Os Clones

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A Racing Point protagoniza duas das controvérsias da F1 em 2020: a primeira, ter o seu RP20 praticamente idêntico â Mercedes-Benz do ano passado; a segunda, um suposto sistema de dutos de freio irregulares que foi protestado e a equipe perdeu 15 pontos no Mundial de Construtores

RIO DE JANEIRO – A grande controvérsia de uma Fórmula 1 em que a Mercedes só perde se quiser – se bem que Max Verstappen fez uma grande corrida no GP dos 70 anos e venceu em Silverstone no “Double Header” promovido nos dois últimos finais de semana – é o protesto das equipes Renault e Ferrari acerca da legalidade dos dutos de freio dos carros da Racing Point.

A equipe dos carros cor-de-rosa foi multada pela FIA e perdeu 15 pontos no Mundial de Construtores, no qual seria uma das concorrentes ao 3º lugar, até porque alcançar Mercedes e Red Bull, melhor esquecer. E não só o sistema de freios acusado de ilegal incomoda: a equipe tem em mãos uma cópia-carbono do Mercedes F1 W10 do ano passado. Basta olhar os dois carros e vocês verão as “coincidências” que a equipe de Lawrence Stroll jura de pés juntos que não existem.

Clones, na Fórmula 1, não são novidade. Especialmente porque alguns desenhistas mudam de equipe e levam suas ideias – como aconteceu a quatro escuderias nos anos 1970.

O primeiro caso de cópia foi do Ensign N177, carro desenhado por David Baldwin e alinhado pela equipe de Morris Nunn na temporada 1976 e guiado por vários pilotos como Jacky Ickx, Clay Regazzoni, Chris Amon e até o tricampeão mundial Nelson Piquet, em sua corrida de estreia.

“Copersign”: o Fittipaldi F5 era muito semelhante ao Ensign N177, projeto de David Baldwin

Baldwin deixou a Ensign no final de 1976, convidado por Emerson e Wilsinho Fittipaldi para desenhar o sucessor do FD04, projeto de Ricardo Divila. E o que fez o engenheiro? Uma cópia cuspida e escarrada do Ensign N177!

O carro estreou em Zolder no GP da Bélgica e logo as piadas começaram: o carro foi chamado de Copersign, Emerson não se classificou com ele para duas provas – Alemanha e Itália – e o F5 só marcou três pontos com um 4º lugar no GP da Holanda, em Zandvoort. Depois, com um reestudo de aerodinâmica feito em Bolonha pelo Studio Fly, se transformaria no F5A, o monoposto mais bem-sucedido da equipe brasileira.

Pouco tempo depois, a Shadow viu debandarem, de uma vez só, os diretores Jackie Oliver e Alan Rees, o patrocinador Franco Ambrosio e os engenheiros Dave Wass e Tony Southgate. Este levou consigo os gabaritos do projeto do Shadow DN9, que estrearia em 1978.

Original e cópia lado a lado em 1978: o Arrows FA1 era idêntico ao Shadow DN9 – só que melhor e mais competitivo

Em menos de 60 dias, surgiu a Arrows, equipe cujo nome é o acrófono dos sobrenomes dos fundadores-dissidentes. Muito bem: o Arrows FA1, guiado por Riccardo Patrese e Rolf Stommelen em grande parte daquele campeonato era EXATAMENTE IGUAL ao Shadow DN9 – com uma diferença gritante: era muito mais competitivo, o que deixou Don Nichols tiririca.

Nichols, dono da Shadow, mandou os fundadores da Arrows para o pau por acusação de plágio e, claro, ganhou. A Arrows tinha um trunfo na manga: um novo carro, o A1 – que não surtiu o efeito esperado em desempenho, já estava pronto se o time perdesse o processo judicial.

Anos depois, Benetton e Ligier estavam “unidas” por intermédio de Flavio Briatore. Diretor esportivo na equipe da família dona da confecção italiana, “Dom Corleone” comprou a Ligier – então nas mãos de Cyril de Rouvre, roubou de Giancarlo Minardi o direito de usar os motores Mugen Honda e cometeu a audácia de apresentar dois carros praticamente idênticos no Mundial de 1995.

