Equipes históricas – Ligier, parte V

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Não se espantem, leitores: este é um registro do primeiro teste do Ligier JS21 em Paul Ricard, na França

RIO DE JANEIRO – A FIA provocou uma verdadeira revolução na F1 para a temporada de 1983, encerrando com o regulamento que permitia o efeito-solo, dando total liberdade de desenvolvimento para novos projetos com chassis de fundo plano. A criatividade estava de volta e a Ligier, após o fim da parceria com a Talbot, trazia muitas novidades para a sétima temporada de sua trajetória na categoria.

Os engenheiros Michel Beaujon, Claude Galopin e Henri Durand conceberam o novo carro do time, que marcava o retorno aos motores Ford Cosworth V8. Com radiadores montados nas laterais e traseira toda carenada, à imagem e semelhança do JS19, o JS21 tinha formas mais suaves do que o abrutalhado JS17B, por exemplo. A grande novidade era o sistema de suspensão, hidropneumático e inspirado no Citroën-Maserati de rua.

Com a saída de Jacques Laffite para a Williams e de Eddie Cheever para a Renault, Guy Ligier socorreu-se de dois novos contratados. O velho recruta Jean-Pierre Jarier, aos 36 anos, já estava na curva descendente da parábola. Mas foi lembrado para assumir o carro #25. Seu companheiro de equipe seria o brasileiro Raul Boesel, que estreara em 1982 pela March e tinha apoio do Café do Brasil (IBC) e da Embratur, que contribuíram para garantir a presença do piloto em sua segunda temporada na categoria.

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Raul Boesel fez uma boa corrida no GP do Brasil, mas abandonou em Jacarepaguá na estreia pela Ligier, com pane elétrica

O começo da temporada da Ligier foi bem razoável. Jarier fez o 12º tempo no grid do GP do Brasil e Raul Boesel classificou-se na 17ª posição. Os dois andaram no meio do bolo durante o primeiro terço da corrida, embolados com Marc Surer – que chegaria em 6º – e Jacques Laffite, o quarto colocado. Mas os JS21 ficaram pelo caminho: Jarier abandonou por quebra de semi-eixo e Raul teve que se retirar, vítima de pane elétrica, quando já ocupava o 13º lugar – atrás de Chico Serra.

No GP dos EUA-Oeste, em Long Beach, Jarier mostrou a velha verve, largando em décimo e alcançando inclusive o 2º lugar, atrás de Jacques Laffite. Mas o “Jumper” bateu, tipicamente por excesso de entusiasmo, e deu adeus à disputa. Boesel largou de último no grid, fez uma corrida de paciência e por pouco não foi premiado com um ponto: acabou em 7º, duas voltas atrás de John Watson, que largara apenas quatro posições à sua frente.

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A hierarquia era bem clara dentro do time: Jarier tinha direito aos melhores pneus e motores. Para Boesel, ficavam as sobras de equipamento…

A partir do GP da França, mesmo tendo conseguido bons desempenhos, Boesel percebeu que a Ligier trabalharia única e exclusivamente em prol de Jarier e, com muita sorte, sobrariam jogos novos de pneus e motores com pouco uso. Mas o carro não teve bom desempenho em Paul Ricard: Jarier largou em 20º e o brasileiro em penúltimo. Na corrida, o francês ainda alcançou a nona posição. Boesel seguiu entre os últimos até seu motor quebrar, na 48ª volta.

Nada de novo nos treinos em San Marino: Boesel voltou a se qualificar na última fila e Jarier, pouco à frente do companheiro de equipe, ficou no meio do caminho. O brasileiro fez um bom trabalho em Imola e apesar das evidentes limitações do seu JS21, acabou em 9º lugar. Em Mônaco, na famosa corrida em que a McLaren não conseguiu classificação, Boesel foi ajudado pela chuva que impediu a melhora dos adversários e largou em 18º. Com pista seca, talvez ele não se classificasse – mas sua corrida durou pouco: bateu após três voltas apenas. Jarier foi nono no grid e ocupava a mesma posição na corrida, quando desistiu por problemas hidráulicos.

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Nem mesmo a larga experiência de Jarier foi capaz de fazer a Ligier ir para a frente na temporada de 1983

Dentre os carros com motor aspirado, o JS21 era o que tinha uma das piores performances e nem as pistas mais travadas favoreciam os pilotos. As mais velozes, então, menos ainda: em Spa-Francorchamps, na volta do lendário circuito belga ao calendário, Jarier qualificou-se em 21º e Boesel em último, para terminar a prova em 13º. Em Detroit, no GP dos EUA-Leste, Raul obteve a décima posição, vindo de 23º no pelotão. Jarier desistiu com uma porca de roda quebrada.

A impaciência do velho “Jumper” também não contribuía para melhorar o clima e as coisas só iriam piorar na segunda metade do campeonato. No Canadá, nenhum dos dois terminou a corrida e no GP da Inglaterra, Jarier foi o 10º colocado. Em Hockenheim, Raul teve a real dimensão do que ele valia para a equipe, quando após sofrer um acidente nos treinos, não recebeu qualquer tipo de ajuda de um integrante da Ligier. Nem o patrão Guy se deu ao trabalho de aparecer e saber como estava o piloto. Com o carro consertado, Boesel largou em penúltimo e abandonou por quebra de motor. Jarier chegou em 9º lugar.

