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13 de outubro de 2015 - 14:50Equipes Históricas, Fórmula 1

Equipes históricas – Ligier, parte V

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Não se espantem, leitores: este é um registro do primeiro teste do Ligier JS21 em Paul Ricard, na França

RIO DE JANEIRO – A FIA provocou uma verdadeira revolução na F1 para a temporada de 1983, encerrando com o regulamento que permitia o efeito-solo, dando total liberdade de desenvolvimento para novos projetos com chassis de fundo plano. A criatividade estava de volta e a Ligier, após o fim da parceria com a Talbot, trazia muitas novidades para a sétima temporada de sua trajetória na categoria.

Os engenheiros Michel Beaujon, Claude Galopin e Henri Durand conceberam o novo carro do time, que marcava o retorno aos motores Ford Cosworth V8. Com radiadores montados nas laterais e traseira toda carenada, à imagem e semelhança do JS19, o JS21 tinha formas mais suaves do que o abrutalhado JS17B, por exemplo. A grande novidade era o sistema de suspensão, hidropneumático e inspirado no Citroën-Maserati de rua.

Com a saída de Jacques Laffite para a Williams e de Eddie Cheever para a Renault, Guy Ligier socorreu-se de dois novos contratados. O velho recruta Jean-Pierre Jarier, aos 36 anos, já estava na curva descendente da parábola. Mas foi lembrado para assumir o carro #25. Seu companheiro de equipe seria o brasileiro Raul Boesel, que estreara em 1982 pela March e tinha apoio do Café do Brasil (IBC) e da Embratur, que contribuíram para garantir a presença do piloto em sua segunda temporada na categoria.

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Raul Boesel fez uma boa corrida no GP do Brasil, mas abandonou em Jacarepaguá na estreia pela Ligier, com pane elétrica

O começo da temporada da Ligier foi bem razoável. Jarier fez o 12º tempo no grid do GP do Brasil e Raul Boesel classificou-se na 17ª posição. Os dois andaram no meio do bolo durante o primeiro terço da corrida, embolados com Marc Surer – que chegaria em 6º – e Jacques Laffite, o quarto colocado. Mas os JS21 ficaram pelo caminho: Jarier abandonou por quebra de semi-eixo e Raul teve que se retirar, vítima de pane elétrica, quando já ocupava o 13º lugar – atrás de Chico Serra.

No GP dos EUA-Oeste, em Long Beach, Jarier mostrou a velha verve, largando em décimo e alcançando inclusive o 2º lugar, atrás de Jacques Laffite. Mas o “Jumper” bateu, tipicamente por excesso de entusiasmo, e deu adeus à disputa. Boesel largou de último no grid, fez uma corrida de paciência e por pouco não foi premiado com um ponto: acabou em 7º, duas voltas atrás de John Watson, que largara apenas quatro posições à sua frente.

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A hierarquia era bem clara dentro do time: Jarier tinha direito aos melhores pneus e motores. Para Boesel, ficavam as sobras de equipamento…

A partir do GP da França, mesmo tendo conseguido bons desempenhos, Boesel percebeu que a Ligier trabalharia única e exclusivamente em prol de Jarier e, com muita sorte, sobrariam jogos novos de pneus e motores com pouco uso. Mas o carro não teve bom desempenho em Paul Ricard: Jarier largou em 20º e o brasileiro em penúltimo. Na corrida, o francês ainda alcançou a nona posição. Boesel seguiu entre os últimos até seu motor quebrar, na 48ª volta.

Nada de novo nos treinos em San Marino: Boesel voltou a se qualificar na última fila e Jarier, pouco à frente do companheiro de equipe, ficou no meio do caminho. O brasileiro fez um bom trabalho em Imola e apesar das evidentes limitações do seu JS21, acabou em 9º lugar. Em Mônaco, na famosa corrida em que a McLaren não conseguiu classificação, Boesel foi ajudado pela chuva que impediu a melhora dos adversários e largou em 18º. Com pista seca, talvez ele não se classificasse – mas sua corrida durou pouco: bateu após três voltas apenas. Jarier foi nono no grid e ocupava a mesma posição na corrida, quando desistiu por problemas hidráulicos.

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Nem mesmo a larga experiência de Jarier foi capaz de fazer a Ligier ir para a frente na temporada de 1983

Dentre os carros com motor aspirado, o JS21 era o que tinha uma das piores performances e nem as pistas mais travadas favoreciam os pilotos. As mais velozes, então, menos ainda: em Spa-Francorchamps, na volta do lendário circuito belga ao calendário, Jarier qualificou-se em 21º e Boesel em último, para terminar a prova em 13º. Em Detroit, no GP dos EUA-Leste, Raul obteve a décima posição, vindo de 23º no pelotão. Jarier desistiu com uma porca de roda quebrada.