Querem clonagem mais escancarada do que a de 1995 com Benetton B195 e Ligier JS41 praticamente iguais, exceto em detalhes fundamentais, como o motor?

Vistos de lado, Benetton B195 e Ligier JS41 aparentemente são iguais – pero no mucho. Os motores tinham diferença gritante. Os Renault eram rápidos e competitivos. Os Mugen-Honda padeciam de sobrepeso. Mas os desenhos de suspensão, perfis de asa, aerodinâmica e os sistemas de transmissão eram exatamente os mesmos.

Já dizia o sábio e saudoso Chacrinha. “Na TV, nada se cria, tudo se copia”.

A máxima do Velho Guerreiro, quase que a de Lavoisier às avessas, vale, também, para a Fórmula 1.

Sobre o Autor

Rodrigo Mattar

15 Comentários

  • No meio disto tudo, esqueceste-te do Tyrrell 009, de 1979, que toda a gente dizia ser uma cópia do Lotus 79. O próprio Mário Andretti perguntou um dia se o Ken Tyrrell, o velho lenhador, tinha algum pingo de vergonha. Na realidade, se o tinha, não o mostrou. E com ele, conseguiu três pódios com o Jean-Pierre Jarier e o Didier Pironi.

    • Verdade, Paulo Alexandre, mas ali todos os carros copiaram uma ideia e, à primeira vista, o Tyrrell 009 não era tão cópia assim. Se fosse, já sabíamos o resultado.

  • Como bem disse alguém no meio do caso da Racing Point, é uma luta pelo conceito da F1, se preserva ou se admite equipes clientes depois dessa. Vale lembrar a força que equipes satélites tem na Moto GP hoje em dia, com uma, inclusive, liderando o campeonato. Também vemos frequentemente a Pramac andando mais que a Ducatti de fábrica e o melhor piloto Honda na ausência de Marquez é o Nakagami.

    A Ligier de 95 é auge da cópia mesmo. Se não me engano, o carro da Pacific de 94 tb era clone da Benetton de 93, alguma coisa assim.

    • Na verdade, o Pacific PR01 era um projeto da Reynard. Era um desenho do Rory Byrne para a Reynard em 1991, numa época em que ele não estava na Benetton. E se você pôde observar, essa tendência de design ele levou para todos os modelos Benetton que desenharia até sair de lá e ir para a Ferrari.

  • Sem contar que os motores Renault que equiparam a Benetton em 95 eram da Ligier e foram transferidos pra Benetton depois da compra do time por Briatore…

  • E me veio a mente outro caso de cópia que foi em 2004: O Modelo C23 da Sauber que era nada mais nada menos que o F2003-GA que a Ferrari usou no ano anterior.
    E outra que me veio a mente foi a RB1, primeiro modelo da Red Bull na F1 que era o R4 da Jaguar,equipe que foi comprada pela Red Bull no final de 2004, em seu último ano de F1.

      • Mas ai não é clonagem em aspecto algum, era exatamente a mesma equipe. Quando a Red Bull comprou a Jaguar, comprou também seus projetos, sua propriedade intelectual, logo, o projeto é dela.

        O Mercedes de 2010 tinha muito do Brawn de 2009, o primeiro Force India era exatamente o último Spyker, o mesmo aconteceu entre Benetton e Renault e outra vez entre Lotus/Genii e Renault e com qualquer outra equipe que tenha sido comprada.

  • Gostei muito do apelido do Flavio Briatore: Dom Corleone.

    No quesito clone perfeito, penso que o 1ª lugar deve ser dado para a Benetton e a Ligier.