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Concebido para usar um sistema de suspensão hidropneumática semelhante ao Citroën de rua, o JS21 foi um grande fracasso na temporada de 1983

A essa altura, o sistema de suspensão hidropneumática já havia sido abandonado, mas a temporada caminhava para o completo desastre. Boesel não teve nenhuma chance de se classificar no GP da Áustria, em que Jarier, largando de 20º, igualou o 7º lugar do brasileiro em Long Beach como seu melhor resultado do ano. Na Holanda, Raul conseguiu a décima posição e na Itália, voltou a não se classificar. Jarier foi o nono.

As últimas etapas foram o fim do suplício e também o fim da passagem de Raul Boesel na F1: ele chegou em 15º lugar no GP da Europa, em Brands Hatch e não foi classificado em Kyalami, no GP da África do Sul, embora tivesse recebido a quadriculada – Raul não completou o número mínimo de voltas na ocasião. Jarier despediu-se da categoria abandonando em Brands e chegando em 10º na última prova de sua trajetória.

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Tudo novo para 1984: motores turbo, novos pilotos e até o visual. Mas o carro era um dos mais feios do ano

Pela primeira vez em sua história, a Ligier terminava um Mundial sem um mísero ponto. Mas para 1984, Guy Ligier prometia tudo diferente, a começar pelo pacote técnico. Contemplado com o maciço apoio do governo francês, uma vez que era amigo pessoal do presidente do país, François Mitterrand, Oncle Guy preparou-se para receber pela primeira vez um suprimento de motores turbo. Com o dinheiro da Loto (Loteria Francesa) e da Antar, que substituía a Elf pela primeira vez, a equipe pôde pagar pelas unidades Renault Turbo, as mesmas da Régie e da Lotus.

O novo carro, tido como um dos mais feios do ano em disputa duríssima com o Tyrell 012, era o JS23, do mesmo trio de projetistas do malfadado JS21 – Beaujon, Galopin e Durand. Mas foram nítidos os esforços em se fazer um carro mais simples e funcional, sem grandes invencionices. O problema residia nos pilotos escolhidos: o imprevisível Andrea De Cesaris, que até fizera uma temporada bastante boa pela Alfa Romeo em 1983 e o desconhecido François Hesnault, vice-campeão francês de F3 naquele mesmo ano.

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A Ligier, com o beneplácito do presidente François Mitterrand, recebeu o patrocínio da Loto e os motores Renault EF4 Turbo

Para 1984, a F1 experimentava outra modificação no regulamento: com o fim do reabastecimento rápido, as equipes tinham que administrar uma cota de combustível – 220 litros – ao longo de cada corrida. Os pilotos teriam que fazer o papel de acelerar sem esquecer do consumo, correndo sérios riscos de ficar no meio do caminho. E o motor Renault já ganhava fama de beberrão. Mais um problema à vista…

O ano começou com o GP do Brasil e De Cesaris, logicamente, foi bem melhor que Hesnault nos treinos. Mas na corrida os dois abandonaram. E logo na corrida seguinte, o GP da África do Sul, Andrea fez um belo papel largando de 14º para chegar em quinto, somando os primeiros pontos para a Ligier desde o GP de Las Vegas em 1982. Hesnault foi até o fim e cruzou em décimo.

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Próximo do pódio: De Cesaris chegou a andar em 3º no GP de San Marino, mas o combustível acabou a poucas voltas do final

Na Bélgica, De Cesaris mostrou sua propensão natural para acidentes, despedindo-se da disputa por batida, na 42ª volta. Hesnault durou menos em Zolder e bateu com o compatriota Patrick Tambay em San Marino. Correndo em casa, já que o GP daquela minúscula república é na Itália, De Cesaris foi excelente: fez a quarta volta mais rápida da prova e chegou a ocupar o 3º lugar. Mas, adivinhem o que aconteceu? Isso mesmo: pane seca na Ligier JS23 Renault Turbo. E o italiano acabou apenas em sexto, pelo menos somando mais um ponto no campeonato.

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Sem lugar no grid por chuva e problemas no extintor de incêndio de seu carro, De Cesaris só largou no GP da França porque François Hesnault ‘voluntariamente’ se retirou da corrida

Para o GP da França, De Cesaris passou por um tremendo vexame: seu carro foi reprovado na vistoria técnica por irregularidades num extintor de incêndio durante o primeiro treino classificatório. No segundo, quando tinha que melhorar seu tempo, a pista úmida nada ajudou e ele ficou com o 27º e último tempo – 20 segundos atrás da pole position de Patrick Tambay. Hesnault, 14º no grid, foi obrigado pela hierarquia do time a ceder seu lugar. O italiano fez até uma boa corrida de recuperação: de último, terminou em décimo.

