando pela união após o fracasso daquele desfile de 1974.

Obra-prima que a escola não entendeu muito no início. “Fiz essa música para levantar o moral da galera”, assumiu Martinho em entrevista ao meu amigo e jornalista Anderson Baltar ao UOL, em fevereiro do ano passado. “Cheguei na quadra e comecei a cantar. E o povo só chorava. Eu não entendi nada”, contou entre risos.

Vamos renascer das cinzas
Plantar de novo o arvoredo
Bom calor nas mãos unidas
Na cabeça um grande enredo

Ala de compositores
Mandando o samba no terreiro
Cabrocha sambando
Cuíca roncando
Viola e pandeiro
No meio da quadra
Pela madrugada
Um senhor partideiro

Sambar na avenida
De azul e branco
É o nosso papel
Mostrando pro povo
Que o berço do samba
É em Vila Isabel

Tão bonita a nossa escola!
E é tão bom cantarolar
La, la, iá, iá, iá, iá, ra iá
La, ra, iá

Não satisfeito, Martinho ainda nos trouxe uma regravação de “Patrão, prenda seu gado”, da trinca Donga/Pixinguinha/João da Baiana, pioneiríssima do samba; “Calango Vascaíno” – uma das duas canções que fez em homenagem ao seu time de coração, com o ótimo refrão “Eu tô cansado de derrota, mas não vou me entregar”;  a belíssima”Visgo de Jaca”, composição – ora, vejam! – de Sérgio Cabral e Rildo Hora e a sensacional “Festa de Umbanda”, exortando as origens do samba e da cultura brasileira, transformando qualquer ambiente de festa num terreiro daqueles pra ninguém botar defeito.

Uma grande obra, eternizada pelo tempo e cuja capa, um clássico daqueles tempos, foi mais uma obra de arte do consagrado ilustrador Elifas Andreato.

Ficha técnica de Canta Canta, Minha Gente
Selo: RCA Victor
Produção: Rildo Hora
Gravado em 1974

Músicas (*):

1. Canta Canta, Minha Gente
2. Disritmia
3. Dente Por Dente
4. Tribo dos Carajás (Aruanã-Açu)
5. Malandrinha (Freire Júnior)
6. Renascer das Cinzas
7. Patrão, Prenda Seu Gado (Donga/Pixinguinha/João da Baiana)
8. Nego, Vem Cantar
9. Calango Vascaíno
10. Visgo de Jaca (Rildo Hora/Sérgio Cabral)
11. Viajando
12. Festa de Umbanda (Tradicional/Adaptação de Martinho da Vila)

(*) Com exceção das creditadas, as demais são de Martinho da Vila

Sobre o Autor

Rodrigo Mattar

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Perfil

Rodrigo Mattar, carioca de 49 anos. Apaixonado por automobilismo desde os nove, é jornalista especializado em esportes a motor desde 1998. Estagiou no Jornal do Brasil e numa assessoria de comunicação antes de ingressar na Rede Globo. Em 2003, foi para o SporTV, onde foi editor dos hoje extintos programas Grid Motor e Linha de Chegada. No mesmo ano, iniciou sua trajetória como comentarista, estreando numa transmissão de uma corrida de Stock Car, realizada no saudoso Autódromo de Jacarepaguá. Há sete anos, está no Fox Sports, atuando como editor responsável do programa Fox Nitro e comentarista de diversas categorias, entre as quais Rali Dakar, Nascar, MXGP, WTCC, WRC, FIA WEC, IMSA, Fórmula E, WTCR e Superbike Series Brasil. Conduz o blog A Mil Por Hora, agora no GRANDE PRÊMIO, desde 2008.

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