A impaciência do velho “Jumper” também não contribuía para melhorar o clima e as coisas só iriam piorar na segunda metade do campeonato. No Canadá, nenhum dos dois terminou a corrida e no GP da Inglaterra, Jarier foi o 10º colocado. Em Hockenheim, Raul teve a real dimensão do que ele valia para a equipe, quando após sofrer um acidente nos treinos, não recebeu qualquer tipo de ajuda de um integrante da Ligier. Nem o patrão Guy se deu ao trabalho de aparecer e saber como estava o piloto. Com o carro consertado, Boesel largou em penúltimo e abandonou por quebra de motor. Jarier chegou em 9º lugar.

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Concebido para usar um sistema de suspensão hidropneumática semelhante ao Citroën de rua, o JS21 foi um grande fracasso na temporada de 1983

A essa altura, o sistema de suspensão hidropneumática já havia sido abandonado, mas a temporada caminhava para o completo desastre. Boesel não teve nenhuma chance de se classificar no GP da Áustria, em que Jarier, largando de 20º, igualou o 7º lugar do brasileiro em Long Beach como seu melhor resultado do ano. Na Holanda, Raul conseguiu a décima posição e na Itália, voltou a não se classificar. Jarier foi o nono.

As últimas etapas foram o fim do suplício e também o fim da passagem de Raul Boesel na F1: ele chegou em 15º lugar no GP da Europa, em Brands Hatch e não foi classificado em Kyalami, no GP da África do Sul, embora tivesse recebido a quadriculada – Raul não completou o número mínimo de voltas na ocasião. Jarier despediu-se da categoria abandonando em Brands e chegando em 10º na última prova de sua trajetória.

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Tudo novo para 1984: motores turbo, novos pilotos e até o visual. Mas o carro era um dos mais feios do ano

Pela primeira vez em sua história, a Ligier terminava um Mundial sem um mísero ponto. Mas para 1984, Guy Ligier prometia tudo diferente, a começar pelo pacote técnico. Contemplado com o maciço apoio do governo francês, uma vez que era amigo pessoal do presidente do país, François Mitterrand, Oncle Guy preparou-se para receber pela primeira vez um suprimento de motores turbo. Com o dinheiro da Loto (Loteria Francesa) e da Antar, que substituía a Elf pela primeira vez, a equipe pôde pagar pelas unidades Renault Turbo, as mesmas da Régie e da Lotus.

O novo carro, tido como um dos mais feios do ano em disputa duríssima com o Tyrell 012, era o JS23, do mesmo trio de projetistas do malfadado JS21 – Beaujon, Galopin e Durand. Mas foram nítidos os esforços em se fazer um carro mais simples e funcional, sem grandes invencionices. O problema residia nos pilotos escolhidos: o imprevisível Andrea De Cesaris, que até fizera uma temporada bastante boa pela Alfa Romeo em 1983 e o desconhecido François Hesnault, vice-campeão francês de F3 naquele mesmo ano.

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A Ligier, com o beneplácito do presidente François Mitterrand, recebeu o patrocínio da Loto e os motores Renault EF4 Turbo

Para 1984, a F1 experimentava outra modificação no regulamento: com o fim do reabastecimento rápido, as equipes tinham que administrar uma cota de combustível – 220 litros – ao longo de cada corrida. Os pilotos teriam que fazer o papel de acelerar sem esquecer do consumo, correndo sérios riscos de ficar no meio do caminho. E o motor Renault já ganhava fama de beberrão. Mais um problema à vista…

O ano começou com o GP do Brasil e De Cesaris, logicamente, foi bem melhor que Hesnault nos treinos. Mas na corrida os dois abandonaram. E logo na corrida seguinte, o GP da África do Sul, Andrea fez um belo papel largando de 14º para chegar em quinto, somando os primeiros pontos para a Ligier desde o GP de Las Vegas em 1982. Hesnault foi até o fim e cruzou em décimo.

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Próximo do pódio: De Cesaris chegou a andar em 3º no GP de San Marino, mas o combustível acabou a poucas voltas do final

Na Bélgica, De Cesaris mostrou sua propensão natural para acidentes, despedindo-se da disputa por batida, na 42ª volta. Hesnault durou menos em Zolder e bateu com o compatriota Patrick Tambay em San Marino. Correndo em casa, já que o GP daquela minúscula república é na Itália, De Cesaris foi excelente: fez a quarta volta mais rápida da prova e chegou a ocupar o 3º lugar. Mas, adivinhem o que aconteceu? Isso mesmo: pane seca na Ligier JS23 Renault Turbo. E o italiano acabou apenas em sexto, pelo menos somando mais um ponto no campeonato.