No aquático GP de Mônaco, De Cesaris largou em 7º mas bateu antes mesmo de completar a primeira volta. Hesnault teve o mérito de assegurar uma vaga entre os 20 aptos a largar e sobreviveu até a 12ª volta – estava em 12º quando enfrentou problemas elétricos e desistiu. No Canadá, ambos abandonaram por problemas mecânicos. Em Detroit, Hesnault desistiu por batida logo no comecinho e o motor da Ligier de Andrea De Cesaris superaqueceu quando o piloto era último entre os 16 que estavam na disputa na altura da 24ª volta.

O destino dos dois pilotos seria o mesmo no GP de Dallas, num horroroso circuito de rua montado naquela cidade do Texas: abandono, por acidente. Em Brands Hatch, De Cesaris chegou em 10º e Hesnault abandonou por pane elétrica. Na Alemanha, os dois conseguiram terminar próximos um do outro no resultado final – sétimo e oitavo – mas nos treinos de classificação o italiano dava incontáveis surras no companheiro francês. E na Áustria, Hesnault conseguiu um 8º posto bastante razoável, igualando o melhor resultado da temporada – superado na Holanda com a sétima posição. De Cesaris abandonou com problemas mecânicos.

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O melhor resultado do medíocre Hesnault foi o 7º lugar no GP da Holanda, em Zandvoort

No GP da Itália, a corrida da dupla da Ligier terminou com menos de dez voltas e em Nürburgring, Andrea fez o que pôde para terminar nos pontos – mas não deu: foi 7º colocado, três posições adiante de Hesnault. Em Portugal, na última corrida da temporada, François ficou de fora na 31ª passagem e De Cesaris chegou em décimo. E foi tudo.

Até que o ano foi melhor que o de 1983, é óbvio. Mas esteve muito longe do patamar espetacular do triênio 1979/1981. A Ligier fechou o Mundial de Construtores em 10º lugar, um ponto apenas à frente da Osella. E isso porque a Tyrrell foi eliminada da classificação final. A crise era tão grande que, além da escuderia de Enzo Osella, só Spirit, RAM e ATS – que fecharia suas portas – ficaram atrás do time do velho Guy.

No próximo post, o blog relembrará as temporadas (muito boas, por sinal) da equipe francesa em 1985 e 1986.

Sobre o Autor

Rodrigo Mattar

8 Comentários

  • cara, esses seus textos sobre equipes históricas são demais. todo dia dou uma passada no blog para ver se tem novidades. como sou de 84 e acompanho a f1 com afinco desde 96 (eu até via com frequência, mas a partir de 96 passei a ficar viciado, comprar revistas, jornais, guias, livros e etc sobre automobilismo), essa parte da história é relativamente nova para mim.
    aproveito a oportunidade de sugerir as próximas equipes, preferencialmente aquelas médias…:
    – brabham
    – march
    – jordan
    abs
    Renan

      • Grande Rodrigo!

        Como sempre, texto sensacional, bela história! Se é para ajudar a solucionar a sua dúvida, faço votos para ler sobre a Jordan em breve. Obrigado e forte ABRAÇO

  • Ahh!! Os carros da Ligier ate 82 eram bonitos, principalmente 79 a 81 Agora feio mesmo é o de 83, esse sim tenebroso, Ja o de 84 eu gostava… Esses post de equipes historicas sao bem legais

  • Chovendo no molhado, até porque já elogiaram (merecidamente) o seu trabalho:
    Como é bom passar por aqui e poder acompanhar com gosto aquilo que você faz com extrema competência.
    Ao contrário daquele outro escriba protegido pelo mesmo guarda-chuva, que mistura alhos com bugalhos quando se mete a falar de política e tenta nos empurrar goela abaixo suas convicções. . .num momento indefensável para aqueles por quem nutre indisfarçável preferência.!
    Abraço.
    Zé Maria

  • Rodrigo, me corrija se eu estiver errado os pilotos que testaram a Ligier em 1983 foram o francês Michel Ferté e o argentino Carlos Reutemann não foi?
    Inclusive a foto do teste é o francês ao volante.

    Abraço forte

Por Rodrigo Mattar

Reclames

Perfil

Rodrigo Mattar, carioca de 49 anos. Apaixonado por automobilismo desde os nove, é jornalista especializado em esportes a motor desde 1998. Estagiou no Jornal do Brasil e numa assessoria de comunicação antes de ingressar na Rede Globo. Em 2003, foi para o SporTV, onde foi editor dos hoje extintos programas Grid Motor e Linha de Chegada. No mesmo ano, iniciou sua trajetória como comentarista, estreando numa transmissão de uma corrida de Stock Car, realizada no saudoso Autódromo de Jacarepaguá. Há sete anos, está no Fox Sports, atuando como editor responsável do programa Fox Nitro e comentarista de diversas categorias, entre as quais Rali Dakar, Nascar, MXGP, WTCC, WRC, FIA WEC, IMSA, Fórmula E, WTCR e Superbike Series Brasil. Conduz o blog A Mil Por Hora, agora no GRANDE PRÊMIO, desde 2008.

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