    Racing Point: fica muito difícil de entender a punição, pois não faz sentido o carro continuar correndo depois de ser punido!!! Se é uma punição para ser levada a sério, a Racing Point não poderia correr na Espanha no próximo domingo, ou seja, a equipe teria que fazer um novo carro para poder participar da corrida seguinte, na Bélgica. E nesse novo carro não é só o sistema de freios que deve ser trocado. O correto seria um carro totalmente novo, sem clonagem, mas, claro, isso também é complicado, não daria tempo de começar do zero, tem ainda o crash-test da FIA, enfim…

    Racing Point – Parte 2 – A Missão. Os phoddões da FIA se julgam a última bolacha do pacote, e têm um Regulamento da Fórmula 1 com 46 artigos e 7 anexos. Para eles o Regulamento é sagrado, e então fica a pergunta: por que não puniram a Racing Point quando o carro foi mostrado na Austrália? Na Austrália, a FIA comeu mosca, a FIA errou feio.

  • Rodrigo,

    Muito bem lembrada a dupla Ligier-Benneton !!!! Embora a Arrows-Shadow seja a mais lembrada, essa outra dupla é tão “gemea” quanto.

    Antonio

  • Racing Point: fica muito difícil de levar a sério a punição, pois não faz sentido o carro continuar correndo depois de ser punido!!!

    • Se a FIA fosse séria, a Racing Point não poderia correr na Espanha.Eles teriam que fazer um novo carro, sem clonagem nos freios, ou melhor, sem nenhuma clonagem. Mas, claro, um novo carro demora para ser projetado e fabricado, tem ainda o crash-test da FIA…

      Resumindo: não daria tempo desse novo carro correr em 2020.

      A verdade é que a FIA errou feio e comeu mosca na Austrália.O carro da Racing Point tinha que ser rejeitado já na Austrália, antes do campeonato começar.

  • Demorou muito e a decisão não vai satisfazer ninguém.
    Claro que Papa Stroll não ficou feliz em mexer no dinheiro da cerveja do fim de semana para pagar a multa.
    Claro que Toto Wolff não ficou feliz por saber que teve o nome da equipe em boca de Matilde.
    Claro que as outras equipes não ficaram feliz pela Racing India Martin “só” perderem 15 pontos, mas continuarem com o mesmíssimo carro no final da temporada. Tentaram agradar gregos e troianos e não agradaram ninguém.
    Claro que, se a Aston Force Point não estivesse sendo a terceira força, mas se tivesse brigando pela rabeira com a Haas, Alfa Romeo e a Williams, não teria um décimo dessa gritaria toda. Só gritaram porque a cópia funcionou.
    Imagine se a matriz desse ano tivesse sido mal nascida e a cópia do ano passado estivesse andando melhor, e Son Stroll e Checo Perez disputando pódios e vitórias sem depender de cisnes negros nem zicas do pântano. Aí teriam protestos com coquetel molotov e tudo.

  • Lembro de já ter lido em algum lugar que o Ligier e o Benetton foram desambarcados do mesmo caminhão em algum teste, vindo da mesma fábrica… mais que um clone, foi feito o mesmo carro apenas com as diferenças necessárias para motores diferentes. Bem como os STR e os RBR que chegaram a ser fabricados na mesma Red Bull Tecnology, também com diferenças de motores, nos fins da década passada.

Por Rodrigo Mattar

Reclames

Perfil

Rodrigo Mattar, carioca de 49 anos. Apaixonado por automobilismo desde os nove, é jornalista especializado em esportes a motor desde 1998. Estagiou no Jornal do Brasil e numa assessoria de comunicação antes de ingressar na Rede Globo. Em 2003, foi para o SporTV, onde foi editor dos hoje extintos programas Grid Motor e Linha de Chegada. No mesmo ano, iniciou sua trajetória como comentarista, estreando numa transmissão de uma corrida de Stock Car, realizada no saudoso Autódromo de Jacarepaguá. Há sete anos, está no Fox Sports, atuando como editor responsável do programa Fox Nitro e comentarista de diversas categorias, entre as quais Rali Dakar, Nascar, MXGP, WTCC, WRC, FIA WEC, IMSA, Fórmula E, WTCR e Superbike Series Brasil. Conduz o blog A Mil Por Hora, agora no GRANDE PRÊMIO, desde 2008.

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