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Sem lugar no grid por chuva e problemas no extintor de incêndio de seu carro, De Cesaris só largou no GP da França porque François Hesnault ‘voluntariamente’ se retirou da corrida

Para o GP da França, De Cesaris passou por um tremendo vexame: seu carro foi reprovado na vistoria técnica por irregularidades num extintor de incêndio durante o primeiro treino classificatório. No segundo, quando tinha que melhorar seu tempo, a pista úmida nada ajudou e ele ficou com o 27º e último tempo – 20 segundos atrás da pole position de Patrick Tambay. Hesnault, 14º no grid, foi obrigado pela hierarquia do time a ceder seu lugar. O italiano fez até uma boa corrida de recuperação: de último, terminou em décimo.

No aquático GP de Mônaco, De Cesaris largou em 7º mas bateu antes mesmo de completar a primeira volta. Hesnault teve o mérito de assegurar uma vaga entre os 20 aptos a largar e sobreviveu até a 12ª volta – estava em 12º quando enfrentou problemas elétricos e desistiu. No Canadá, ambos abandonaram por problemas mecânicos. Em Detroit, Hesnault desistiu por batida logo no comecinho e o motor da Ligier de Andrea De Cesaris superaqueceu quando o piloto era último entre os 16 que estavam na disputa na altura da 24ª volta.

O destino dos dois pilotos seria o mesmo no GP de Dallas, num horroroso circuito de rua montado naquela cidade do Texas: abandono, por acidente. Em Brands Hatch, De Cesaris chegou em 10º e Hesnault abandonou por pane elétrica. Na Alemanha, os dois conseguiram terminar próximos um do outro no resultado final – sétimo e oitavo – mas nos treinos de classificação o italiano dava incontáveis surras no companheiro francês. E na Áustria, Hesnault conseguiu um 8º posto bastante razoável, igualando o melhor resultado da temporada – superado na Holanda com a sétima posição. De Cesaris abandonou com problemas mecânicos.

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O melhor resultado do medíocre Hesnault foi o 7º lugar no GP da Holanda, em Zandvoort

No GP da Itália, a corrida da dupla da Ligier terminou com menos de dez voltas e em Nürburgring, Andrea fez o que pôde para terminar nos pontos – mas não deu: foi 7º colocado, três posições adiante de Hesnault. Em Portugal, na última corrida da temporada, François ficou de fora na 31ª passagem e De Cesaris chegou em décimo. E foi tudo.

Até que o ano foi melhor que o de 1983, é óbvio. Mas esteve muito longe do patamar espetacular do triênio 1979/1981. A Ligier fechou o Mundial de Construtores em 10º lugar, um ponto apenas à frente da Osella. E isso porque a Tyrrell foi eliminada da classificação final. A crise era tão grande que, além da escuderia de Enzo Osella, só Spirit, RAM e ATS – que fecharia suas portas – ficaram atrás do time do velho Guy.

No próximo post, o blog relembrará as temporadas (muito boas, por sinal) da equipe francesa em 1985 e 1986.

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8 comentários

  1. Renan disse:

    cara, esses seus textos sobre equipes históricas são demais. todo dia dou uma passada no blog para ver se tem novidades. como sou de 84 e acompanho a f1 com afinco desde 96 (eu até via com frequência, mas a partir de 96 passei a ficar viciado, comprar revistas, jornais, guias, livros e etc sobre automobilismo), essa parte da história é relativamente nova para mim.
    aproveito a oportunidade de sugerir as próximas equipes, preferencialmente aquelas médias…:
    – brabham
    – march
    – jordan
    abs
    Renan

    • Rodrigo Mattar disse:

      Renan, fica tranquilo que todas essas aí vão ser citadas. Estou entre March e Jordan para a continuidade da série.

      • Alan disse:

        Grande Rodrigo!

        Como sempre, texto sensacional, bela história! Se é para ajudar a solucionar a sua dúvida, faço votos para ler sobre a Jordan em breve. Obrigado e forte ABRAÇO

  2. Pedro Perez disse:

    Estou de acordo com o Renan, os textos sobre equipes históricas são um grande presente para os saudosistas da velha Formula 1.

  3. alexandre disse:

    Ahh!! Os carros da Ligier ate 82 eram bonitos, principalmente 79 a 81 Agora feio mesmo é o de 83, esse sim tenebroso, Ja o de 84 eu gostava… Esses post de equipes historicas sao bem legais

  4. Zé Maria disse:

    Chovendo no molhado, até porque já elogiaram (merecidamente) o seu trabalho:
    Como é bom passar por aqui e poder acompanhar com gosto aquilo que você faz com extrema competência.
    Ao contrário daquele outro escriba protegido pelo mesmo guarda-chuva, que mistura alhos com bugalhos quando se mete a falar de política e tenta nos empurrar goela abaixo suas convicções. . .num momento indefensável para aqueles por quem nutre indisfarçável preferência.!
    Abraço.
    Zé Maria

  5. Fábio Montcord disse:

    Rodrigo, me corrija se eu estiver errado os pilotos que testaram a Ligier em 1983 foram o francês Michel Ferté e o argentino Carlos Reutemann não foi?
    Inclusive a foto do teste é o francês ao volante.

    Abraço forte

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